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É o único trecho da mitologia grega que sobreviveu, em parte, num poema épico. A linguagem utilizada por Homero, feita de fórmulas poéticas fixas, proporcionou um veículo para a transmissão oral do fato por longos períodos de tempo. De Schliemann para adiante, os homens têm esperado provar que Homero é história. Tróia, sem dúvida, foi o sítio de um palácio fortificado desde o princípio da Idade do Bronze. Teve ligações com a Grécia a partir do ano 1900 a.C. e foi saqueada por volta de 1250 a.C., num período em que se esboroava o império hitita da Ásia Menor. Mas embora Tróia fosse tema de alguma poesia tradicional, a Ilíada incorporou-lhe outras tradições que, originalmente, não tinham com ela relação alguma. Destarte, houve uma cidade em Tróia, que foi saqueada, mas não era Tróia de Homero, e a Ilíada não é uma história desse saque. Conseqüentemente, mal se menciona no poema a mitologia de sucessos anteriores e posteriores do assédio. Foi mais tarde coligida em poemas épicos menores, que preenchiam as lacunas existentes e ministravam temas à tragédia. A Ilíada é um relato direto e humanizado da luta que se travou em Tróia: não faz menção do saque, posto que o suponha, e personificava as duas forças nos dois grandes heróis, Heitor e Aquiles. O duelo entre eles pode ter sido outrora uma perseguição ritual, pois Aquiles é tradicionalmente “ligeiro de pés”. Todos os episódios do cerco foram ajustados a um entrecho que apenas ocupa alguns dias, proeza de organização literária realizada na Ásia Menor jônica, talvez por volta do ano 800 a.C. Ali os migrantes recordaram o seu passado heróico, e encontraram no cerco de Tróia um tema que dignificava as lutas que tinham sustentado para estabelecer-se. Os gregos nunca tiveram tanta consciência de sua identidade helênica como quando combatiam os bárbaros, como os persas em Maratona e Salamina, ou quando os venciam sob as ordens de Alexandre, o Grande. Os troianos viviam próximos aos deuses, a quem os filhos eram sacrificados, com os quais as filhas se casavam, e que ergueram os muros de Tróia, somente vulneráveis na parte construída por um mortal. Enéias com certeza, e Páris talvez, eram filhos de deusas, o que torna o segundo irresistível às mulheres. Há também muitos motivos folclóricos nas condições que hão de ser cumpridas para que Tróia possa ser reduzida.