"Em busca das raízes perdidas"

Deus criou o homem à sua imagem...
O Senhor viu que a maldade dos homens era grande (...) arrependeu-se de ter criado o homem... (Gênesis 1:27; 6:6)
 

De volta para o passado

        O homem, segundo as concepção de origem do universo, vivia num estado original de perfeição, e, a medida que o tempo foi passando, foi se distanciando do “paraíso”, caminhando para degradação. Vários mitos contam que no início não havia morte, doenças, velhice e trabalho. Os mitos são  utilizados como modelos para criação ou renovação de  qualquer coisa.



O ritual

        O ritual adequado serve para reviver o mito e, assim, revitalizar a natureza, dá-lhe novas forças, pois a leva à  perfeição do início. Esse pensamento é imbuído da idéia de que o princípio é sempre mais perfeito que aquilo que veio depois. As coisas quanto mais vão se afastando da origem, mais vão ficando decadentes. Para que elas se tornem como no início é preciso voltar às “raízes”, retornar à origem. Esse retorno é feito através do ritual, da recitação e da reprodução do mito.

        No ritual, é revivido aquilo que os deuses fizeram nos tempos ancestrais. Esse rito é visto por aqueles que o praticam mais que uma comemoração ou uma imitação. O ritual chega até a produzir a “transformação” da pessoa praticante no próprio deus, ela revive com exatidão aquilo que ele fez. Por exemplo, o padre quando celebra a missa se torna Jesus Cristo,  pão e vinho se tornam  corpo e sangue de Cristo.

        Reviver o mito e participar do ritual é voltar às origens, é voltar ao estado original das coisas, onde não havia decadência, mas só perfeição.


As festas de ano-novo

        A origem de muitas festas populares pode ser explicada pela crença de que revivendo o mito é possível revigorar o universo. Um ano é um período em que se repete  ciclos climáticos, astronômicos e  biológicos. Para quem mora no campo ou tem maior contato com a natureza, esse ciclo é bastante observável e tem muita importância.



A festa de ano-novo na Babilônia

        O início de nosso ciclo anual é 1º de janeiro, mas o ciclo anual pode ser colocado em diferentes épocas do ano,  de acordo com aquilo que um povo considera mais importante. O nosso ano-novo não passa de uma convenção sem muita importância, entretanto para muitos povos do passado a passagem de ano tinha um significado religioso muito especial. Na Babilônia, por exemplo, o ano-novo começava na primavera, por ser a estação em que a natureza parece nascer novamente. A festa, de uma semana, era precedida pela limpeza,  purificação e  restauração dos templos, pois tudo devia estar “perfeito” como no princípio dos tempos. A festa incluía a repetição do mito da origem do universo, pois tudo era visto como se estivesse começando novamente.

        Até o rei babilônico tinha que passar pelo ritual para que seu poder fosse renovado durante o ano-novo. O sacerdote supremo arrancava-lhe todos os adornos reais, e esmurrava o queixo do rei, o fazendo ajoelhar-se diante de uma imagem do deus Marduk. O rei precisa rezar e garantir que havia governado de forma correta, sem cometimento de erros. O sacerdote dizia, então, que Marduk  aceitava aquilo que o rei dizia e estava a seu favor. O adornos reais eram devolvidos seguido de um murro no queixo, se os olhos do rei se enchessem de lágrimas era sinal que Marduk era amigável, caso contrário, o deus estava com raiva.



O solstício

        De acordo com aquilo que um povo considera  mais importante, o ano-novo pode ser colocado em qualquer ciclo anual. Muitos povos escolhiam para isso os solstícios de verão e de inverno. O solstício no hemisfério sul corresponde, no inverno, a 22 ou 23 de junho, dia mais curto do ano, e, no verão, a 22 ou 23 de dezembro, dia mais longo do ano.

        No dia de solstício do inverno, a luz do sol atinge a terra de forma muito fraca, o tempo é frio e a noite é longa. Nesse dia muitos povos praticavam rituais com o objetivo de inverter a marcha do sol. O ritual se destinava, também, a fazer com que se iniciasse outro ciclo, pois para que isso acontecesse era necessário a cooperação dos homens. Era preciso recriar o mundo, de forma simbólica, através do mito.



As fogueiras

        Geralmente, a festa de ano-novo era realizada ao redor de fogueiras. Na noite de solstício, as fogueiras, eram acesas no alto das montanhas ou em outros locais especiais, como encruzilhadas. Os camponeses acendiam tochas nas fogueiras e corriam pelos campos para espantar pragas, doenças e maus espíritos, assim como para que o solo ficasse mais fértil. Os jovens saltavam três vezes sobre a fogueira, o jovem que saltasse mais alto iria se casar primeiro, durante aquele ano. Nessa noite, pessoas passavam descalças sobre as brasas ou colocavam brasas na boca.



Os poderes mágicos

        Se acreditava que a noite de solstício era mágica. As madeiras e as cinzas que sobravam eram guardadas. As cinzas eram espalhadas pelo campo para aumentar a fertilidade do solo e proteger as plantações. Os tições protegiam as casas contra bruxarias, raios e incêndios. Também se acreditava que na noite de solstício era possível prever o futuro. As moças, por exemplo, faziam adivinhações para saber com quem iriam se casar. A água também adquiria poderes especiais, costumava-se recolher água dos poços para serem guardadas.



A festa de São João

        No Brasil, esse antigos costumes ainda existem, em especial, no interior, quando são comemoradas as festas de São João. A noite de São João corresponde exatamente ao solstício do inverno no hemisfério sul. As festas de São João são milenares, e, embora, as pessoas do interior não saibam, elas são rituais de repetição do início do mundo.
 
 
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