19 de agosto de 1999
Olha, o dia de hoje foi tão absurdo que antes
de começar tenho que reafirmar que não estou inventando
nada... Incrível como as coisas podem dar errado simplesmente
por causa de regras estúpidas e inválidas!!!
Hoje eu fui tirar o CIC, ou CPF, seja lá o que for. Acordei
6:30 da manhã para que meu irmão pudesse me levar
lá bem cedo, no caminho do seu trabalho, porque é
necessário pegar senha para conseguir fazer o documento
na Receita Federal. Saímos de casa às sete, e sete
e meia eu estava na fila. Ele me deixou no cruzamento da Celso
Garcia com a Salim Maluf e eu subi a Celso Garcia a pé.
Estava aguardando na fila, quando chegou um carinha que devia
ter a minha idade e sentou-se no chão. Logo após
chegou um cara mais velho, um contador, e conversou um pouco
comigo. Nada demais, só aquelas informações
de fila, sabe? Que horas começa a atender, o que cada
um ia fazer, por que chegamos tão cedo... quando o assunto
acabou, eu me sentei no chão e comecei a ler um texto
de sociologia que estava na pasta que eu carregava. Detalhe,
a receita federal só começava a atender às
dez da manhã e ainda eram oito horas... Aquele cara que
estava sentado no chão começou a conversar com
o carinha mais velho e eu o ouvi falar que ele morava no Butantã.
Como estudo neste bairro e acho um fim de mundo vir de lá
pra cá, pois lá é zona oeste e aqui é
zona leste, conversei um pouco com ele também. Eu não
tinha reparado mas tinha uma garota logo atrás do cara
mais velho, sentada no chão, estudando para o concurso
do Banco do Brasil. O cara que estava sentado se interessou por
ela e começou a falar comigo sobre umas garotas que ele
chegou por aí, em uns shows e não sei o que mais.
Eu só ouvindo e rindo (formalidade), que mais eu podia
fazer, já que eu tinha que ficar lá até
as dez horas, que fosse na paz. O nome dele era Fábio.
Depois de um tempo ele disse que iria chegar nela e eu brinquei
que ele tinha só até as dez horas pra fazer alguma
coisa e já eram quase nove. Conversa vai, conversa vem
e ele me pediu pra chegar nela e falar que ele a queria conhecer.
Dá pra encarar? Eu, chegar numa mina pra um cara que eu
nem conheço??? Pra chegar pra mim já é uma
dificuldade.... Pro inferno. Disse que não, que era ele
que estava interessado, que chegasse. Ele enrolou, enrolou...
cagou no pau, pra falar a verdade e ela acabou indo embora. Ela
só estava guardando lugar na fila e assim que chegou a
mulher pra quem ela fazia o favor, foi-se. Ele olhou pra mim
e eu disse: "Demorou...". Depois disso ele ficou enchendo
meu saco pra eu perguntar o que aquela mulher era dela. Eu disse
que não, pois ela poderia ser mãe da garota e iria
ficar muito chato. Depois eu pensei o seguinte, se eu perguntasse
e ela não fosse nada dela, diria que era porque o Fábio
queria saber, agora, se ela fosse a mãe da menina, então
eu diria que era porque eu queria saber como faz pra prestar
o concurso do Banco do Brasil, para o qual ela estava estudando.
Ficou acertado assim. Eu perguntei, depois de ter toda a garantia
de que o cara não ia me deixar na mão, e ela disse
que a menina trabalhava com ela no escritório. Ficou assim,
ele ficou sabendo, eu fiz minha parte e assim passaram as horas
até as dez, quando abriu a Receita Federal. Só
fui entrar no prédio às dez e meia. Fiquei uns
cinco minutos na fila, lá dentro, perguntei pra uma menina
que estava preenchendo o formulário do CPF o que precisava
e ela me disse que era o Rg, título e preencher a folha
que eles davam no balcão. Quando cheguei no balcão
e disse que queria tirar meu CPF o atendente perguntou:
- Que documentos você tem aí?
- Rg e Título de eleitor - respondi já tirando
os documentos da carteira.
- Título original ou protocolo?
- Original. - respondi orgulhoso, pois tinha acabado de ir pegá-lo
na junta eleitoral, fui segunda feira lá.
- Pra que você quer o CPF? - perguntou ele já com
uma cara estranha.
- Pro auto-escola. - respondi já pressentindo o pior.
- Ah, então você precisa de uma carta de pedido
do auto-escola pra poder tirar.
- O que ???
- É, só com a carta de pedido.
- Mas como é isso? Não tem jeito? Eu estou aqui
desde às sete e meia.
- Não adianta, se eu fizer isso aqui pra você, depois
lá dentro vão te barrar.
- Putz, tudo bem... falou.
E saí do balcão... fiquei indignado,
não era possível que eu tinha perdido a viagem.
Perguntei pra um guarda onde era o banheiro, porque eu estava
apertadíssimo, e fui. Quando eu saí, vi aquela
menina que eu conversei. Cheguei nela e perguntei por que ela
estava tirando o CPF e o que eles tinham pedido pra ela no balcão.
Ela disse que só aqueles documentos mesmo e não
tinham pedido mais nada. Eu voltei no balcão e falei com
o cara: "Ó, tem uma menina aqui que tá fazendo
o CPF sem mostrar carta nenhuma". Ele disse: "Mas o
título dela é original ou protocolo?" Respondi
que não sabia e perguntei: "que diferença
fazia?". E ele me deu a resposta mais absurda e ridícula
que eu já ouvi: "É que com o protocolo, só
dá pra tirar o CPF aqui, então a gente faz, com
o título original, dá pra tirar nos Correios, então
a gente não faz". Eu pensei "o que importa não
é o número? O pior é que eu ainda fui pegar
essa merda de título nessa mesma semana, exatamente pra
fazer isso.". Insisti, insisti muito pra que ele quebrasse
meu galho, afinal não importava se era protocolo ou não,
o que importava era o número. Mas ele disse que não
podia fazer de jeito nenhum... puto da vida, saí fora.
Liguei pra casa e avisei que não tinha conseguido, que
estava indo pra biblioteca e pros Sebos tentar cumprir a segunda
parte da missão, que era alugar e comprar alguns livros
pra faculdade.
Peguei o metrô e fui pra Sé. Lá na João
Mendes eu iria buscar o livro que não deu pra eu comprar
naquele outro dia, o do Durkheim. Já tinham comprado.
Não tinham mais o exemplar no Sebo. Eu liguei pro Paulo
pra perguntar onde ficava a biblioteca Mário de Andrade
e ele disse que era na estação Anhangabaú.
Fui pro metrô. Uma estação depois estava
eu saindo. Passei pela catraca, perguntei pro guarda onde ficava
a biblioteca e ele disse que eu tinha que ter saído pela
outra saída do metrô. Dei uma puta de uma volta,
passando pelo Mappin (que Deus o tenha), Viaduto do Chá,
Xavier de Toledo pra poder chegar na bendita biblioteca. Entrei,
preenchi a guia de visitação e entrei. Não
tinha o livro que eu queria, mas mesmo que tivesse, eu não
podia levar porque ali eles não emprestavam livros. Perguntei
no balcão como fazia pra alugar e me disseram que era
na biblioteca circulante da R. da Consolação, 1024.
Longe pra burro. Eu só tinha que levar meu Rg. e um comprovante
de residência. Resolvi ir, afinal, precisava desses livros.
Andei como um condenado, morrendo de fome e carregando um monte
de blusas, porque de manhã tava frio, mas à tarde
fez vinte e cinco graus... Andei pra caramba, subi a Consolação
já com minhas últimas forças, passei do
número, voltei, entrei. Dei meus documentos pra moça
do balcão e ela constatou friamente: "essa conta
de telefone é do mês 4, tem que ser recente".
Eu disse, "peraí, eu vim andando do Anhangabaú
até aqui, não é possível que não
tenha jeito de fazer com esse mesmo. Eu não mudei de casa!".
Porra! Eu moro nessa casa praticamente desde que nasci, caraco!
Ela disse que então era pra eu falar com a outra mocinha.
Aliás, engraçado como essas velhas se tratam como
"mocinhas". Coitadas... Fui falar com a outra ..."mocinha".
Contei minha história pra ela, mas ela disse que não
podia "desobedecer o regulamento, porque se desobedecesse
pra um, tinha que desobedecer para os outros". Eu disse:
- Puxa, eu vim andando do Anhangabaú até aqui,
não é possível que isso não sirva.
- Ah, que você quer que eu faça?
- Que você quebre meu galho, ué.
Eu nesse momento eu iria aludir à história de que
quem quebra galho é macaco gordo, de um jeito sutilmente
sarcástico me referindo à gordura da minha interlocutora,
mas foi então que percebi um aviso enorme na parede dizendo
que desacatar funcionário público dava cadeia.
Resolvi deixar quieto. Ela continuou:
- Não posso, nunca quebraram o meu, por que vou quebrar
o seu?
- Porque vingança não leva a nada.
- Não é vingança. - disse ela.
- Mas é fazer o mal e fazer o mal só gera mais
mal.
Ela quis brincar, perguntou se eu não tinha nada mais
recente na carteira, uma carta da namorada, qualquer coisa que
comprovasse meu endereço, mas mais recente. Eu não
tinha.
- Você mora longe? - perguntou ela.
- Ô, muito. Zona leste. Tatuapé - respondi.
- Ah, mas tem uma biblioteca ótima no Tatuapé.
- Mas lá não tem o livro que eu quero. - respondi.
Mas eu sabia lá se tinha ou não, nunca fui lá.
Eu tava é puto da vida.
- Mas quem disse que aqui nós temos? - disse ela querendo
me desmoralizar.
- Eu já vi, e tem. Eu já procurei ali no arquivo.
- e era verdade, quando entrei na sala dela ela estava fazendo
uma carteirinha pra outro cara e eu fui procurar meus livros
no arquivo.
Eu disse:
- Bom, tá bom então. Quer dizer, bom não
tá né, mas fica assim.
- O que eu posso fazer é você pegar o livro, eu
guardo aqui pra você e você volta aqui depois, com
um comprovante mais recente e pega.
- Não, eu não vou voltar mais aqui. Muito obrigado,
viu?
Virei as costas e saí. Cheguei no guarda volumes e brinquei
com o atendente "hoje não é meu dia".
Ele perguntou se não tinha dado certo e eu disse que não.
- Você mora longe? - perguntou.
- Moro, Tatuapé.
- Pô, eu moro em Guaianazes.
Nesse momento me veio novamente a plaquinha de advertência.
Fiquei quieto saí sem dizer obrigado. Pro inferno onde
ele mora. Que a casa dele exploda, eu lá quero saber se
ele mora em Guaianazes, em Itaquera, no Purgatório ou
no Inferno? Fui embora. Desci toda a Consolação
novamente. Mas como nada pode ser completamente ruim, quando
eu estava andando na avenida Ipiranga, achei uma banquinha de
jornal, pequenininha, com um velhinho atendendo. Eu, durante
o caminho, estava perguntando em todas as bancas que via se eles
tinham algum livro da coleção Os Pensadores. E
nenhuma tinha. Aquela banquinha, tão pequena, quase não
me animei a perguntar lá, mas já tinha dado tudo
errado mesmo, por que não?
- Boa tarde, o sr. tem algum livro da coleção Os
Pensadores? - perguntei com minha gentileza característica.
- Tenho. Tenho aqueles ali.
Eu olhei para uma prateleira ao lado e todos os autores que eu
procurava estavam lá, enfileiradinhos, encapadinhos, plastificadinhos...
Peguei Hobbes na mão, que era o motivo maior de eu ter
saído pra procurar livros da coleção. Até
trêmulo de emoção, perguntei o preço.
Cinco reais e noventa centavos... o mais barato que eu tinha
achado até agora era por oito reais. Tirei o dinheiro
da carteira, satisfeito. Paguei, disse "muito obrigado,
mesmo" e fui. Eu nem olhei pra trás, porque eu tinha
certeza que se eu olhasse veria o velhinho criando asas e subindo
aos céus. Aquela banquinha, tão pequena, com todos
os livros que eu queria e a um preço tão barato,
só podia ser enviada por Deus. Fui pra casa, satisfeito
com, pelo menos, uma missão completa.
Cheguei em casa, não tinha a chave do portão e
minha mãe não me ouvia chamar para abrir pra mim.
Tive que pedir pra vizinha chamá-la. Ela a chamou, meu
irmão veio abrir pra mim. Eu almocei, tomei meu remédio
pra desintoxicação, fui até tomar banho
e deitei...
Paulo vai pegar pra mim as xerox que eu preciso ler pra semana
que vem. Minha mãe foi buscar uma carta de pedido de CPF
no auto-escola e amanhã, cedo como hoje, estarei lá
novamente para finalmente tirar meus documentos. Até o
final do ano eu estarei com a carta na mão.
É a maior página do meu diário... que dia...
cadê meu Walk-Man? Quero relaxar...


