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Em torno do cerco de Tróia, assim como de outros feitos comunais dos gregos, paira um ar de infortúnio. Isso talvez reflita a situação real no fim do período micênico, quando o Mediterrâneo se achava num tumulto de tribos errantes e expedições de pirataria. Estas chegaram até o Egito, onde alguns nomes em uma inscrição de vitória podem ser as dos aqueus e dânaos. Os micênios talvez se tivessem estendido em demasia nessa área, enfraquecendo, por esta maneira, o seu domínio sobre a Grécia. Assim, quase todos os heróis da Guerra de Tróia encontraram, ao regressar, problemas em casa. Somente Nestor e Menelau voltaram com segurança, o último depois de um longo período de comércio no Egito (onde uma narrativa ulterior afirmava que Helena teria passado todo o tempo na guerra, salvando assim o seu crédito divino: os guerreiros haviam combatido por uma imagem em Tróia). Algumas estórias explicavam cerimônias: durante mil anos as donzelas lócrias iam para Tróia a fim de servir no templo se conseguissem entrar sem ser pressentidas - ou morrer, se o fossem. Essa velha cerimônia, que justificava os elos existentes entre a Lócrida e Tróia, explicavam-se como penitência pelo estupro de Cassandra, atribuído ao lócrio Ájax. A batalha de profecias entre Calcas e Mopso é propaganda para o oráculo jônio de Apolo em Claros. As duas grandes estórias de regresso são as de Ulisses e Agamenon. A Odisséia já conhece o assassina-to de Clitemnestra por Orestes como ação meritória, que deveria ser imitada, se necessário, por Telêmaco. Os dois jovens estavam afirmando o sistema patriarcal de herança contra o ponto de vista de que o casamento com a rainha viúva ou abandonada dava direito ao reino. Concebida como continuação da Ilíada, a Odisséia tenta contar o destino da maioria dos heróis. Inclui também motivos de saga dos argonautas, e há nela muitos elementos do mito Suplantador. (Nausícaa é uma princesa que há de ser conquistada pelo príncipe estrangeiro, e somente o enredo impede Ulisses de casar com ela. Ele consorcia com a feiticeira Circe depois de protegido por uma erva, que deve ter sido outrora a Erva da Vida). A estória de Electra e o destino de Orestes foram, mais tarde, tratados pelos tragediógrafos, preocupados com a culpa, a responsabilidade e a justiça divina.