Mensagem de Fé

Noções de Homilética

Prof. Anísio Renato de Andrade


O termo “homilética” vem do grego “omiletke”. “Omile” é “pregação”; “Tke” é “arte”, de onde vem o vocábulo “técnica”. O dicionário de português Aurélio nos informa que homilética é “a arte de pregar sermões”. Trata-se de uma ciência diretamente ligada à ordem de Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc.16.15-16).

Jesus começou o seu ministério pregando. A pregação é o principal meio de se conhecer o evangelho e alcançar a salvação.

“Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm.10.13-14). Haveremos de pregar o evangelho, mas não podemos fazê-lo de qualquer maneira, pois isto poderia dificultar a fé e a salvação dos ouvintes.

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Perservera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (ITm.4.16). O mau vendedor não terá êxito em seu trabalho. O semeador que nada sabe sobre o que faz acabará destruindo as sementes e nenhum fruto colherá. A semente que o Senhor nos deu é perfeita. Se a nossa pregação não produz resultados, o problema pode estar em nós ou naqueles que recebem a palavra, pois nem toda terra é fértil (Mt.13). O semeador precisa conhecer a semente, o tempo, o solo e o modo de semear.

A pregação do evangelho, para ser bem feita, precisa ser bem preparada. O pregador também deve se preparar. Mensageiro e mensagem precisam estar integrados e harmônicos para que os ouvintes sejam alcançados de modo satisfatório.

O que se diz a respeito da pregação pode também ser aplicado, quase em sua totalidade, aos estudos bíblicos, sendo estes mais longos, com utilização de mais textos bíblicos e menos efeitos de oratória.

A homilética tem por objetivo nos conscientizar de todo o preparo relacionado ao ministério da Palavra, bem como nos oferecer técnicas de aperfeiçoamento da prédica.

A PREPARAÇÃO

Quando alguém vai receber convidados em sua casa para uma refeição, procura resolver com antecedência uma série de questões, além de preparar o alimento. Será importante saber quem virá, qual será o prato, os ingredientes, o horário, etc.

A palavra de Deus é alimento para o nosso espírito e não pode ser servida de qualquer maneira.

Precisamos preparar. “Pré” significa “antes”. É bom que a preparação para a pregação seja feita com uma antecedência razoável, de alguns dias ou semanas. Preparar-se em cima da hora não é um bom hábito, pois corre-se o risco de um imprevisto no último instante tornar-se um impedimento decisivo.

Jesus disse que os discípulos não deviam se preocupar com o que iriam dizer quando fossem presos, pois o Espírito Santo falaria por meio deles (Mt.10.18-20). Eles não seriam avisados sobre a prisão. Logo, não poderiam se preparar. Nós, porém, sabemos com antecedência quando vamos ministrar e devemos estar preparados. Isto não impedirá que o Espírito Santo nos use e nos leve a falar algo que não havíamos pensado nem planejado. Contudo, não podemos justificar nossa negligência por meio de uma suposta dependência do Espírito Santo.

Existe algum nível de preparação que deve ser permanente em nós. Se alguém, a qualquer momento, nos perguntar sobre a razão de sermos cristãos, não podemos alegar que fomos apanhados de surpresa e não sabemos explicar. Pedro disse que devemos estar sempre prontos para responder àqueles que nos pedirem a razão da esperança que há em nós (IPd.3.15). Outra coisa é uma pregação ou estudo bíblico. Não é bom que seja assumido de repente, sem um preparo, caso seja a primeira vez que se vai falar sobre aquele assunto.

Quanto mais experiente for o pregador, mais habilitado estará para aceitar desafios inesperados, mas não é o caso do iniciante.

A preparação da mensagem começa com a escolha do tema. Se possível, é bom que se saiba também alguma coisa sobre as pessoas que irão assistir: seu nível cultural, social, etc. Estes detalhes não são primordiais, mas algum conhecimento deles será útil.

De posse do tema, será necessário um trabalho de pesquisa para que se consiga o maior domínio possível sobre o mesmo. Nem tudo o que for pesquisado será ministrado, mas esse trabalho produzirá o conjunto de tópicos a serem pregados.

O primeiro material de estudo do pregador é a bíblia. Por exemplo, se alguém for convidado para ministrar sobre “família”, então poderá começar pela leitura de passagens bíblicas a respeito desse assunto. Diante de um tema tão amplo, será necessário escolher algum aspecto a ser ministrado. Não dá para se falar tudo sobre família em uma pregação ou em um estudo bíblico. Poderíamos escolher, por exemplo, algo como “o valor da família na igreja”, ou “a importância da família na sociedade”, ou “os males que afligem a família”, ou “os fundamentos de uma família bem sucedida”, etc. Outra alternativa seria escolher uma família específica e fazer uma análise dos fatos a ela relacionados. Por exemplo, poderíamos estudar a respeito da família de Jacó. Observe que, ao se escolher a essência da mensagem, surge automaticamente o título da mesma. Isto será útil por uma questão de organização e clareza. Não se pode ir para o púlpito sem idéia da mensagem a ser pregada. Não é bom começar em um assunto e passar para outro e outro e outro, de modo que não exista um “fio da meada” e não se perceba aonde o orador quer chegar. Nesses casos, nem ele mesmo sabe.

Escolher um assunto bem específico é como escolher o destino em uma viagem. Se eu resolver ir aos Estados Unidos, precisarei optar por uma cidade. Não é possível conhecer todo o país instantaneamente. Se eu não souber para onde vou, posso me perder no meio do caminho e, de fato, isto não fará nenhuma diferença para alguém que não sabe onde quer chegar.

Para se descobrir um assunto na bíblia, será útil uma concordância ou chave bíblica. Ali se encontrará a palavra desejada e as referências onde se pode localizá-la nas Escrituras.

Para se obter esclarecimento sobre o texto lido, pode-se consultar um dicionário bíblico, enciclopédia bíblica, comentário bíblico. Os livros evangélicos que tratam do assunto em estudo podem ser muito úteis, mas podem também conter erros. Se formos utilizar algum argumento extraído de um livro, precisamos estar bem seguros de seu fundamento bíblico. A leitura de várias obras sobre determinado assunto coloca em confronto as idéias de vários autores, de modo que o leitor se familiariza com o tema e obtém confirmação para o que está certo e mais condições de discernir o que está errado. É desejável que se tenha domínio do tema a ser pregado. Domínio pleno é algo inatingível, mas devemos procurar o melhor conhecimento possível, de modo que possamos oferecer mais informações do que incertezas. Quanto maior o conhecimento, menor será a dependência do preletor em relação às suas anotações.

Em alguns casos, é mais sensato recusar convites para falar sobre alguns temas, devido à sua complexidade ou à nossa inadequação para abordá-los. Na fase preparatória, não podemos nos esquecer de orar. Este é um dos principais fatores que determinarão o sucesso ou fracasso do pregador.

CONTEÚDO DA MENSAGEM.

Algumas pessoas lêem um versículo bíblico e depois falam muitas coisas que não estão relacionadas ao texto lido. É como se tivessem lido apenas por costume ou para justificarem biblicamente suas próprias idéias. Por exemplo, o candidato que lê um versículo na igreja para, em seguida, fazer um discurso político. Nesse caso, não se trata de uma pregação bíblica, por mais correta que seja sua mensagem.

A pregação deve ser essencialmente bíblica, em seu conteúdo e propósitos. Caso contrário, não estaremos anunciando a palavra de Deus, por mais certos que estejamos daquilo que queremos ensinar. Filosofia, psicologia e sociologia podem estar ocupando o lugar do ensinamento bíblico em algumas situações. É verdade que podemos usar com cuidado tais disciplinas, mas elas não podem ser a essência da nossa mensagem.

Não sejamos apenas repetidores das mensagens alheias. Ainda que isso possa ser proveitoso, o pregador pode se perder no meio do assunto, principalmente se for questionado sobre algum tópico. O melhor é que a nossa pregação não seja simplesmente a repetição do que lemos nos livros, mas sim fruto das nossas próprias conclusões, devidamente fundamentadas na bíblia.

O ESBOÇO DA PREGAÇÃO

O estudo preparatório deve produzir algum material escrito. Enquanto se lê a bíblia e outros livros, devem ser feitas anotações das referências e pontos principais do assunto. Trata-se de uma coleta de dados. No final, será necessária uma seleção e organização das idéias. Desorganização no preparo conduz ao nervosismo e erro no momento da pregação.

Normalmente se obtém um grande volume de informações sobre o tema, de modo que torna-se inviável a utilização de tudo na mensagem, mesmo porque, na medida em que se estuda, percebe-se o destaque de alguns dados em detrimento de outros. Precisamos, portanto, escolher as informações que têm maior relevância e relação mais direta com o que queremos transmitir.

Os pontos selecionados darão origem ao esboço da mensagem, que deve ser o mais curto e objetivo possível.

Os esboços de pregação não têm uma forma rígida. Podem variar muito, mas aqui vão algumas dicas que podem servir como base para sua elaboração.

A estrutura do esboço é a mesma da pregação. O esboço será então um roteiro para o pregador não se perder durante a ministração, ou mesmo para não se esquecer dos pontos mais importantes da mensagem. Em outras palavras, é um mapa com alguns pontos de referência que o ajudarão a alcançar seu objetivo.

O esboço PODERÁ ter:

1- Título da mensagem
2- Texto bíblico base
3- Introdução
4- Tópico 1
5- Tópico 2
6- Tópico 3...
Ilustração
7- Conclusão

Vamos analisar cada parte.

Título - É o tema a ser tratado, ou o “nome” da mensagem. Por exemplo: "A vinda de Cristo ao mundo" é o titulo de uma mensagem evangelística.

Texto bíblico base: Toda pregação precisa ter um texto bíblico como base. Este é o fundamento que vai dar autoridade a toda a mensagem. Normalmente, o texto é pequeno: 1 versículo ou 2, ou 3. Raramente se deve utilizar um capítulo todo. Só quando o capítulo estiver todo relacionado ao mesmo assunto. Se eu for falar sobre a oração que Jesus ensinou aos discípulos, não preciso ler todo o capitulo 6 de Mateus. No caso do nosso exemplo (A vinda de Cristo ao mundo), usaremos o texto de I Timóteo 1.15:

"Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal."

Introdução: Existem inúmeras maneiras de se começar uma pregação. Por exemplo: "Nesta noite, eu gostaria de compartilhar com os irmãos a respeito do assunto tal..." ou "No texto que acabamos de ler, temos as palavras de Paulo a respeito da vinda de Cristo ao mundo." Para muitas pessoas, a primeira frase é a mais difícil. Apesar de muitas alternativas, o ideal é que a introdução seja algo que prenda logo a atenção dos ouvintes, despertando-lhes o interesse para toda a mensagem. Pode-se então começar com uma ilustração, um relato interessante sobre algo que esteja relacionado com o assunto da pregação. Um outro recurso muito bom é começar com uma pergunta para o auditório, cuja resposta será dada pelo pregador durante a mensagem. Se for uma pergunta interessante ou intrigante, a atenção do povo estará garantida até o final da palestra. Voltando ao nosso exemplo, poderíamos começar a mensagem perguntando: "Você sabe para quê Jesus veio ao mundo? Nossa mensagem de hoje pretende responder a esta pergunta tão importante para todos nós." No esboço, podemos colocar uma palavra ou uma frase para nos lembrar como iniciaremos a mensagem.

Tópicos - Os tópicos são as divisões lógicas do assunto, ou a divisão mais lógica possível. Podem ser argumentos, características, causas e consequências, aspectos positivos e negativos de algo ou listas diversas: informações, pecados, bênçãos, milagres, pessoas, promessas, etc.

Por exemplo, se o título da minha mensagem for "O Maior Problema da Humanidade", eu poderia ter os seguintes tópicos: 1- a origem do pecado; 2 - as conseqüências do pecado; 3 - a solução divina para o homem. A divisão em três tópicos é aconselhável por ser um número pequeno, de modo que o povo tenha facilidade de acompanhar o raciocínio do pregador, sem perder o “fio da meada”. Podemos até mudar este número, tomando cuidado para não elaborarmos uma mensagem complexa. Os tópicos devem ser organizados numa ordem que demonstre o desenvolvimento natural do tema, de modo que os ouvintes vão sendo levados a compreender gradualmente o assunto até a conclusão.

Em algumas mensagens, os tópicos podem ser argumentos a favor de uma idéia que se quer defender com o sermão. Será bom se eles estiverem organizados de maneira que os mais interessantes ou mais importantes sejam deixados por último, de modo que a mensagem vá se tornando cada vez mais significativa, mais consistente e mais interessante a cada momento até a conclusão. Se você usar seu melhor argumento logo no início, sua mensagem ficará fraca no final. Numa mensagem sobre “Homens de Deus na bíblia”, cada tópico poderia ser o nome de uma pessoa, sobre a qual o pregador falará resumidamente. Por exemplo: Abraão, Moisés, Davi e Jesus. Esta ordem é natural e ascendente. Se for invertida, a pregação começará forte e terminará fraca.

Em alguns casos, o próprio texto bíblico já tem sua própria divisão que usaremos para formar nossos tópicos. O texto de I Timóteo 1.15 é assim. Dele tiramos os seguintes tópicos para o nosso esboço:

1 - Jesus veio ao mundo - Falar sobre a aceitação geral da vinda de Jesus. É difícil encontrar alguém que não creia que ele tenha vindo.

2 - Para salvar os pecadores - Falar sobre diversas idéias que as pessoas tem sobre o objetivo da vinda de Cristo e qual foi sua real missão. Fundar uma religião? Uma escola filosófica? Dar um golpe de estado? Nada disso. Ele veio salvar os pecadores.

3 - Dos quais eu sou o principal - Falar sobre a importância do reconhecimento do pecador para que a obra de Cristo tenha eficácia em sua vida. Questão individual.

Um outro exemplo de divisão natural do texto é João 3.16:

1 - Deus amou o mundo. Falar sobre o amor de forma geral e sobre o amor de Deus.

2 - Deu o seu Filho Unigênito - O amor de Deus em ação. Deus não ficou na teoria ou no sentimento.

3 - Para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna - O objetivo da ação de Deus.

Esse versículo é riquíssimo. Podemos elaborar várias mensagens através dele. É importante prestar atenção a este detalhe. Se tivermos um entendimento muito abrangente de um versículo, é melhor elaborar mais de um sermão, do que tentar colocar tudo em um só, tornando a mensagem longa ou complexa, principalmente quando o texto permitir vários ângulos de abordagem, ou contiver mais de um assunto.

Ilustrações - Ilustrações são ditados, provérbios (não necessariamente os de Salomão) ou pequenas histórias que exemplificam o assunto da mensagem ou reforçam sua importância. Como alguém já disse, as ilustrações são as "janelas" do sermão. Por elas entra a luz, que faz com que a mensagem se torne mais clara, mais compreensível. Jesus sempre ilustrou suas mensagens através do relato de situações comuns da vida de seus ouvintes: pastores e ovelhas, pais e filhos, senhores e servos, etc.

Muitas vezes, os argumentos que usamos podem ser difíceis, ou obscuros, mas, quando colocamos uma ilustração, tudo se torna mais fácil. Existem muitas “historinhas” por aí que não aconteceram de fato e são usadas para ilustrar mensagens. Não há problema em usá-las. Podem ser comparadas às parábolas bíblicas. Entretanto, é importante que o pregador diga que aquilo é apenas uma ilustração. As histórias podem ser fictícias desde que não sejam testemunhos. Estes devem ser reais. Não podemos inventar a história de um milagre que nunca aconteceu. Não podemos colocar Deus como personagem de uma lenda. Observe que as parábolas de Jesus foram usadas para exemplificar e esclarecer seus ensinamentos, mas nelas não encontramos pseudo-testemunhos sobre a ação de Deus.

Se usarmos testemunhos (verdadeiros!) como ilustrações, eles devem ser bem curtos. A ilustração não pode ser tão grande a ponto de se sobrepor à mensagem, assim como a janela não pode ser maior do que a parede. As ilustrações são muito importantes, porque despertam o interesse dos ouvintes, eliminam as distrações e ficam gravadas na memória. Pode ser que, na segunda-feira, os irmãos não se lembrem de muita coisa do sermão de domingo, mas será bem mais fácil lembrar das ilustrações, dos “casos” contados como exemplo e, juntamente com essa lembrança, será também recordado um importante ensinamento.

As ilustrações podem aparecer em qualquer parte da pregação, mas não em todos os tópicos da mesma mensagem.

No exemplo da mensagem de I Timóteo, poderíamos usar uma ilustração no tópico 3, mencionando que um doente precisa reconhecer sua doença para ser curado, ou contando um curta história sobre um doente que reconheceu ou não a sua doença e qual foi a consequência disso. Não é obrigatório o uso de ilustrações no sermão. Se não tiver nenhuma, paciência. Às vezes, os próprios relatos bíblicos já ilustram muito bem os assuntos que abordamos. Quando pregamos com base no Novo Testamento, podemos usar um pequeno relato do Velho Testamento como exemplo.

Outro detalhe a se observar: não é bom usar muitas ilustrações na mesma mensagem, pois ela se tornaria uma coleção de contos sem consistência. Como dissemos, ilustração é luz, e luz demais pode ofuscar a visão. Observe que neste estudo de homilética, usamos até aqui os seguintes elementos ilustrativos: refeição, vendedor, semeador, viagem, mapa, janela, parede e luz.

Conclusão - A conclusão será o ápice da mensagem, o fechamento. Não basta fazer como aquele pregador que disse: "Pronto! Terminei". A conclusão é a idéia ou conjunto de idéias construídas a partir dos argumentos apresentados no decorrer da mensagem. Nesse momento pode-se fazer uma rápida citação dos tópicos, dando-lhes uma "amarração" final. A conclusão está diretamente ligada ao objetivo da mensagem, que deverá ser focalizado e mencionado nesse momento final.

Nessa parte, normalmente se convida para o posicionamento dos ouvintes em relação ao tema. Ainda não é o apelo. O pregador incentiva as pessoas a tomarem determinada decisão em relação ao assunto pregado. Depois desse incentivo, dessa proposta, o assunto está encerrado e pode-se fazer o apelo, se for o caso, e/ou uma oração final. No caso do nosso exemplo (A vinda de Cristo ao mundo), poderíamos concluir convidando os ouvintes a reconhecerem sua condição de pecadores, para que o objetivo da primeira vinda de Cristo se concretize na vida de cada um. Para fechar bem podemos encerrar dizendo que Cristo virá outra vez a este mundo para buscar aqueles que tiverem se rendido ao evangelho.

O esboço deve ser o menor possível. Pode-se, por exemplo, usar uma frase para cada parte. Pode haver determinado tópico representado por uma única palavra. O esboço é o "esqueleto" da mensagem. Coloca-se o que for suficiente para lembrar ao pregador o conteúdo de cada divisão. Se uma palavra ou uma frase não forem suficientes, pode-se colocar mais, mas com o cuidado de não se elaborar um roteiro muito grande e complicado, pois o pregador poderia ficar perdido no próprio esboço na hora de pregar. Então, o recurso que deveria ser útil torna-se um problema. Opcionalmente, o pregador pode fazer o esboço, bem pequeno e, em outro papel, um resumo da mensagem. No púlpito, só o esboço será usado. O destino do resumo será o arquivamento. Em outra ocasião, quando o pregador for usar o mesmo sermão, o resumo será muito útil. Se tiver guardado apenas um esboço muito curto, este poderá não ser suficiente para lembrá-lo de todo o conteúdo de sua mensagem.

Eis o esboço que construímos durante esta explicação:

Título: A vinda de cristo ao mundo
Texto bíblico base: ITm.1.15.
Introdução : Você sabe para quê Jesus Cristo veio ao mundo?
Tópico 1 - "Jesus veio ao mundo" - Falar sobre a aceitação geral da vinda de Jesus. Todos crêem que ele veio (até os ímpios).
Tópico 2 - "Para salvar os pecadores" - Falar sobre diversas idéias que as pessoas têm sobre o objetivo da vinda de Cristo. Fundar uma religião? Dar um golpe de estado? Ensinar uma nova filosofia de vida? Qual foi sua real missão? Salvar os pecadores.
Tópico 3 - "Dos quais eu sou o principal" - Falar sobre a importância do reconhecimento do pecador para que a obra de Cristo tenha eficácia em sua vida.
Ilustração: O doente precisa reconhecer sua doença.
Conclusão : Qual é o nosso posicionamento em relação à pessoa de Jesus Cristo? Conduzir ao reconhecimento individual da condição de pecado. Conduizr a aceitação de Cristo como Salvador.

Não é aconselhável que se escreva toda a mensagem para se ler na hora. Isso torna a palestra monótona. Escreva apenas algumas frases norteadoras. Também não se deve ler todo o esboço diante do auditório. Trata-se de um roteiro para o pregador e não para os ouvintes.

EXEMPLOS DE ESBOÇOS DE SERMÃO

TÍTULO: A ARMADURA DE DEUS
Texto bíblico base: Ef.6.10-18
Introdução – Falar sobre o domínio do Império Romano na época de Paulo. O soldado romano e suas roupas especiais. A armadura de Deus é um conjunto de virtudes e práticas.
Tópico 1 – O cinto da verdade – os riscos da mentira e a importância da verdade na vida do cristão. O cinto prende toda a armadura.
Tópico 2 – A couraça da justiça – O que é justiça? O justo está protegido, revestido.
Tópico 3 – Os calçados do evangelho – Importância de conhecer e testemunhar. Os calçados são importantes para que se cumpra o “Ide”.
Tópico 4 – O escudo da fé – O que é fé? Os dardos são ataques contra a fé: argumentos malignos, heresias e acusações. Ilustração: as cidades muradas eram atacadas com flechas incendiadas. O inimigo não entra mas, ataca de longe.
Tópico 5 – O capacete da salvação – A importância de ser salvo e estar convicto disso. A ausência do capacete inutiliza o restante da armadura.
Tópico 6 - A espada do Espírito – a palavra de Deus – Os equipamentos anteriores são de defesa. A espada é arma de ataque. Importância do conhecimento e da proclamação. Exemplo: Jesus atacou Satanás com a palavra (Mt.4).
Conclusão: Ef.6.18 – Orando, vigiando e perseverando – De que adianta a armadura se o soldado estiver dormindo? Conduzir o auditório à reflexão, oração e tomada de decisão sobre o tema.

TÍTULO – A SUPERIORIDADE DE CRISTO
Texto base: Lucas 9.18-22
Introdução: As pessoas viam Jesus pregando e curando em vários lugares. Contudo, não sabiam muito bem quem ele era.
Tópico 1 - Opiniões sobre Jesus - Os mais bem informados achavam que ele era filho de José, o carpinteiro. Alguns, mais “espirituais”, achavam que ele era um antigo profeta ressuscitado.
Tópico 2 - Opiniões positivas, porém erradas. Também nos nossos dias, as pessoas têm idéias erradas sobre Jesus. Dizem que ele é simplesmente um mestre, ou um espírito iluminado, um revolucionário, fundador de uma religião.
Tópico 3 - Quem é Jesus? O Filho de Deus. Ele é superior a todos os profetas e a todos aqueles que são considerados “deuses”, guias, anjos, santos ou entidades espirituais.
Tópico 4 – Ele fez o que nenhum outro poderia fazer. O texto fala sobre sua morte e ressurreição. Nenhum outro morreu por nós e, se morresse, não teria ressuscitado.
Conclusão: Precisamos reconhecer a superioridade de Cristo, renunciar a outros “salvadores” e ídolos, aceitar o sacrifício de Cristo e fazer um compromisso com ele.

ESBOÇO DA AULA DE HOMILÉTICA


Título – Noções de homilética
Texto bíblico base – Mc.16.16.
Introdução
Conceito – Homilética é a arte de pregar
Importância da homilética – Ide e pregai... Quem crer será salvo.

A preparação
Oração
Antecedência
Escolha de tema específico
Tipo de sermão (temático, textual, expositivo)
Leitura bíblica e pesquisa.
Material: bíblia, dicionário bíblico, enciclopédias, livros evangélicos.

O esboço do sermão Título, texto bíblico base, introdução, tópicos, ilustracões, conclusão.

A pregação (ou estudo bíblico) Duração, gestos, linguagem, movimentação, direcionamento do olhar.

O pregador Apresentação pessoal, sua vida, sua reputação, a credibilidade da mensagem.

A PREGAÇÃO

É aconselhável que o pregador faça um curso de oratória. Entretanto, mesmo não se podendo fazê-lo, o talento e a prática podem desenvolver bastante as habilidades de quem fala em público. A observação de outros pregadores, as críticas construtivas dos ouvintes e algumas dicas de pessoas experientes no assunto poderão ser muito úteis.

Algumas considerações sobre a pregação:

1 - O domínio do assunto a ser falado é o princípio da segurança do orador. Portanto, estude bem o assunto com antecedência.

2 - Ao falar, evite ficar andando de um lado para outro. Isso cansa as pessoas. O orador pode andar mas não o tempo todo.

3 - Evite repetições excessivas de frases ou palavras. Por exemplo, algumas pessoas falam o "né" no fim de cada frase. Isso cansa e desvia a atenção de quem ouve.

4 – Utilize o esboço para se orientar durante a pregação.

5 - Ao falar não fique olhando apenas em uma direção ou apenas para uma pessoa. Procure ir dirigindo seu olhar para as várias pessoas no auditório.

6 - Falar corretamente é fundamental. Se houver algum problema nesse caso, procure fazer um curso de língua portuguesa. Os termos chulos e as gírias não são admitidos na pregação.

7 - O outro extremo também é problemático. Procure não utilizar palavras muito difíceis, a não ser que esteja disposto a explicar seu significado. O uso de termos complexos ou estrangeiros demonstra erudição do orador mas pode inutilizar a mensagem se os ouvintes não forem capazes de compreendê-los.

8 - O uso de gestos é bom mas deve ser praticado com moderação e cuidado. Não use gestos ofensivos. Não use gestos que não combinem com o assunto. Imagine que alguém esteja falando sobre a ceia do Senhor e ao mesmo tempo pulando ou batendo palmas. Não combina.

9 - O tom de voz também é importante. É bom que seja variado. Se você falar o tempo todo com voz suave, o povo poderá dormir. Se você gritar o tempo todo, talvez as pessoas não vão querer ouvi-lo novamente. O tom de voz deve acompanhar o desenvolvimento do assunto, apresentando ênfase e volume nos pontos mais importantes, nos apelos ou nas conclusões que se quer destacar. O falar suave e o falar alto e enfático devem ocorrer alternadamente para não cansar o ouvido do público.

10 - Em se tratando de sermões sobre temas bíblicos, é fundamental que o pregador tenha orado antes de falar e que também esteja se consagrando ao Senhor para pregar com unção e autoridade.

11 - O nervosismo e a timidez devem ser tratados com a prática. O início é mesmo difícil, mas com o tempo e a perseverança, a segurança vem. Não existe outro caminho. Algumas pessoas aconselham o tímido a começar falando sozinho diante do espelho para treinar. Não sei se isso resolve. O certo é que começar com uma platéia pequena é mais aconselhável. O nervosismo será menor. Antes de falar no templo, será melhor começar nos cultos domésticos. Além disso, acrescente-se o valor do exercício. Quanto mais vezes você pregar, maior probabilidade terá de se tornar um bom pregador.

12 - Outro detalhe importante é a duração da palestra. Algumas sugestões: Se for um sermão em igreja, o tempo deve ser de 30 minutos. Se o assunto for maravilhoso e envolvente, então pode até chegar aos 40 minutos. Estudos bíblicos podem durar 1 hora. Em vigílias e acampamentos esse tempo pode até se estender um pouco mais. Não existem regras para isso, mas apenas percepções práticas e habituais. Esses limites podem variar dependendo do lugar, do propósito, do auditório, e de muitos outros fatores. Mas, de forma geral, esses tempos sugeridos são razoáveis. Se quisermos ir muito além, poderemos cansar muito o auditório e o que passar do limite não será mais captado nem aproveitado pelos ouvintes.

Se você sabe pouco sobre o assunto escolhido, fale pouco. Não invente. Paulo disse que “em parte conhecemos e em parte profetizamos” (ICor.13.9) e, muitas vezes, trata-se de uma partícula.

O PREGADOR

O fato de alguém pregar o evangelho de vez em quando não o torna um pregador, assim como a simples participação em um jogo não transforma o indivíduo em um jogador de futebol.

Todo convertido pode anunciar o evangelho, mas nem todos se dedicarão a essa função de modo específico, habitual ou exclusivo. Todos podem pregar, mas o verdadeiro pregador fará melhor e obterá melhores resultados.

O ministério evangelístico assemelha-se ao trabalho de um vendedor. Embora não estejamos vendendo a palavra de Deus, em ambos os casos encontraremos questões de habilidade, talento e eficiência.

O pregador, por maiores que sejam seus conhecimentos gerais, precisa conhecer profundamente a palavra de Deus, a bíblia.

Além do conhecimento bíblico e das técnicas de oratória, o fator atraente da pregação envolve dois elementos: dom e unção.

Se não fosse assim, qualquer pessoa poderia se tornar um grande evangelista. Sabemos, porém, que Deus deu esse dom a algumas pessoas (Ef.4.10-11). Quem não o tiver poderá se esforçar muito, sem conseguir o resultado desejado, ou então poderá pedir ao Senhor que lhe dê o dom.

O dom pode até suprir a falta das técnicas de oratória, mas não costuma substituir o conhecimento bíblico. Não se pode usar o dom como desculpa para a negligência.

O talento do pregador não é tudo o que ele precisa para ser eficaz, pois, se assim fosse, o indivíduo poderia se desviar do evangelho e usar o mesmo dom para propagar outro tipo de mensagem.

Comparemos o dom a um aparelho de rádio. Ele tem todos os componentes necessários para funcionar. Porém, isso só vai acontecer se estiver sintonizado à emissora. Assim, nosso dom vai funcionar perfeitamente, seremos porta-vozes de Deus, na medida em que estivermos ligados ao Senhor. O resultado vai ser a unção em nossa pregação e, por conseqüência, o fruto.

"Estar sintonizado" envolve oração, jejum e abstinência do pecado. Quando pecamos, estamos sintonizados em "outra emissora" e, ainda que falemos as palavras de Deus, elas não estarão vindo direto da boca de Deus.

Na pregação, existem dois elementos importantes: a mensagem e o mensageiro. A mensagem, por melhor que seja, pode ser destruída por um mensageiro mal preparado ou inadequado. Imagine se o repórter de um telejornal aparecesse com uma camiseta rasgada e com o cabelo despenteado. Isso influenciaria na receptividade de sua mensagem. O mensageiro precisa ter reputação e comportamento que inspirem credibilidade.

Voltando à figura do vendedor, sua eficiência será maior na medida em que ele conhecer o seu produto, tanto na teoria quanto na prática. Se ele mesmo usa e gosta do que está oferecendo, seu entusiasmo vai contagiar o cliente. Da mesma forma, se o pregador fala sobre o evangelho, mas não existe entusiasmo em sua voz, se não existe paixão nem comprometimento, isso vai enfraquecer sua mensagem.

O pregador deve apresentar em sua vida os efeitos de sua pregação. Não é bom que o vendedor ou garoto-propaganda de creme dental seja banguelo. Assim, a vida, o exemplo e a reputação do pregador serão decisivos na receptividade de sua mensagem.

Até as pedras podem clamar, mas o Senhor prefere que seus discípulos o façam.

Até as mulas podem falar mas Deus prefere que o profeta fale e esteja bem preparado para isso.

Trabalho para a vida

A capacitação do pregador nunca termina. É um processo que dura a vida toda. Suas constantes experiências com Deus o habilitarão cada vez mais para o ministério. A busca pelo conhecimento bíblico e geral deve ser ininterrupta, pois aquele que é sábio aos seus próprios olhos, ainda não compreendeu a extensão de sua própria ignorância.

Bons estudos e boas mensagens!


Em caso de utilização impressa do presente material, favor mencionar o nome do autor:
Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.

Para esclarecimento de dúvidas em relação ao conteúdo, encaminhe mensagem para anisiora@mg.trt.gov.br

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