TRINTA ANOS DE LUTA DEMOCRÁTICA NO LARGO SÃO FRANCISCO

HOMERO ANDRETTA JUNIOR ( 1º DI )

 

                            Enquanto 1968 representou para o mundo um ano de contestações, através do movimento estudantil em prol da paz, da liberdade, de mudanças no ensino universitário, além de outras reivindicações, o Brasil iniciava um dos momentos mais sombrios de sua história. Ao mesmo tempo em que se davam as exigências pelo fim da guerra do Vietnã nos Estados Unidos, os protestos na Champs Elysées em Paris, as lutas nas universidades alemãs e inglesas, era arquitetado o documento que ceifaria a cidadania da sociedade brasileira: o Ato Institucional número cinco (AI 5).
                             O recrudescimento do regime militar foi de encontro ao movimento de massas, ao debate político, às entidades representativas dos estudantes. A maioria dos universitários brasileiros, cujo sonho grandioso era a construção de uma sociedade justa, harmônica e livre, sentiu-se lesada, na medida em que se estabeleceu um consenso forçoso e optou-se por um modelo de desenvolvimento imposto pelas autoridades, em defesa dos interesses do capitalismo internacional, em função da tensão provocada pela Guerra Fria.
                             É nesse contexto que os estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo decidiram ocupá-la em protesto contra as imposições do MEC, que tinha como meta uma alteração no sistema de ensino superior brasileiro, para torná-lo ainda mais subserviente aos interesses do modelo econômico adotado durante o governo das forças armadas.
                             O vergonhoso AI 5 foi um verdadeiro impacto sobre tudo aquilo que fora discutido, produzido e glorificado no Largo São Francisco. Primeiro, porque alguns juristas formados na Faculdade de Direito tornaram-se famosos, não pela luta democrática, mas sim por terem auxiliado na confecção das leis dos anos de chumbo que se iniciavam. Segundo, porque desde a primeira aula proferida em 10 de março de 1828 até os dias de hoje, jamais o discurso e o debate foram tão cruelmente desalojados do Largo.
                             A Faculdade de Direito, antes um centro irradiador de novas idéias e de novas propostas para a sociedade, tornou-se uma mera escola de ensino jurídico, formando técnicos do direito necessários ao funcionamento ordeiro e pacífico da sociedade. O verdadeiro jurista, preocupado com as mazelas da nação, consciente dos problemas sociais, ficou proibido de revelar publicamente suas opiniões e de poder atuar pela alteração dos rumos do país.  Após eliminado o último bastião de resistência, quando os alunos que ocuparam a faculdade por 26 dias  foram desalojados pela polícia, a São Francisco calou-se. Não se calou para si ou para os estudantes, porque eles jamais abandonaram seus ideais e seus sonhos de busca pela justiça. As Arcadas do Largo São Francisco calaram-se para São Paulo, para o Brasil, pois suas idéias de liberdade e de cidadania não puderam mais ser divulgadas. O Centro Acadêmico “XI de Agôsto” não poderia, a não ser ilegalmente, contestar os atos do governo ilegítimo então no poder, nem promover suas campanhas em defesa dos interesses nacionais.
                             Por cerca de duas décadas o silêncio pairou não só sobre o Largo mas também por toda a nação, iludida por um falso progresso material e rápido crescimento econômico que, mais tarde, revelar-se-iam extremamente onerosos. Quem desafiou o regime, quem se deixou levar pelos ímpetos revolucionários que ecoavam pelo mundo, quem não deixou morrer a chama da liberdade que Castro Alves tanto defendera em seus versos quando aluno da Academia, conheceu os porões da ditadura, além da tortura e do medo. Outros, ainda, foram obrigados a se exilar, fugindo dos agentes do governo, abandonando suas famílias e tentando recomeçar suas vidas no exterior.
                             Na época em que a Faculdade de Direito do Largo São Francisco foi criada, no intuito de formar uma elite intelectual para o Brasil, capaz de dirigi-lo para o desenvolvimento, jamais se imaginou um período de tamanha agonia para o Largo. A ausência do dissenso e do movimento estudantil deixou-o fraco, irreconhecível.  O lugar onde o grito da liberdade sempre esteve em pé fora obrigado a se curvar perante as tropas do regime totalitário.
                             O Direito brasileiro, por sua vez, em boa parte fruto do estudo e do árduo trabalho dos grandes  mestres da São Francisco, fora violentado. Eliminaram-se os princípios básicos, os direitos fundamentais do cidadão, amplamente respaldados na doutrina e nos ensinamentos desenvolvidos há mais de um século sob a companhia das Arcadas.
                             Contudo, aqueles que envergonharam a tradição fomentada desde os tempos do Primeiro Império, jamais conhecerão a glória das lutas por um Direito justo, digno, capaz de atender as exigências e de atenuar as disparidades da conflituosa sociedade brasileira.  O Direito que protege as pessoas contra os abusos de poder, que transforma o indivíduo em cidadão, que garante os direitos e deveres individuais, sempre com respaldo na lei produzida pelos representantes do povo, este é o verdadeiro Direito que a São Francisco orgulha-se de ter ajudado a construir em território brasileiro.
                             As correntes do silêncio finalmente foram quebradas com o retorno da Democracia, formalmente concretizada com a  promulgação da Constituição de 1988, exatamente 20 anos após o nefasto 68. A Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo renasceu em um momento de esperança por um futuro melhor para o Brasil, quando promoveu amplos debates e produziu inúmeras sugestões para serem levadas à Assembléia Constituinte. O Largo aproximou-se novamente do povo e da sua realidade, discutiu as situações e a pertinência dos projetos para a nova Lei Suprema na nação.
                             Os dez anos que se sucederam, compreendendo o período de 1988 a 1998, representam um período turbulento, apesar da democracia constitucional. Os governos não responderam às exigências, principalmente as de cunho social, dispostas na Constituição. As dificuldades de concretização das disposições contidas nas chamadas normas programáticas produziram um amplo debate a respeito da sua eficácia e da sua exeqüibilidade. Revelou-se que a Constituição atual incomoda certos interesses obscuros ao garantir os direitos sociais e colocá-los como um dever do Estado. Isto pode ser verificado pelo fato de que os governos que se sucederam nesses dez anos mostraram-se incapazes e pouco dedicados em seguir essas metas.
                             É dever do estudante de Direito, como conhecedor das leis, exigir a aplicação das normas constitucionais. Não se trata de afirmar que não existam falhas na Constituição ou de entendê-la como se fosse uma Bíblia; trata-se de argumentar coerentemente aquilo que deve ou não ser modificado, sob pena de se institucionalizar injustiças. É importante analisar quais são os interesses em jogo, quem pode ser privilegiado e quem pode ser prejudicado por uma eventual alteração no texto constitucional. Não se observaram, porém, essas cautelas na maioria das emendas promulgadas até hoje e pouco se discutiu nas faculdades de Direito do país a respeito do assunto. Ninguém se mobilizou a favor ou contra; na verdade, nenhuma delas resultou de uma atuação popular.
                             Tornaram-se reais, de 1988 aos dias de hoje, os direitos básicos da democracia mas perduraram os incontáveis problemas sociais, desde a miséria nas regiões mais pobres e na periferia das grandes cidades, passando pelo desemprego, até a baixa escolaridade da avassaladora maioria da população. Por esse motivo, há uma grave descrença a respeito das instituições democráticas, e que é aceita, muitas vezes, pelos profissionais do Direito. Desnecessário é citar a importância da Democracia, do direito ao voto, ao habeas corpus, do direito de defesa, do direito a uma vida digna, dentre outros. A democracia brasileira, em função de suas fragilidades, levará anos para se consolidar por completo. Esse fato, contudo, não pode servir de desculpa para a inação dos dirigentes do país.
                             A tarefa de defender os requisitos e as organizações básicas da Democracia é essencial para o aprendiz do Direito. Entretanto, esse objetivo é barrado por uma série de obstáculos, dentre os quais a apatia política e a ambição de certos profissionais, cujo desejo único é o sucesso profissional. O desinteresse pelo discurso e por mudanças políticas é um legado do regime militar, que produziu uma geração desconhecedora desse pressuposto básico para uma efetiva Democracia. Para isso também contribui a imprensa brasileira, muitas vezes ligada a grupos que concentram o poder econômico e o político,  aparentemente desacostumada com o fim da censura. Freqüentemente, os veículos de informação e de comunicação de massa mostram-se alienadores, dando ênfase a assuntos extremamente irrelevantes em detrimento de outros de suma importância.
                             Como já mencionado, há, também, aqueles cujo interesse único é obter um diploma para ingressar em uma posição confortável no mercado de trabalho. Infelizmente, boa parte dos estudantes são movidos pelo desejo de atingir o sucesso profissional, em nada se dedicando para sequer entender os problemas da sociedade. Essa é a fórmula da mediocridade e, ao mesmo tempo, da inocência, pois é preciso saber que o Direito, como ciência social, interage com  a realidade. O Direito não pode abster-se em alterar as situações e por elas ser alterado, jamais podendo simplesmente encarcerar-se em uma biblioteca para então atingir conclusões verdadeiras. O contato com os fatos sociais é imprescindível para uma Universidade atingir níveis de excelência de ensino, principalmente na área das chamadas ciências humanas.
                             Este é o tipo de contenda que deve ser resgatado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Essa discussão, cujo tema central são as deficiências da comunidade e de que maneira elas podem ser solucionadas ou, pelo menos, atenuadas pelo Direito, é que deve nortear o futuro dos debates jurídicos. A São Francisco, sendo a mais tradicional, e, junto com a Faculdade de Direito de Olinda, a mais antiga faculdade de ensino jurídico do país, deve continuar na vanguarda das discussões políticas e jurídicas, levantando as questões mais polêmicas e de grande importância para a nação.
                             Conclui-se que, hoje em dia, no Brasil, temos em mãos um documento básico para a realização do sonho grandioso de uma sociedade livre, harmônica e justa. Mas engana-se quem pensa que as lutas pela Democracia acabaram-se; muito pelo contrário. É essencial que se mantenham suas instituições, principalmente através dos Três Poderes, forma adotada pelo Brasil para a organização da burocracia estatal. Um Legislativo preocupado em garantir a cidadania através das leis, um Executivo que as respeite acima de qualquer interesse estranho às vontades populares e um Judiciário capaz de fazer Justiça são fatores essenciais para a manutenção de uma efetiva Democracia.
                        Os cidadãos, caso sintam-se lesados pelo exercício do poder por parte de seus representantes, deverão mostrar-se aptos a defender a própria Democracia. Isto acontece quando, através da consciência política, o povo demonstra nas urnas sua repulsa pelos usurpadores do poder, ou seja, por aqueles que não foram dignos de sua confiança. Não basta apenas distanciar-se de 68 cronologicamente; o incentivo à liberdade de expressão, às mais variadas opiniões e o exercício da cidadania certamente conduzirão o país a um pensamento cada vez mais distante daquele que gerou a repressão de 1968.
                             É a busca da formação dessa consciência política que deve ser incessantemente debatida nas faculdades, principalmente nas de Direito, onde o funcionamento do Estado é conhecido pelos alunos, onde a Democracia deve ser entendida como o governo do povo, como a proteção do mais fraco, como o baluarte da cidadania. Os alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco devem honrar a tradição que lhes foi deixada, de um passado de glórias e de lutas inesquecíveis que preencheram alguns espaços da história brasileira. Não é só pelas lembranças do passado que as Arcadas são um símbolo da Faculdade; são, também, a garantia de que o futuro do Brasil receberá, certamente, outras louváveis contribuições saídas do Largo São Francisco.



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