Aluísio Berezowski (1º DI)

Filosofia - Kant

Proposta inicial            

Partindo do princípio de que a Filosofia não compreende apenas o estudo sistemático das diversas cor-rentes de pensamento, mas toda e qualquer expressão da ânsia humana por resolver inúmeros paradoxos que lhe assolam a existência, é que estamos inserindo neste periódico uma seção voltada à Filosofia.        

    Procuraremos, desta forma, inserir artigos refe-rentes às idéias de grandes pensadores ocidentais e ori-entais, sem qualquer preo-cupação com a seqüência his-tórica, bem como disser-tações filosóficas gerais pa-ra as quais aceitaremos a contribuição dos demais alu-nos.     

        Estaremos receben-do colaborações e sugestões desde já, propondo-nos a publicá-las, sem qualquer restrição quanto às opiniões do autor, respeitando, contu-do, as noções de clareza e correção dos textos.

Aluísio Cabianca Berezowski (1O DI)    

      Dentre os inúmeros filósofos que compõem a rica tradição do pensamento ocidental, o filósofo prussi-ano Immanuel Kant é con-siderado um dos mais abstrusos. Mesmo assim, nunca um sistema de pen-samento dominou tanto uma época como a filosofia de Kant dominou ao pensamen-to do século XIX.     

    Schopenhauer chegou a dizer que a obra de Kant, “Crítica da Razão Pura”, é o mais importante trabalho da literatura alemã, conside-rando qualquer homem uma criança antes de ter com-preendido Kant. Quem foi então esse homem que, ao influenciar uma época foi considerado por muitos co-mo um monstro destruidor da ciência e religião?    

     Immanuel Kant nasceu na Prússia, na cidade de Konigsberg, no ano de 1724. Sem nunca ter saído da sua cidade natal, este pacato professor era considerado por seus conterrâneos um homem metódico, de vida amena e insossa. Todo  seu dia era programado e cronometrado com exatidão. Sua rotina resumia-se a acordar, tomar café, escre-ver, palestrar, caminhar. Kant saía todas as tardes para caminhar vestido com seu casaco cinza e portando uma bengala, invariavelmen-te às 15h30 (dizem que tamanha era a pontualidade de Kant que seus vizinhos acertavam seus relógios ao vê-lo sair de casa). Ainda hoje a alameda ladeada por trilhas onde Kant caminhava é chamada de  “O passeio do Filósofo”. Seus interesses, a princípio, eram mais físi-cos que metafísicos, já que se deleitava escrevendo so-bre astronomia, geologia e antropologia. Preocupava-se excessivamente com sua saúde, tendo escrito aos se-tenta anos um tratado “Sobre o Poder da Mente para Dominar a Doença pela Força de Vontade”. Conclu-indo, ninguém esperava que aquele tímido professor provinciano viesse a assom-brar o mundo com um novo sistema de filosofia.        

     No entanto, ele o fez, publicando sua “Crítica da Razão Pura”, aos 57 anos, após trabalhar nela durante 15 anos. Nessa obra obscu-ra, Kant despreza exemplos por acreditar que sua obra seria lida por filósofos pro-fissionais que o compreen-deriam com facilidade. Não obstante, após Kant ter entregue sua obra para ser lida por seu amigo e filósofo Herz, este a devolveu lida pela metade, afirmando te-mer enlouquecer caso con-tinuasse a leitura do livro!     

   Decerto, num espaço tão escasso é completamente impossível expor qualquer noção do pensamento kantiano, mas tente-mos. Para Kant, a mente não é a tábula rasa, a folha de papel em branco que armazena as experiências (nada está no intelecto sem que antes tenha passado pelos sentidos), mas, sim, um instrumento transformador da multiplicidade da experiência no pensamento ordenado. Sensações tor-nam-se percepções que, por sua vez, tornam-se concei-tos -- tudo isso através de processos mentais que aca-bam por garantir a certeza da realidade de um de-terminado objeto. Essa certeza, no entanto, é limi-tada e relativa enquanto restrita à experiência real (é a realidade que estimula sensações) e  ao modo hu-mano de experiência. Assim, o sujeito cognoscente não conhece a realidade de um objeto em si mesma, o objeto real, mas antes a idéia que faz deste objeto ao percebê-lo. O real não está ao alcance do homem, a única coisa que se pode afirmar a respeito dele é que existe.      

       Essas conclusões a-cabam por tornar a ciência ingênua, pois esta julga tratar das coisas em si mesmas, quando isso é impossível na visão kantiana.  Encerra-se este artigo com um comentário de Heine: “Que vivo contraste entre a vida exterior desse homem e seus pensamentos destru-tivos, de agitar o mundo! Tivessem os cidadãos de Konigsberg desconfiado do pleno significado desses pensamentos, teriam senti-do um medo respeitoso mais profundo na presença desse homem do que na vida de um carrasco que apenas mate seres humanos. Mas o bom povo não via nele nada além de um professor de filo-sofia. Quando na hora marcada ele passava, faziam com a cabeça uma saudação amável e acertavam seus relógios.”     (HEINE, “Prose Miscellanies”, Filadélfia, 187; p.146)

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