Um ponto de encontro...no caos

A poesia de Murilo Mendes e o Surrealismo

O caos surreal

O Surrealismo é um movimento que surgiu na França logo após a I Guerra Mundial. André Breton foi quem lançou suas origens através do Manifesto do Surrealismo em 1924. Esta corrente de vanguarda sonda o mundo interior e valoriza o sonho...Seus participantes ficaram altamente impressionados com os escritos de Sigmund Freud, os quais demonstraram que, quando os nossos pensamentos em estado de vigília são entorpecidos, a criança e o selvagem que existem em nós passam a dominar. Foi esta idéia que fez os surrealistas proclamarem que a arte nunca pode ser produzida pela razão inteiramente desperta..."a razão pode dar-nos a ciência, mas só a não-razão pode dar-nos a arte".

Os artistas procuravam comprovar um experiência interior que se manifesta inconscientemente. Procuravam afastar toda e qualquer concatenação dos pensamentos (a negação à ordenação, um busca pelo caos interno), para deixar livre acesso ao subconsciente.

 


O que o subconsciente tem a oferecer

Este lado oculto de tudo e de todos guarda para os surrealistas uma das coisas mais importantes para o homem, e mais ainda para o artista: a Liberdade. Liberdade total na concepção das obras, e assim um caminho aberto para desvendar os mistérios do ser.

Existe no Surrealismo a mais radical revolta contra a arte, a moral e a sociedade daquele momento. Queriam a todo custo, uma ação totalizante do indivíduo, que estivesse além do conceito vigente.

Breton no Segundo Manifesto do Surrealismo salienta "Tudo nos leva a crer que existe um ponto do espírito, de onde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo, cessam de ser percebidos como contradições".

Uma percepção assim é uma percepção caótica...O conteúdo da realidade não pode ser expresso em dualidades ingênuas como Deus e Diabo, bem e mal, certo e errado, ordem e desordem, cosmos e caos. O caos como a possibilidade de tudo é uma expressão que engloba esta percepção, está longe da dualidade, o que interessa é o todo, a partir do qual pode se obter a liberdade.

 


A janela do caos de Murilo Mendes

Murilo Monteiro Mendes nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, a 13 de maio de 1991. Ainda menino, transfere-se para Niterói, onde conclui seus estudos secundários. Em 1953 muda-se para a Europa, percorrendo vários países; falece em portugal, a 13 de agosto de 1975.

Poeta brasileiro que mais se identifica com o Surrealismo traz na sua obra novas formas de expressão, versos tão vivos que pode se ouvir a respiração por debaixo de muitos deles. Existe uma livre associação de idéias, imagens e conceitos em turbilhão caótico que impõe algo vasto (transcendental, talvez) e ao mesmo tempo íntimo como o contato com interior do ser.

Sinta você mesmo em a Cantiga de Malazarte...Recite com força as passagens em primeira pessoa, depois suavize sua força (o ar dos seus pulmões) como se as palavras terminassem em que está ouvindo.

Um dilema tornou-se presente na vida de Murilo quando sua poesia parte para um caráter religioso. O dilema entre a Poesia e a Igreja, o material e o espiritual não o afasta do social, pelo contrário, faz surge a consciência do caos. Alguns autores descrevem esta consciência como a visão de um mundo esfacelado onde o poeta tenta ordenar esse caos. Porém esta visão reduzida claramente não é compartilhada pelo poeta. Estava implícita em sua poesia um conceito de caos como possibilidade de tudo, não esta visão simplista de uma desordem ou de algo ruim. Tanto o é assim que os próprios críticos reconheciam na obra de Murilo Mendes a tentativa de mudar a realidade (social) através da lógica, da criatividade e do poder de libertação do trabalho poético.

Ora é fácil notar que as armas utilizadas pelo poeta para esta mudança se mesclam de forma caótica, unindo lógica e criatividade. Campos que em uma percepção deste Caos não se contradizem, pelo contrário, se unificam para formar a poesia de Murilo Mendes.

Com vocês trechos de "Janela do caos" deste poeta:

Telefonam embrulhos

Telefonam lamentos

Inúteis encontros

Bocejos e remorsos

Ah! Quem telefonaria o consolo

O puro orvalho

E a carruagem de cristal.

(...)

Tu não carregaste pianos

Nem carregaste pedras

Mas na tua alma subside

- Ninguém se recorda

E as praias antecedentes ouviram –

O canto dos carregadores de pianos

O canto dos carregadores de pedras.

(...)

O céu cai das pombas.

(...)

A infância vem da eternidade

Depois só a morte magnífica

Destruição da mordaça:

E talvez já estivesse a entrevisto

Quando brincavas com o pião

Ou quando desmontaste o besouro.

Entre duas eternidades

Balançam-se espantosas

Fome de amor e a música:

Rude doçura

Última passagem livre.

Só vemos o céu pelo avesso.

 

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