Flávio Picchi (1o DI)

Interesse próprio e ensino alheio

          

     A leitura de uma reportagem escrita para a edição de abril do Jornal do DCE da USP me prendeu a atenção, levando a mim e a meus botões a algumas considerações.          

     Tratando da falta de professores, a manchete afirma: “Reforma da previ-dência tira professores da USP”. Dados são oferecidos, como a cifra de 671 professores que se aposenta-ram desde o início do processo da reforma, 24 desses em janeiro e fevereiro. A motivação das aposentadorias, continua a reportagem, é a aprovação em primeiro turno do texto da reforma no Congresso.        

        Pesco algumas sem-tenças: “Vários professores estão se aposentando com aposentadorias proporcio-nais”, “a falta de professores é uma situação insustentável”, “a reforma da previdência como um problema para as universidades públicas”. O professor Jair Borin afirma: “A reforma da previdência prejudicou a universidade. Todos os dias têm [sic] professores que pedem aposentadoria, com medo das novas regras. (...) A reforma da previdência é castradora, restringe as condições do trabalho.”          

     Júlio Plaza, professor de Artes Plásticas da ECA, se apavora: “O terror implantado pelo governo se espalhou pela universidade. É um terroris-mo, o que ele [FHC] está fazendo com os professores e os funcionários públicos. Tenho 60 anos, sei que pelo texto da previdência não adianta mais continuar a trabalhar. As novas regras não permitem que eu me aposente com o salário integral (o grifo é meu).”         

        Os trechos são reveladores da hipóxia coletiva que parece existir na Universidade, senão vejamos. Já a manchete culpa a reforma da previdência pela aposen-tadoria dos professores. Que eu saiba, não há dispositivo algum no texto que obrigue qualquer professor a se aposentar já. Qualquer apo-sentadoria é efetivada sob duas condições: ou volun-tariamente, ou compulsoria-mente (esta somente quando o docente completa 70 anos). Donde concluímos que ou todos os professores que se retiraram têm 70 anos, ou que alguns o fizeram por vontade própria. A repor-tagem não explicita as diferentes formas de aposen-tadoria, nem informa sob qual das condições os 671 professores se retiraram.         

        Não sendo a culpa da reforma (que, em si, de nada pode ser culpada, pois as leis não mudaram ainda), quem são os culpados? Salvo as aposentadorias compulsó-rias, os culpados pela falta de professores são... os professores!      

            A tarefa de um professor é dar aulas, mas parece que muitos deles esqueceram. Por certo acre-ditam que a um professor de universidade pública cabe esperar sua aposentadoria chegar, somente. Quem o diz são os professores Plaza e Borin, um afirmando ser inútil continuar a trabalhar, por não poder ter aposentadoria integral; outro, dizendo que a reforma restringe as condi-ções de trabalho. Faltou dizer como um projeto de lei que começou a ser votado pode impedir alguém de dar aulas e já ter força de lei sancionada.         

       Isso não é nada. O professor Plaza ainda culpa o Presidente da República de ser terrorista. Quem faz terro-rismo é o professor que pendura as chuteiras antes do tempo, prejudicando os alunos, por sua preocupação com o próprio bolso. Os que se aposentam lesam a Universidade duplamente: aposentam-se antes do tempo, quando poderiam continuar na ativa; o dinheiro que lhes serviria para salário é gasto, a mais, com a contratação de conferencistas para ensinarem as aulas que poderiam estar lecionando. Não obstante, têm a audácia de bradarem contra a falta de verbas para o ensino. Lembro que o dinheiro que levam na inatividade poderia ser gasto nas salas de aula. A reforma da previdência é de fato castradora: curra os estudantes que estão em salas superlotadas para tentar aprender um pouco.        

          Muito me estranha que os estudantes não reflitam sobre isso. Como muitos estão mais interes-sados em fazer agitação política, preferem culpar o governo pelo que acontece. Entrevistam os culpados pelos fatos contra os quais bradam e os apresentam como vítimas de uma grande ação ter-rorista. Segundo o senador Vilson Kleinubing, 27% do PIB se destina ao custeio da máquina pública para o pagamento de salários e aposentadorias (OESP, 05/04/98, pág. A5). Aproximadamente R$ 200 bilhões. Quando perguntarem por que a Universidade está sucateada por falta de verbas, lembrem disso.  

                Não é a reforma da previdência que prejudica a universidade pública. São alguns professores, mais interessados na aposentadoria que receberão do que em aulas que deveriam estar preparando. A situação é de fato insustentável. Não é possível que o nosso dinheiro, de nossos impostos, susten-tem pessoas tããão interes-sadas assim.

 

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