A morte de Sócrates, paralelos a serem traçados com a de Stefan Zweig.
Por: Silvio Saidemberg..........21 de julho de 1999
A morte de Sócrates; alguns excertos e breves comentários:
Mesmo podendo ter evitado a condenação e depois, mesmo tendo a possibilidade de fugir, Sócrates recusou-se a fazê-lo. Por deixar-se condenar e depois matar, Sócrates deu a vitória a Anito, o seu principal acusador. O movimento filosófico iniciado por Sócrates experimentou importante declínio, os seus seguidores nada puderam fazer para impedir sua morte, nem para se contraporem aos seus inimigos. O movimento socrático subdividiu-se.
No entanto, os seus detratores não tiveram ao longo dos séculos influência tão poderosa quanto a de Sócrates para mudar o caminho da civilização no sentido da verdade e do saber.
"Chegou o carcereiro, um homenzarrão rude mas não ruim. Disse a Sócrates:
_ Não te encolerizes contra mim como fazem todos, quando lhes venho anunciar que chegou a hora: eu não tenho culpa do teu destino e limito-me a cumprir as ordens dos Onze.
Sócrates tranqüilizou-o com doçura e o homenzarrão estava claramente comovido; repetia a toda gente que nunca em tantos anos encontrara um prisioneiro tão gentil e paciente, de tal maneira que no fim Sócrates teve também de o consolar para que fizesse, como dissera, o seu dever."
Critão o amigo que o acompanhava protestou e quis pospor o ato de execução para mais tarde e após alguns últimos prazeres, o que implicaria em dar propina ao carcereiro. "E Sócrates teve de pacientemente obrigar o amigo a refletir como tudo isso, aquele agarrar-se desesperadamente às últimas gotas de vida , era indigno dele e das palavras que antes havia proferido. O carcereiro foi-se embora a chorar: como gostaria de fazer por aquela vez uma exceção, mesmo sem nada receber; mas, Sócrates pedira-lhe que lhe trouxessem o veneno. Pouco depois chegou um servo dos Onze com a taça de cicuta, meio utilizado pelos atenienses (meio não doloroso) para as condenações à pena capital por delitos não particularmente graves ou hediondos. Sócrates perguntou o que devia fazer. O homem do veneno explicou-lhe que depois de haver bebido a mistura deveria caminhar um pouco, até sentir as pernas pesadas; depois deitar-se e esperar que o veneno efetivasse a sua obra; não sofreria, podia ficar tranqüilo, ele tinha prática daquelas coisas e não era a primeira vez que preparava a poção.
Então Sócrates tomou a taça com muita alegria, sem tremer nem mudar de cor ou expressão, mas, segundo o seu hábito olhando fixamente o homem com aqueles seus olhos bovinos:
_ Que dizes?_ perguntou._ É permitido com esta bebida oferecer uma libação a um deus? É permitido ou não?
Respondeu o servo: _ Veja Sócrates!, nós só preparamos a quantidade que julgamos necessária beber. _
_Compreendo, disse Sócrates. Mas, rogar aos deuses que a passagem para o além seja feliz pode-se e é bem. É isto que rogo , e que assim seja. _ Dito isto bebeu de um só trago, sem dar sinais de repugnância, serenamente ( a cicuta tem um sabor amargo insuportável)."
Com serenidade Sócrates consolou os amigos que não ocultavam o pranto, com firmeza censurou-os: "devemos acabar com palavras de alegre augúrio. Sede calmos e fortes."
_"Escutando-o, envergonhamo-nos e seguramos o pranto. Ele deu umas voltas e quando disse que sentia as pernas começarem a pesar deitou-se de costas. O que lhe tinha dado a poção começou a apalpá-lo e a examinar-lhe os pés e as pernas; num certo momento apertando-lhe fortemente um pé perguntou-lhe se sentia. E ele respondeu que não. Depois apertou-lhe as pernas e assim, correndo a mão pelo corpo acima nos mostrava como ele esfriava e se retesava. E dizia que quando chegasse ao coração, morreria. E já todo o abdome estava frio quando se descobriu; porque se tinha coberto (escondido o rosto com suas vestes para não demonstrar sofrimento se tal ocorresse).
Disse estas últimas palavras: _ Critão, recorda-te que devemos um galo a Esculápio. Dá-lho, não te esqueças.
E Critão: _ Assim será feito, mas vê se tens alguma outra coisa a dizer!
_ A esta exclamação nada respondeu; um momento depois teve um estremecimento, o homem descobriu-o: tinha os olhos abertos e fixos." Critão fechou-lhe a boca e os olhos.
.... Assim, encerrou Sócrates a sua existência, querendo até o último momento ser coerente e correto com os homens e com a sua concepção de transcendência.
Comparações razoáveis:
Alguns paralelos podem ser traçados com a morte de Stefan Zweig, no entanto, não há a clareza de um julgamento ao qual ele pudesse haver sido submetido com direito a defesa, direito amplamente concedido a Sócrates por uma sociedade arcaica, mas, por outro lado apesar do seu primitivismo, menos dissimulada.
Stefan Zweig teve seus livros queimados até mesmo no Novo Mundo. Foi impedido de publicar no idioma de sua língua materna e tentando o desterro, o que Sócrates não aceitou como pena substitutiva, encontrou a morte e o esquecimento no Novo Mundo ( Sócrates não queria enfrentar a intolerância entre estrangeiros). Zweig não foi obrigado a "tomar cicuta" de forma oficial e ostensiva; no entanto, mergulha ele na morte com grande alívio, como o atribuído a Sócrates. No triste desfecho de Petrópolis, tudo ocorreu de forma a surpreender, não houve acompanhamento por amigos dos últimos instantes de vida.
Apesar de bem mais recente, a que possa o casal Zweig haver se submetido é absoluto mistério. Mas, o seguinte não ocorreu com Sócrates; Zweig recebe imediatas homenagens póstumas oficiais e é mantido para a história como o grande escritor que é. Contudo, seu poder de influir permaneceu até o final deste século ofuscado pela perplexidade criada em torno de "seu gesto" e pela inevitável mensagem inferida: "ser favorável a direitos humanos é um ato de fraqueza e de debilidade sentimental; nada se pode contra o poder avassalador do Eixo".
Hoje temos a clareza que existe um mistério que permaneceu insondável, seja por alguma razão especial ou ainda, por não haver na época, qualquer abertura para contestação de versões oficiais. Perguntas propositadamente deixaram de ser feitas durante quase seis décadas. No entanto, finalmente, com um número considerável de indícios de discrepâncias referentes à morte de Stefan Zweig e de sua esposa, Elisabeth Charlotte Zweig, pergunta-se
: O que ainda impede que este assunto seja completamente desvendado?
*Dr. Silvio Saidemberg ( médico, psiquiatra, psicoterapeuta, professor de psiquiatria da PUC- FCM, "Fellow in Child and Adolescent Psychiatry from The University of Rochester, NY"; reside em Campinas, São Paulo) e-mail:
ssaidemb@yahoo.com
Baseado na Bibliografia; Franco Massara, diretor de edição – Os Processos da idade Clássica: Sócrates – Lucio Sérgio Catilina; Coleção Os Grandes Julgamentos – Otto Pierre, Editores, (Portugal) - volume 13