A dama e o general.
Madrugada de segunda-feira. A viatura da Polícia Militar
estaciona em frente a um prédio próximo ao viaduto do Centro
com a sirene desligada. A cidade ainda está deserta. Três
policiais descem do carro em direção à calçada. ;Carbonizados. Pela posição dos dois... será que
estavam , o policial de farda, depois de retirar o
lençol que cobre os cadáveres.
Parecem velhos demais, sargento, interrompe o
P.M., cabo.
Credo, quem seria capaz de uma maldade assim com
esses pobres diabos?, um terceiro P.M., gordo sacudindo as
bochechas vermelhas e fazendo o sinal da cruz.
Não sei porque o espanto. Já encontramos quatro
corpos carbonizados esta semana. O pessoal do 5° achou um cara
que foi queimado enquanto dormia dentro da Igreja", o
sargento.
Céus... o soldado gordo, repetindo o sinal da
cruz.
Eles acendem o fogo para se esquentar, enchem a cara
e acabam dormindo. A cachaça derrama e o estrago tá
feito", explica o segundo P.M.
Quem não trabalha não merece viver. Vamos logo
remover isto antes que amanheça e se forme uma multidão
ordena o sargento, cobrindo novamente os cadáveres.
este quepe ensebado também
Horas antes, escadarias da Catedral:
Durma Brigadeiro. Eu vigio o seu sono
Nada disso, Condessa, durma você. Eu vou ler até mais
tarde
Em um só gesto, tira o quepe e apanha uma folha de
jornal
Então faço companhia
Você viu os preparativos para o casamento da princesa
do Japão? ele, sério e concentrado.
Olhe essa carruagem, nós poderíamos morar lá
dentro!;, tomando a folha do companheiro.;Aqui diz que
o bolo terá 20 metros recheados com as mais finas iguarias do
Oriente e os adornos serão sapecados de esmeraldas
;Só espero que os noivos não engulam as pedras
De súbito, ele arregala os olhos, contrai os músculos do
abdômen, rola no chão, engasgado, como se quisesse expulsar um
lagarto da entrada do estômago. Tosse e escarra, asfixiando-se
com a própria língua, até que solta um grunhido e cospe na
mão um anel de vidro verde. A luta parece chegar ao fim.
Brigadeiro arrota alto e acaricia o peito aliviado
Ela ri um riso esgarçado. Deixe de porcarias, você
não está no circo, seu velho mandraqueiro. Vamos ver a página
policial. Leia para mim, esqueci os óculos na confeitaria
ontem.Condessa tem um olhar altivo e gestos refinados. Ela
ajeita a gola da blusa e o cachecol de lã vermelha tem a leveza
de uma echarpe de seda pura.;Amanhã lembre-me de mandar o
motorista buscá-los;, examinando as unhas
Certo cale a boca agora;. Brigadeiro
retorna o quepe para a cabeça e vira as páginas do jornal com
elegância de diplomata. A voz é ainda charmosa, de um timbre
grave e aveludado;Estão assassinando mendigos durante o
sono no centro da cidade. Segundo a notícia o número de
assassinatos dobrou depois que o inverno chegou
É perigoso cochilar nestes tempos, sumariamente.
Deixe disso, esse assunto não me afeta, graças a Deus temos
nosso lindo teto cravejado de diamantes. Veja que lua! Você não
me convida para dançar? Nossos amigos já estão chegando ao
salão principal
Ele se levanta e lhe estende a mão. Descem a escadaria da
Catedral e vão até o largo da praça, iluminado por antigas
lamparinas. Brigadeiro começa a tirar os acordes lentos e
tristes de Noturnosoprando uma folha de papel presa entre
os lábios. Foi assim que ela o conhecera, tocando seu
instrumento de papel na Praça da cidade. Enlaça sua cintura,
segura-lhe a mão direita junto ao peito e ensaia passos
delicados de valsa. Ela flexiona o corpo para trás e pede que
rodem. Enquanto giram na rua deserta, os convidados deixam o
salão. Acima de suas cabeças, a visão do casario sujo e
descascado vai se apagando e sobra apenas o recorte do teto
estrelado e do candelabro redondo de prata
Você dança divinamente,
generaaaaaaaaaalll.......
E você está linda com esse vestido azul, minha
condessa!
Brigadeiro veste um fraque negro e faz parte da orquestra de
violinos... monsieurde Blénac adora ouvir violinos, o
jardim interno, choveu esta noite... o patrão vai chegar com mademoiselle
oui, monsieuré preciso preparar os coquetéis, os
violinos... tenho vertigens...;Basta, estou exausta!;,
diz, repousando a cabeça no ombro do companheiro. Peça ao
maestro para tocar Paganini agora, enquanto olhamos as estrelas
na sacada principal. Afinal, somos os convidados de honra, não
somos?
Ele se irrita ao ouvi-la. Não, condessa, você está
caducando. Nós somos os anfitriões. E este deveria ser o salão
do Country Club!
Pare com essa mania de me corrigir em público, seu
velho estúpido! E eu já disse para você não me chamar de
caduca. Sua face está transtornada, ela avança
soqueando-lhe o peito
;Ah, então a dondoca se ofendeu! E quem foi que sentou
em cima dos óculos que eu achei no bazar da Vila Chinesa?
Isso já faz dois anos. Não suporto sua
deselegância, choramingaMe leve para casa.
Apanham suas coisas e caminham até o túnel que corta a
avenida central da cidade.
Descanse um pouco nesta poltrona, ele, fazendo-a
sentar junto de si sobre um cobertor no chão. Gosto de vir aqui
na galeria de artes. A arte pós-moderna me comove, embora
prefira os clássicos
Ela observa a longa fila de sem-tetos prostrada nas paredes de
aço, com suas crianças movendo-se em volta como ratazanas em
sacas de aniagem ...o tubo é a passagem secreta para a mansão
do cônsul...os tapetes persas precisam ser estendidos ao sol
porque ele virá para o jantar, tem que estar tudo em ordem, o
cônsul odeia poeira, os gatos siameses largaram pelo por toda a
casa, o cônsul adora gatos siameses mas não gosta de pelos em
seus tapetes.
Doem-me as costas. Estou velha, geme.
General, conte-me uma de suas aventuras marítimas...
Olha para o lado e vê que ela adormecera. Venha,
sussurrou, acomodando-a sonolenta nos braços.Encoste-se
aqui.
Como você é valente meu brigadeiro..., sem abrir
os olhos, amortece-se, nos braços do seu general.
Um alvoroço dos vizinhos interrompe de assalto o sono
recém-conciliado do general.A rapa tá solta! Pegaram o
Giló bem aqui perto. Vidal, acorde os outros, o negro e a
dondoca também, o jovem líder do batalhão de
maltrapilhos. Mais de 70% do corpo com-pro-me-ti-do, o
médico da polícia disse, soletra um pequeno mensageiro
negro. Será que escapa?, uma jovem.
Assim é melhor não sobreviver mesmo, o mulato
Vidal, apressando-se em alertar os demais que se enfileiram ao
longo da galeria.
Condessa, condessa!, chama o Brigadeiro,
sacudindo-lhe os ombros com firmeza. Temos que sair!
Está muito frio.... Não acredito, você vai querer
trocar de hotel de novo? Bem, porque não tiramos umas férias e
vamos...
Venha logo, garota, temos que procurar outro
lugar.
Um acesso de raiva desperta junto com a dama de cera. Eu
já disse, não saio de casa sem pelo menos escovar os dentes e
passar meu blush. É uma questão de dignidade para uma
dama, ouviu?. Mas brigadeiro não a obdece. Já estão
deixando o local quando ela se vira: Temos que voltar,
deixei minha bolsa!
Tudo bem, princesa, eu arranjo outra pra você mais
tarde no bazar, já impaciente e puxando-a pela mão.
Não vou à parte alguma sem minhas coisas!,
protesta. Pare de espernear ou arrasto você pelos
cabelos!. Os dois atravessam o túnel em ritmo apertado,
carregando uma trouxa de roupas e uma pilha de papéis. A pequena
multidão ocre se move até a saída do túnel, onde se dispersa.
General e condessa pegam a via expressa e alcançam o viaduto.
Já caminham há quase meia hora, quando ela diminui o
passo...;Brigadeiro, eu preciso...
Claro madame, eu a acompanho até a toalete aqui
perto
Ele lhe oferece o braço e a conduz a uma pequena depressão
ao pé do barranco cavado embaixo do viaduto. Protegem-se atrás
da viga de concreto que isola o cômodo da área descampada e do
barulho da metrópole.
Prefere usar o lavabo ou quer que prepare seu banho na
suíte cor-de-rosa.? , encoraja-a.
Seria muito agradável neste momento um banho com
aromas de rosa, mas estamos atrasados.
É verdade. O almirante nos espera para o almoço
diz ele, alcançando-lhe papel. Ele quer me mostrar a
coleção de armas que trouxe de sua residência na
Escócia. Brigadeiro fala sobre a visita, tentando
disfarçar o interesse pelas pernas nuas da companheira...as
coxas estão flácidas, mas ainda são bem torneadas, como devia
ser desejável, quantos homens amaram seu sexo e quantos cuspiram
nele depois de se saciar. Olha seus olhos de andarilha ...quanto
vazio... Ela puxa a calcinha e as pregas da parte interna do
antebraço tremem. Como agradece a deus por não tê-la conhecido
jovem, por já tê-la encontrado nas ruas assim, faminta, sem
clientes, esvaindo-se como uma nuvem de poeira... uma boca de
lixo inflada de dignidade, certa altivez, bendita empáfia, que a
pior tragédia humana não consegue dissipar. Continuou pensando
na sua sorte...um homem que não faz escolhas na vida não pode
se diferenciar de um verme. Ele a escolhera, pela primeira vez
fizera uma escolha. Entrara no circo para seguir o pai e saíra
da companhia quando o pai brigou com o proprietário. Alistara-se
na guerra porque o governo o obrigara, nem mesmo a miséria era
sua opção... Como é feliz de poder amá-la profundamente, com
todas as cicatrizes dos seus seios flácidos.
Condessa está descendo as roupas quando percebe o olhar terno
do companheiro e se detém a fitá-lo com as saias suspensas
pouco acima dos joelhos. ...porque não me repreende? porque não
se recompõe rápido, como de costume? porque não está
agressiva? Ela, então, o surpreende: Você me ama
profundamente, não é?
Andam mais alguns metros depois de deixar a toalete e é ela
novamente quem rompe o silêncio:
Brigadeiro, você acha que valeu a pena ter sobrevivido
naquele naufrágio durante a guerra? ela, ofegante.
Não fique tão tensa. Eles se encaminham para a
frente de um prédio.
Sempre se quer sobreviver. Deus é sádico,
sentando-se ao seu lado.
Você ainda tem os recortes de jornal sobre sua vida no
picadeiro?
Dois ou três, por quê?, entorna um demorado gole
pelo gargalo e passa a garrafa para ela.
Háhh! O licor está forte, degusta. Cai
muito bem depois dessa refeição. E as fotos do seu filho?
Foram-se no último furto.
Há bem pouco tempo eu tinha medo de morrer sem deixar
sinais. Eu disse isso para um jornalista e ele então me
aconselhou a escrever um diário. Lembro-me de ele ter dito algo
profundo como:A escrita é o lugar em que se marca as
linhas da vida.
E onde está o seu diário? Por que nunca me falou
dele?
Anotei tudo por alguns meses. A infância no interior, o
trabalho de governanta nas mansões, o brilho dos cabarets,
o cheiro de urina misturado à lavanda nos quartos de bordel. Por
vezes confundia tudo. Já teve a impressão de que sua vida não
tem uma seqüência como no cinema? Para que serviria uma vida
sem seqüências? Um dia dei o diário e a caneta para um
garotinho de rua desenhar. Ele saiu saltitando e nunca mais o vi.
Estar nas ruas é como andar em um trem sempre em movimento. Não
se pode parar o trânsito.
O que tinha na sua bolsa de valioso?
De valioso nada... um batom, minha carteira de
identidade...
Ele procura os recortes na sacola de plástico. Prepara-se
para riscar um fósforo, mas ela o detém:
Fogo não. Jogue no Lago Delphy, sugere. Eles se
aproximam do canal com as mãos e os olhares entrelaçados como
se firmando um pacto silencioso. O embrulho de papéis faz pouco
ruído ao cair na água e em segundos desaparece na correnteza do
esgoto pluvial.
Brigadeiro estica os braços fortes e respira fundo, tentando
animar-se. "Pode ser fascinante mesmo essa idéia de passar
pelo mundo sem deixar marcas, nada que não seja apagável. Já
me sinto leve... sou uma pluma!..., ele ensaia um vôo pela
calçada.
Os olhos da dama procuram tristes a praia além do horizonte
de concreto. Algo como se atirar ao mar sem olhar para
trás, partir sem pegadas na areia.
Você e sua obsessão por naufrágios. Prefiro que dois
anjos venham me buscar durante o sono e que deus me aguarde nas
nuvens com um par de pantufas e uma xícara de chocolate bem
quente. Ele percebe-a emocionada e muda o tom da conversa.
Aonde vamos agora?
Já caminhamos tanto pelas ruas que poderíamos ter
chegado à Inglaterra, ela, se recompondo.
Londres, Paris, Tóquio, Amsterdã, Roma, África do
Sul... é só escolher minha rainha! Partimos em excursão esta
madrugada!
Chega por hoje. A única coisa que me falta fazer
realmente com você é dormir. Você já se deu conta de que nos
conhecemos há tanto tempo e ainda não conseguimos dormir
junto? acomodando-se ao seu lado.
Quase nos estrepamos há pouco por isso...,
lembra. Não, não. Isso é cochilar e acordar a qualquer
momento para bater em retirada. Falo de um sono profundo,
compartilhado, sem medo. Acho mesmo que não me importaria de
morrer depois de dormir uma noite com você.
Ele se acomoda melhor para ouvi-la. Acho que quando duas
pessoas que se amam dormem juntas, seus sonhos, fígados, o
pâncreas, o cérebro, os sexos, todos os seus órgãos internos
funcionam sincronizados e então é como se a alma dos amantes se
desprendesse e se encontrasse em outra dimensão.
Hummm....As ruas deram aula para minha prostituta
filósofa...
Não seja odioso, repreende-o.Eu nunca permiti
que os homens que se deitaram comigo dormissem ao meu lado. Tinha
medo que levassem minha alma enquanto.
Ele olha com ardor sua face murcha, ajeita-lhe os cabelos
longos e sem vida e pousa os lábios roxos sobre suas mãos
cor-de-manhã. Abrace-me meu brigadeiro. Você está
exausto. Há quanto tempo não dorme de verdade...,
acaricia o terno xadrez.
Descanse condessa. Os dois beijam-se longamente e
adormecem, sobre o forro prateado da nave estelar.
7h30 de segunda-feira, no Instituto Médico Legal.
Policiais civis desenrolam o lençol, exibindo os corpos
queimados ao delegado que acaba de chegar. Um deles fala sem
parar:
Um morador do Centro fez a denúncia anônima para a
Polícia Militar. Quando os homens chegaram ao local os corpos
já estavam carbonizados há pelo menos uma hora. O informante
disse pelo telefone que conhecia o casal. Eram visto de vez em
quando no depósito de lixo da Vila Chinesa catando bugigangas.
Parece que ele era um negro andarilho, metido a artista, e ela,
uma prostituta aposentada.
Certo, manda enterrar como indigentes. Mais um
acidente com essa raça...
1) Quem na realidadeeram a condessa e o Brigadeiro?
R: Ele era um negro andarilho metido a artista e ela uma prostituta aposentada.
2) Dê que orquesta o Brigadeiro sonhava fazer parte, e qual a música que a condessa pediu para tocar?
R: Da orquesta de violinos e a música pedida para tocar é Paganini.
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choram.
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas é nele que espelhou o céu.
* Não se pode ensinar nada a um homem , só é possível
ajudá-lo a encontrar a coisa dentro de si.
* Não importa o que os outros pensam,
porque eles vão pensar de qualquer jeito.
* Um momento de felicidade vale mais do que mil anos de celebridade.