PLATÃO
© Álvaro dos Penedos |
Quarta Parte
1. Preliminares
1.1. A vida
Platão
nasce em Atenas na data provável de 428/7 e pertencia á velha
aristocracias da Cidade.
Sabemos que em 404 exerce funções
políticas após a queda de Atenas, na Guerra do Peloponeso.
Abandona essas funções, pouco tempo depois, desiludido com
a actuação dos chamados trinta tiranos. Até ao final
da sua vida nunca mais exerceu qualquer cargo político.
Em 399 sofre outro desgosto: Sócrates
é condenado á morte. O respeito e o carinho de Platão
por Sócrates perdurará ao longo da sua existência.
Após a morte do seu mestre, Platão (acompanhado por outros
Socráticos) faz uma estadia em Mégara, junto de outro socrático,
Euclides. Persistem dúvidas quanto a esta estadia. Receio de represálias
em Atenas ou procura de um local para reflexão; curta ou longa duração
dessa estadia.
Cerca de 388 Platão inicia uma viagem
que o leva ao Egipto, a Cirene (colónia grega do N. de África),
a Tarento no S. de Itália e a Siracusa, na Sicília.
Quanto a esta viagem (há dúvidas
se é uma ou mais) há alguns pontos a mencionar:
é indicativa da curiosidade do filósofo; em Tarento encontra um pitagórico que é um governante, Arquitas, com quem vai manter uma longa amizade; a visita a Siracusa é feita a convite do tirano da Cidade; em Siracusa fica com a esperança de influenciar a política da Cidade devido á relação que estabelece com Dion.
Regressa
a Atenas tendo sofrido alguns dissabores não só em Siracusa
mas também na viagem de retorno.
Platão já deve estar em Atenas
no ano de 387 ou 386. E é por volta de 386 que ele funda a sua escola
- a Academia. Durante aproximadamente quarenta anos (ou seja, até
á sua morte) Platão terá uma actividade intensa de
chefe de escola, docente e escritor.
O filósofo fez ainda mais duas viagens
a Siracusa, em 366 e 361. O seu objectivo eram as reformas políticas
a realizar em Siracusa mas os seus esforços foram em vão.
Em 354 Dion (que tinha iniciado operações
militares em 357) é assassinado e com a sua morte desfez-se o sonho
siciliano de Platão.
Em 348/7, em Atenas, faleceu Platão
com a idade aproximada de 81 anos.
1.2. A formação filosófica de Platão
Aristóteles
numa passagem da Metafísica (A,G,987 ab) refere-se
á formação filosófica de Platão.
Dessa passagem podemos extrair os seguintes
pontos:
Quanto
a Crátilo pouco sabemos. É um heracliteano que radicalizou
a filosofia do Efésio. Só podemos conjecturar que Platão
tivesse sido discípulo de Crátilo quando teria 18 ou 19 anos.
O encontro com Sócrates deu-se quando
Platão andaria á volta dos 20 anos. Permaneceu no circulo
socrático durante 8 anos, ou seja, até á morte de
Sócrates em 399.
De Crátilo, Platão devia ter
recebido a noção de fluir que ele vai aplicar ao mundo sensível.
É por isso que o filósofo vai considerar que se o sensível
não apresenta algo de estável então não há
ciência do sensível, ou por outras palavras, a ciência
não é possível.
Sócrates abriu o caminho a Platão:
há os universais mas, segundo Aristóteles, Platão
vai separá-los do sensível transformando-os em objectos inteligíveis.
A dialéctica e a preocupação
pelo tema da virtude são contribuições importantes
que o filósofo devia ter recebido de Sócrates.
1.3. A obra
A obra de Platão chegou intacta até aos nossos dias. Os diálogos que compõem este espólio são os seguintes:
Deverá
anotar-se que dois diálogos constantes desta lista levantam, ainda
hoje, dúvidas quanto á sua autenticidade: o Hipias
Menor e o Alcibiades.
Com a autoria de Platão temos também
uma colecção de cartas, sendo a chamada carta VII aquela
que é considerada autêntica por vários historiadores;
mas seja como for a carta VII pode ser considerada como um documento importante
para o estudo da vida e da acção do filósofo.
A obra de Platão não está
datada e é evidente que tal facto levanta dificuldades ao historiador.
Se uma cronologia absoluta é altamente
conjectural, já uma cronologia relativa, de uma forma geral, tem
sido considerada como uma tarefa com resultados razoáveis, embora
esta também não esteja isenta de perigos.
A partir do século XIX empreenderam-se
os estudos a estabelecer a cronologia dos diálogos. O método
utilizado foi o estilístico que parte da hipótese de que
o estilo de um escritor se modifica ao longo do tempo.
Foi assim possível indicar grandes
períodos nos quais se inseriam os diálogos (vamos utilizar
os chamados períodos da juventude, da maturidade e da velhice).
Mas convirá dizer que nem todos os problemas ficaram resolvidos
e que ainda hoje subsistem fortes dúvidas quanto ao lugar que deve
ser ocupado por alguns diálogos.
Embora não desfazendo todas as dúvidas
o método estilístico cruzando-se com outros critérios
pode trazer resultados positivos.
Façamos, por fim, uma referência
ao ensino oral de Platão. Há testemunhas de que houve um
ensino oral, doutrina não escrita, por parte do fundador da Academia.
Através desses testemunhos procurou-se
reconstituir esse mesmo ensino. Se há ou não diferenças
fundamentais entre os diálogos e a doutrina não escrita,
qual o verdadeiro Platão é um problema, em aberto, nos nossos
dias.
1.4. O diálogo
Cassandra,
princesa de Tróia, tinha o dom de adivinhar mas as suas palavras
não eram acompanhadas pela persuasão. A tragédia de
Cassandra consiste em dizer a verdade mas esta não é patente
aos seus ouvintes.
Não sendo o filósofo grego,
por norma, um adivinho, tem todavia a preocupação de que
o seu discurso seja convincente. Assim, a forma de que se reveste uma doutrina
torna-se fundamental.
Antes de Platão conhecemos a prosa
dos milésios (praticamente de modo indirecto), o estilo oracular
de Heraclito, a poesia solene de Parménides, entre outros.
Assim, a questão de como se apresenta
o pensamento de um filósofo não é, de forma alguma,
uma questão menor.
É um problema de persuasão
que se coloca aos filósofos gregos.
Podemos dizer que Platão tem um extremo
cuidado com a forma literária. É um cultor do diálogo,
do qual não foi propriamente o fundador nem o único a escrevê-lo.
Mas também podemos dizer que foi ele quem levou mais longe este
género, a que não será alheio o brilhantismo estilístico
que ele possuía.
Apresentemos, agora, algumas características
do diálogo platónico:
- os diálogos têm por cenário a Atenas da 2.º metade de século V, com excepção das Leis;
- Sócrates é um dos personagens dos diálogos, novamente com a excepção das Leis;
- os diálogos apresentam uma variedade de aspectos formais como por exemplo: existência de mitos, diálogos escritos na primeira pessoa ou narrados, com prólogo ou sem prólogo, por vezes com interlúdios.
Uma das questões que se levantam quanto ao diálogo platónico é o das suas origens ou razões que levaram Platão a utilizar este género. Segundo pensamos podemos avançar três razões:
- o diálogo pretende imitar as conversas de Sócrates;
- o talento literário de Platão devia levá-lo a considerar com atenção o teatro seu contemporâneo. O jovem Platão assiste ao período áureo desse género;
- o filósofo não tem uma intenção sistemática. O seu pendor pedagógico e o gosto pelo método exprimem-se com mais facilidade através do diálogo.
O diálogo platónico levanta um série de problemas delicados das quais apenas alguns tivemos a preocupação de levantar.
1.5. Dificuldades no acesso á filosofia platónica
O
facto de ter chegado até aos nossos dias a obra completa de Platão
poderá levar a pensar-se que muitas das dificuldades que encontramos
no estudo da filosofia grega estarão ausentes na abordagem á
obra de Platão.
É certo que com o fundador da Academia
podemos ter a visão global da filosofia de um autor o que é,
sem dúvida, francamente positivo.
Vejamos, agora, algumas dificuldades que
se deparam no estudo da filosofia platónica, sendo algumas delas
comuns ao pensamento grego:
- a linguagem
A
língua grega apresenta problemas difíceis de ultrapassar.
A tradução de vários termos empregados por Platão
não é, ainda hoje, pacifica. Não há uma estrita
correspondência entre palavras gregas e palavras nas línguas
actuais. Há termos gregos que têm uma coloração
que, por exemplo, não existe no português.
Pensamos que, pelo menos em parte, se poderá
tornear esta dificuldade. O método consiste em analisar os termos
em causa dando-lhes a significação, por vezes complexa, que
pensamos que contêm no contexto platónico. Tentemos ser mais
claros: não se deve, em caso de dificuldade, traduzir uma palavra
grega por uma única palavra portuguesa.
Se, porém, se optar por uma tradução
termo a termo deverá ser explicado no texto ou em nota, o seu significado
(é o que faremos ao longo desta exposição);
- os padrões culturais e mentais da época
Há
a tendência para vermos uma época distinta da actual através
dos nossos quadros culturais e mentais. Não é fácil
compreender uma época como os séculos V e IV a. C. na Grécia.
É preciso fazer uma reconstrução da cultura e da mentalidade
de então, o que se torna difícil devido á escassez
de informação que possuímos.
Quanto mais ampla e profunda for a reconstituição
que empreendermos melhor estaremos em condições de compreender
um filósofo, neste caso concreto, Platão;
- a estrutura da obra
Uma
obra de Platão, e mesmo uma de Aristóteles, não é
tão linear na sua estrutura como a generalidade dos livros de filosofia
publicados nos nossos dias.
Num diálogo de Platão as digressões
são frequentes e vários temas entrecruzam-se e estes aspectos
dificultam a compreensão dos objectivos da obra.
Acrescentemos ao que já foi dito o
facto de a forma dialogada não facilitar o nosso acesso á
filosofia platónica.
A obra de Platão compreende dezenas
de personagens: algumas delas têm um papel importante a desempenhar
na economia do diálogo.
O conhecimento que possuímos das dramatis
personae não é amplo. Há mesmo personagens
sobre as quais praticamente nada sabemos assim como há outras, pensa-se,
que sejam ficções elaboradas pelo próprio Platão.
Ora, compreender um diálogo passa igualmente pelo conhecimento das
personagens e o filósofo, com frequência, descreve-as não
só sob o ponto de vista intelectual como também psicológico.
O esforço a realizar, moroso e difícil,
é reunir o máximo de informação, através
dos poucos testemunhos existentes para que se possa entender o melhor possível
os diálogos platónicos.
O facto de possuirmos a obra completa de
Platão e o atentarmos no brilhantismo literário do autor
não nos deve levar a pensar que muitas dificuldades estão
ultrapassadas.
Acrescentaremos, ainda, que iremos aplicar
o método genético na abordagem ao pensamento de Platão.
Nota adicional 1
O método genético
Como
disse, anteriormente, aplicarei o método genético na abordagem
ao pensamento de Platão.
O filósofo escreveu a sua obra ao
longo de 50 anos e, hoje, temos a totalidade dos seus escritos.
O método genético pode ser
aplicado, não obstante, a dificuldade em estabelecer a cronologia
dos diálogos. O método genético consiste (em poucas
linhas) no estudo das obras para detectar a evolução de um
pensamento ao longo das suas obras.
Não obstante, as criticas que têm
sido dirigidas a este método, ele apresenta, segundo penso, algumas
vantagens.
Por
último, direi que o método genético dá-nos
a conhecer a dinâmica de um pensamento, aspecto que considero, francamente,
positivo, pois ele pode ser útil para compreendermos o nosso próprio
trabalho.
Nota adicional 2
O mito em Platão
O
leitor dos diálogos de Platão depara com numerosos mitos.
Não é fácil determinar o sentido destes mitos e, portanto,
os historiadores têm-se debruçado sobre eles em busca do seu
sentido.
Direi, como observação preliminar,
que os mitos de Platão não se confundem com os mitos que
pertencem ao mais antigo corpo de saber grego.
Os mitos que se encontram nos diálogos
são uma criação do próprio Platão.
O que disse no parágrafo anterior
não significa que o filósofo não se tenha inspirado
e utilizado a matéria dos antigos mitos. Aliás é difícil
descortinar o que pertence à mitologia grega e a que pertence a
Platão.
Dizer que o mito é um ornamento literário,
que serve para aligeirar o texto, é opinião da qual não
partilho (vários mitos de Platão encontram-se no final dos
diálogos).
Segundo penso, o mito platónico apresenta-se
como uma narrativa verosímil que não pode ser demostrada.
Tentarei ser mais claro.
Platão reconhece que há uma
fronteira entre o racional e o irracional (emprego o termo sem sentido
pejorativo), isto é, há um campo no qual a razão não
pode penetrar.
Os limites da razão já estão
presentes na chamada filosofia pré-socrática mas parece-me
que Platão vai mais longe do que os seus antecessores.
Ora, se existe um campo refractário
ao racional, à cerca dele, só podem existir narrativas prováveis
ou verosímeis.
Na minha opinião o filósofo
tem a consciência dos limites da razão e da necessidade de
fazer incursões no irracional com base no verosímil.
OS DIÁLOGOS DA JUVENTUDE
2.1. O Tema da Ciência
Uma
das questões filosóficas mais importantes sobre a qual Platão
se debruçou até ao final da sua actividade foi a da Ciência.
O termo episteme que vamos traduzir
por Ciência tem uma amplitude que a palavra Ciência não
possui: é mais a sabedoria que por sua vez engloba o que entendemos
hoje por Ciência.
Para Platão a Ciência, para
ser possível tem de possuir um objecto universal, portanto que seja
estável. Ora, para o filósofo o sensível está
num fluir constante, em mutação e por isso não pode
fornecer um objecto universal. Se assim é para haver Ciência
então o objecto universal tem de estar noutro plano.
Vai surgir assim o que se costuma designar
por teoria das ideias. O termo ideia é a tradução
de eidos e idea. Em grego eidos significa o contorno
de um objecto, algo que se pode visualizar. Eidos e idea
são termos praticamente equivalentes (alguns historiadores não
concordam com a equivalência) e podem ser traduzidos, por ideia ou
forma; empregaremos o termo ideia na nossa tradução.
A teoria das ideias levanta três problemas:
Como veremos são três problemas que vão preocupar Platão até ao final da sua vida.
2.2. A pergunta, a ideia, a participação
Embora a Apologia
de Sócrates, o Criton e o Êutifron sejam
diálogos apologéticos, o último pertence já
a um grupo mais amplo.
A Apologia e o Criton são
diálogos positivos, passe a expressão, descrevem aspectos
do pensamento e do comportamento de Sócrates.
O Êutifron tem uma estrutura
e objectivo idênticos, por exemplo, ao Laques, Lisis
e Cármides. Este grande grupo dos diálogos da Juventude
são aporéticos, isto é, terminam numa dificuldade,
são inconclusivos.
A característica que acabámos
de anotar por um lado não é a única a assinalar e
por outro tem de ser esclarecida através de outras características.
O grupo de diálogos que agora nos
interessa coloca uma pergunta sobre um determinado tema: o que é
a piedade? (Êutifron), o que é a coragem? (Laques),
o que é a prudência? (Cármides), etc..
As perguntas que indicámos como exemplos
têm algo de estranho. Em primeiro lugar, Sócrates coloca a
pergunta àquele que, em principio, saberá responder. Em segundo
os temas não parecem ser difíceis de dilucidar.
Como diz Gadamer o que aqui é questionado
é algo de público. São, por exemplo, as virtudes
que um homem deve possuir e por isso ele deve saber em que consistem.
Sócrates pede ao seu interlocutor
uma definição, por exemplo, da piedade ou da coragem. O que
vai acontecer é o surgir de uma série de tentativas que vão
sendo refutadas por Sócrates.
O que é que tudo isto significa? A
resposta pode desenrolar-se por vários aspectos:
O último
ponto exige uma explanação.
Nos primeiros diálogos começa
a detectar-se, como já dissemos, a presença da ideia. Em
primeiro lugar a ideia surge como um ponto de referência, aquilo
que fundamenta, por exemplo, a piedade. Isto quer dizer que quem conhece
a ideia de piedade sabe porque é que este ou aquele acto é
piedoso ou não.
Em segundo lugar a ideia coloca por sua vez
o problema da participação. Esta nos primeiros diálogos
consiste na presença da ideia nas próprias coisas; a ideia
atravessa as coisas.
O que acabámos de dizer significa
que a chamada teoria das ideias surge já nos inícios da actividade
de Platão. Neste campo surgem os dois problemas extremamente delicados
que consistem na existência das ideias e na participação
entre estas e as coisas sensíveis.
A TEORIA DAS IDEIAS
3.1. A Teoria da Reminiscência
O
diálogo Ménon é importante sob vários
aspectos mas vai-nos interessar porque é nele que pela primeira
vez é apresentada a teoria da reminiscência.
Vejamos em que circunstâncias vai surgir
no diálogo esta teoria.
Ménon quer saber como se adquire a
excelência (arete) se é pelo ensino ou se ela mesma
é inata. O seu interlocutor, Sócrates, vai dizer que antes
desta questão se deve colocar outra: o que é a excelência.
Ménon vai dar três definições que sucessivamente
vão ser refutadas. E assim ele coloca o seguinte problema a Sócrates:
como podemos procurar alguma coisa que desconhecemos e se a achamos como
poderemos saber que ela é o que procurámos?
Ora, neste momento é que vai ser apresentada
a teoria da reminiscência apresentando Sócrates um pequeno
mito.
As almas têm uma existência prévia
à sua entrada nos corpos humanos. Durante esse período as
almas estão em contacto com a realidade, isto é, com a verdade
das coisas.
Quando habita um corpo a alma esquece-se
do que viu e só com esforço se vai recordar da realidade.
Façamos, desde já, algumas
observações sobre este mito:
A
teoria da reminiscência não vai ficar aqui. Neste momento
estamos no plano mítico.
Sócrates vai apresentar, um problema
de geometria, a um escravo de Ménon que nunca tinha estudado tal
matéria. Através das perguntas que Sócrates vai fazendo,
o escravo encontra a solução do problema.
Tal, merece-nos duas observações
preliminares:
A
teoria da reminiscência é importante no contexto da filosofia
platónica. Prolonga o tema da alma, onde a inspiração
pitagórica é patente: no Ménon a pré-existência
e a contemplação da realidade pela alma são pontos
a reter.
Quanto à ciência o Ménon
constitui um marco importante. Platão considerava que a ciência
só é possível se o seu objecto é universal
(o que implica estabilidade). No Ménon o real surge num plano
diferente do sensível no qual existe o fluir. Mas a reminiscência
aprofunda mais a questão: mostra que a investigação
é possível conduzindo a novas descobertas.
Igualmente, a reminiscência mostra
que a base do conhecimento não é empírica mas sim
inata.
3.2. As Alegorias na "República"
No
que diz respeito à teoria das ideias a República é
importante pois contém três alegorias que dizem respeito a
essa teoria: a do Sol e a da linha dividida no Livro VI e a da caverna
no Livro VII.
Sublinhemos que o objectivo ou objectivos
da República não consiste numa digressão do
mundo das ideias: as três alegorias estão integradas na reflexão
platónica sobre o ensino de nível superior (a que faremos
referência noutro lugar).
A alegoria do Sol é relativamente
breve (Rep., VI, 507A – 509D). Assim como o Sol ilumina as coisas
permitindo que a nossa vista as descortine claramente a Ideia do Bem tem
como função o iluminar os inteligíveis o que permite
que a alma os atinga.
A Ideia do Bem é peculiar e obriga-nos
a fazer algumas considerações:
A alegoria da linha dividida é complexa e para a compreendermos o melhor possível vamos apresentar o seu esquema.
Façamos, agora, algumas observações tendentes à compreensão do esquema:
Analisando
um pouco mais a fundo o esquema anotemos, desde já, que a matemática
é subalterna em relação ás Ideias. É
um lugar comum dizer que a matemática foi importante para Platão.
Sabemos do seu interesse, das referências que faz nos diálogos
e das investigações levadas a cabo na Academia.
Pode-se dizer que a matemática foi
um modelo utilizado por Platão na sua obra mas será interessante
notar-se que nunca destronou o modelo médico que foi, também,
tanto do agrado do filósofo. Seja, como for é claro no esquema
que os objectos matemáticos, embora pertençam ao mundo inteligível
não estão no mesmo plano das ideias.
A interpretação global da linha
dividida é delicada e está rodeada de controvérsias.
Em nossa opinião a coluna dos objectos
indica uma hierarquia de graus da realidade. Isto quer dizer que a imagem
tem um mínimo de realidade enquanto as Ideias apresentam o seu máximo,
isto é as Ideias são os objectos verdadeiramente reais.
Na coluna do conhecimento a suposição
é algo de humilde mas constitui um conhecimento, embora precário.
No topo encontra-se a Ciência propriamente dita tendo como objecto
as Ideias.
A linha dividida mostra, segundo cremos,
a relação entre sensível e inteligível mas
mais ainda o estatuto das coisas sensíveis.
Quanto a nós Platão considera
que o sensível tem alguma realidade.E neste aspecto ele está
afastado de Parménides o que nos vai permitir fazer uma pequena
digressão.
É frequente afirmar-se que Platão
foi fortemente influenciado por Parménides. Para nós é
consensual que Platão nutria pelo eleata uma profunda admiração
como o atestam o Teeteto e o Sofista. E por vezes afirma-se
que a influência parmenidia terminou ou decresceu a partir do Sofista.
Quanto a toda esta questão a nossa posição é
diferente.
Não negando o apreço e mesmo
alguma influência que Platão teve por Parménides Há
quanto a nós diferenças importantes:
O
que queremos dizer é que há profundas diferenças entre
as filosofias de Parménides e de Platão e que não
é preciso chegar ao diálogo Sofista para as verificar.
A alegoria da linha dividida como já
dissemos mostra que segundo Platão há uma hierarquia de objectos
que vai dos menos reais aos verdadeiramente (completamente) reais. Tudo
isto significa que para o filósofo as Ideias são os objectos
com a máxima realidade.
Se há uma hierarquia de objectos também
há uma hierarquia no conhecimento. É dado algum valor, por
parte de Platão, aos conhecimentos mais baixos considerando o filósofo
a Ciência como o mais elevado. Platão preocupar-se-á
ao longo da sua carreira para esclarecer a diferença entre os graus
de conhecimento (veja-se, por exemplo o Ménon e o Teeteto).
A alegoria da caverna vai ilustrar um pouco
o que acabámos de dizer. É a alegoria mais célebre
de Platão e com ela abre o Livro VII da República.
Embora bem conhecida façamos uma breve
exposição da alegoria para em seguida fazermos a sua análise.
A alegoria está, por assim dizer,
dividida em fases, o que nos ajuda a compreende-la melhor.
No fundo da caverna estão os homens
agrilhoados de tal maneira que não podem mexer-se, voltados para
a parede. Atrás deles uma fogueira e entre os agrilhoados e a fogueira
passam homens transportando os mais variados objectos. As sombras projectam-se
na parede e os agrilhoados pensam que elas constituem a realidade. Eis
a primeira fase.
A segunda inicia-se com a libertação
de um dos agrilhoados que com grande esforço vai andar pela caverna
e verá os objectos dos quais só se tinha apercebido pelas
sombras. Compreende que os objectos são mais reais do que as sombras.
Numa terceira fase o ex-agrilhoado, de uma
forma penosa, sobe o caminho que o conduz ao exterior da caverna. A luz
do Sol cega-o e ele não consegue ver os objectos que se encontram
no exterior da caverna. Tem de se habituar à claridade e assim nos
primeiros tempos contempla as sombras e à noite o firmamento.
Depois de se ter habituado a ver os objectos
menos iluminados já pode olhar para os mais iluminados e contemplar
o próprio Sol. Estamos na Quarta fase.
A alegoria não termina neste momento.
Vai abrir-se, ainda, uma Quinta fase.
É uma alegria e uma felicidade olhar
para os objectos que detêm a máxima realidade. E aquilo de
que mais se gostaria era ficar sempre no mesmo lugar em plena contemplação.
Todavia, o antigo agrilhoado deve descer à caverna, ir ao encontro
daqueles que foram seus companheiros e explicar-lhes o que é a realidade.
Não será bem acolhido. Aquele
que esteve no exterior da caverna é desajeitado no seu interior
e fala de algo que os outros não compreendem. É considerado
um louco e se lhe pudessem lançar as mãos mata-lo-iam, com
certeza.
Façamos algumas observações
preliminares:
A
alegoria da caverna, por vezes, tem sido olhada como um brilhantismo literário
para ilustrar a linha dividida. Só em parte, e talvez pequena, é
que esta interpretação é correcta.
Também nos parece que as primeiras
quatro fases da alegoria da caverna correspondem às quatro da linha
dividida.
Todavia, a alegoria da caverna vai mais longe.
Ela introduz uma componente ética que é importante: desde
a perda das grilhetas até à contemplação do
Sol é necessário um esforço e uma coragem próprios
de uma grande envergadura moral.
O que dissemos indicia um aspecto importante
para Platão: o conhecimento mais elevado só é possível
àquele que alia a envergadura intelectual à moral.
A Quinta fase da alegoria, segundo pensamos,
confirma e amplia, também, a opinião que expressamos. A última
fase refere-se à missão do filósofo. O pensador não
pode ficar numa posição cómoda e feliz: tem de transmitir
aos outros a sua sabedoria. O filósofo não se pode isolar,
se fica isolado é porque os outros assim o quiseram.
O magistério do filósofo é
fundamental para Platão: é um dever que deve ser prosseguido
quaisquer que sejam as consequências desagradáveis que possa
sofrer. E mais uma vez a envergadura moral é essencial. (cfr. o
Teeteto)
Façamos, agora, uma breve apreciação
sobre as três alegorias dos Livros VI e VII da República.
Estão ligadas entre si e pode-se dizer que formam um todo.
A alegoria do Sol explica como o conhecimento
é possível e a linha dividida mostra a hierarquia dos objectos,
indicativa, como já dissemos, da ligação entre sensível
e inteligível e de alguma realidade nos objectos que se encontram
na parte mais baixa da hierarquia. Igualmente, na linha dividida a hierarquia
do conhecimento pretende conferir algum valor ao conhecimento mais humilde.
Em boa parte a alegoria da caverna absorve
as duas anteriores mas junta-lhe a vertente moral e a missão do
filósofo.