(Texto extraído do capítulo sobre Augusto Elias da Silva de Grandes Espíritas do Brasil, 2a ed., revista e corrigida, Rio, FEB, 1969, pp. 172-177.)
Estudando com ardor as obras de
Kardec e todas as demais que adquiria para aumentar seus conhecimentos acerca
da Doutrina que lhe abrira um mundo de luminosas e até então veladas verdades,
em pouco tempo Elias traduzia seu entusiasmo e sua vontade de servir à Causa,
tornando-se ativo membro da Comissão Confraternizadora da Sociedade Acadêmica
Deus, Cristo e Caridade. Fundou, a seguir, o «Grupo Espírita Menezes», nome
dado em homenagem a Antônio Carlos de Mendonça Furtado de Menezes, que fora
diretor da Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, e cujo bondoso
Espírito, desencarnado em 11 de Dezembro de 1879, dirigia então os trabalhos do
referido Grupo. Esta Sociedade muitos benefícios espalhou, e em 1885 fundiu-se
à Federação Espírita Brasileira, para a qual se transferiram os seus sócios.
[173] Outro empreendimento, porém, de muito maior vulto e mais largo
alcance, aguardava o homem que o poderia levar avante e a bom caminho:
cuidava-se, no outro plano da vida, da criação de um periódico doutrinário que
por muitos decênios servisse de farol orientador aos novos navegantes que
arribassem a esse porto de esperança e de salvação — o Espiritismo.
Amadurecido no conhecimento da Doutrina dos Espíritos, que rápida e
profundamente apreendeu no seu multíplice aspecto, conforme demonstrou mais
além, nas sessões de estudo e discussões de teses e pontos escolhidos da
Doutrina, efetuadas na FEB, foi Elias da Silva chamado a concretizar o ideal
desde muito acalentado pelo Alto.
Fundar e conservar um órgão de propaganda espírita, na Corte do Brasil,
era, naquela época, de forma a entibiar o ânimo dos espíritas mais resolutos.
Todas as baterias do Catolicismo estavam assestadas contra o Espiritismo. Dos
púlpitos brasileiros, principalmente dos da Capital, choviam anátemas sobre os
espíritas, os novos hereges que cumpria abater. Datada de 15 de Junho de 1882,
fora distribuída ao Episcopado brasileiro uma Pastoral do Bispo da Diocese de
S. Sebastião do Rio de Janeiro, na qual o Antigo Testamento era astuciosamente
citado para contraditar as comunicações mediúnicas, e tão anticristão e
violento era o zelo daquele prelado, que com naturalidade escreveu,
referindo-se aos espíritas: «Devemos odiar por dever de consciência.» Antes
desta Pastoral, surgira, em 15 de Julho de 1881, uma outra do mesmo autor,
menos forte, mas que não deixava de qualificar os espiritistas de possessos,
dementes e alucinados. A ela respondeu a «Revista da Sociedade Acadêmica Deus,
Cristo e Caridade», em vários números, principiando em Agosto de 1881 (página
236).
[174] Elias da Silva, porém, era de vontade tenaz e inquebrantável, e não
seriam as dificuldades de toda ordem, as oposições sectaristas e os sarcasmos
de todos os lados que o desencorajariam no empreendimento que lhe dominou o
cérebro.
Amparado e incentivado dentro do lar por duas almas boas e valorosas, sua
sogra D. Maria Balbina da Conceição Batista e sua esposa D. Matilde Elias da
Silva, de quem teve um filho também chamado Augusto, ambas espíritas convictas,
Elias lançou o REFORMADOR em 21 de Janeiro de 1883 [1],
com os recursos tirados do seu próprio bolso, situando a redação e oficinas em
seu atelier fotográfico à então rua da Carioca (ex-São Francisco de Assis) no
120, 2o andar, [2] onde também residia com sua família.
O artigo de fundo do primeiro número traçava as diretrizes de paz e progresso pêlos quais se nortearia o «órgão evolucionista» da imprensa espírita, definindo ainda os alevantados objetivos que tinha em vista alcançar. Apresentou-se o «Reformador» como mais um «batalhador da paz», armado da tolerância e da fraternidade, e empunhando a bandeira de Ismael. Logo de inicio sobressaiu entre os demais periódicos espíritas que então se publicavam no Brasil, em número de três a quatro, os quais já mostravam evidente sinal de próximo desaparecimento.
[175] A imprensa espiritista, para poder sobreviver, pedia uma orientação mais firme e perseverante, em que a renúncia e a abnegação constituíam fatores decisivos para alimentar uma tiragem irrisória, que não cobria as despesas de confecção, em vista de perfazerem os assinantes um número reduzido, de cem a duzentos, sendo o excedente de exemplares, geralmente o dobro, distribuído gratuitamente.
O certo é que não podia faltar aos espiritistas brasileiros um órgão de
disseminação das novas idéias e, ao mesmo tempo, de comunhão entre eles mesmos.
Elias da Silva sabia de todos os percalços que teria de vencer, mas,
cheio daquela fé que transporta montanhas, pôs-se à testa do «Reformador» e,
sem medir sacrifícios, enfrentou o magno problema, dele saindo vitorioso.
Logo a ele se uniram outros abnegados obreiros, destacando-se o então
Major Francisco Raimundo Ewerton Quadros, homem de têmpera rija, igualmente
trabalhador incansável, que com Elias pouco depois assumia a direção
intelectual do «Reformador», que hoje é o decano da imprensa espiritista em
nosso território e um dos mais antigos do Mundo, entre os semelhantes.
«Reformador», então com limitadíssima tiragem, o que não é de se admirar
conforme já fizemos ver, era impresso em formato de jornal, com quatro páginas
de texto, feição que conservou até Dezembro de 1902. Saía à luz de quinze em
quinze dias, notando-se que uma boa quantidade de exemplares era remetida para
Lisboa, concorrendo assim o «Reformador» para a propaganda do Espiritismo entre
os irmãos portugueses.
Afrontando o reacionarismo então dominante, esse órgão, desde os seus
primórdios, se bateu pela emancipação dos escravos e pela autonomia do Distrito
Federal, afirmando, várias vezes, não ser digno do nome de espírita quem quer
que possuísse criaturas humanas sob o regime da escravidão.
[176] Caráter rígido e sempre disposto a defender os oprimidos, inúmeras
vezes Elias da Silva se pôs à frente de movimentos altruísticos, qual o fez em
Junho de 1883, protestando junto ao Governo Imperial contra um ato de fanatismo
praticado, não contra espíritas, mas contra um pastor protestante, perseguido
pela Polícia da Paraíba, de mãos dadas com um padre católico.
Em 31 de Março de 1883, Elias fazia imprimir, em papel couchê, um número
especial do «Reformador», dedicado todo ele a Allan Kardec, que, na expressão
do intimorato fotógrafo, «simboliza o alicerce do edifício moral e social que
será erguido pela confraternização humana». Constituía esta homenagem sincera,
como se certifica à frente das páginas de louvor e agradecimento ali alinhadas,
uma afirmação de que «Reformador» marcharia com o Codificador lionês (e nunca
desse ponto se desvirtuou), não deixando, porém, de ser evolucionista, essencialmente
progressista, como se frisara no artigo de apresentação do primeiro número.
Até l” de Fevereiro de 1888, «Reformador» teve sua secretaria e
tesouraria à rua da Carioca, 120, 2° andar, no local de residência e trabalho
de Elias. Havendo, por essa época, necessidade de mais espaço para o
desenvolvimento daquela publicação, a Diretoria resolveu instalar a secção do
«Reformador» no prédio n° 17 (depois no 25) da então rua do Clube
Ginástico, hoje Silva Jardim, para onde também se transferiu a Federação Espírita
Brasileira, que se achava à rua do Hospício (hoje Buenos Aires), no
102.
Até o momento em que rascunhamos esta biografia, «Reformador» não falhou
em sua missão. Conservando as diretrizes que lhe foram assentadas desde sua fundação,
jamais divergiu do programa de estudar, difundir e propagar o Espiritismo sob o
seu aspecto científico-filosófico-religioso, e, se deu maior importância à face
moral e religiosa da Doutrina, não desconheceu, entretanto, e não desconhece o
justo e real valor da experimentação científica.[177] Mas, como bem disse
Guillon Ribeiro, saudoso presidente da FEB, o «Reformador» considera de muito
maior transcendentalidade as conseqüências morais e doutrinárias dos fatos que
constituem objeto da experimentação, fatos que, na maioria dos casos, como
também reconheceu Kardec, não são de proveito realmente apreciável para quem
nada saiba da doutrina a que deram lugar.
Há quase um século, pois, «Reformador» vem doutrinando e consolando as
massas brasileiras, principalmente, numa reforma eficaz de preconceitos
arraigados e de idéias que estorvam a evolução espiritual. Milhares e milhares
de seres se têm beneficiado com a Água Viva que continua a fluir de suas
páginas, e sem dúvida esse é o maior prêmio que Augusto Elias da Silva poderia
receber, a mais alta compensação aos seus sacrifícios, à sua dedicação e
esperanças.
[1] Nesta mesma data desencarnava, em Paris, a professora Amélia Boudet, viúva do grande missionário Allan Kardec.
[2] Um impresso que nos veio às mãos, estampado com o nome de A. Elias da Silva, apresenta-o como “premiado em diversas Exposições” e com atelier fotográfico na rua da Carioca 114 e 120. Parece, assim, que, em determinado período de sua vida profissional, Elias da Silva funcionou também no no 114 da rua da Carioca. Ou, então, que o citado local tenha tido, anteriormente, o no 114, alterado, depois, para 120. E como é de praxe até hoje, quando isto acontece, costuma-se usar os dois números juntos (antigo e atual), a fim de melhor orientar as pessoas na localização de determinado imóvel.