Eram pouco mais de nove horas da manhã. Eu tinha pernoitado no hospital de Torre de Moncorvo, fazendo companhia a um colega que havia sido destacado para fazer o serviço de urgência nocturno, sozinho, no primeiro dia de trabalho.
Fui deixando o carro deslizar vagarosamente, até encontrar a escadaria de pedra que me tinham indicado como anunciadora do hospital local. Estacionei a viatura. Saí do carro. "Bom dia Senhor Doutor", disse um homem dos seus 60 anos que passava no outro lado da rua, tirando-me o chapéu.
Vesti o casaco e subi a referida escadaria. "Bom dia Senhor Doutor", disseram-me em uníssono e com um sorriso nos lábios duas senhoras que desciam.
Não havia porteiro. Saudei uma doente que se encontrava à porta, a qual, ao responder-me, logo me referiu para fazer o favor de entrar, que a enfermeira estava num gabinete um pouco à frente.
Estaquei. Era incrível! Eu nunca tinha estado em Freixo-de-Espada-à-Cinta. Desde miúdo me tinha habituado a imaginar aquela terra como próxima do cabo do mundo; lá longe, junto à fronteira com Espanha, afastada do mundo citadino em que eu sempre tinha vivido. Aliás, apenas uma ou duas vezes tinha chegado a Vila Real, donde nunca tinha passado. Trás-os-Montes era algo que eu conhecia apenas da literatura.
Porém, as pessoas falavam-me como se me conhecessem, como se me considerassem, como se me estimassem.
Fiquei em Freixo apenas quatro dias, o tempo necessário para conseguir uma licença de serviço. Os compromissos profissionais e familiares que já então tinha assumido, não me permitiram ali dar continuidade à minha carreira.
Mas guardo uma muito agradável recordação daquela terra e daquelas gentes, que tão bem me receberam.
Não havia clínico residente. Por isso, o dia da chegada dos jovens médicos - na altura dois - que ali eram colocados por um ano, era aguardado com muito respeito, e provavelmente até com alguma ansiedade, pela população local. Até porque, logo de seguida, era vulgar que esses jovens profissionais arranjassem soluções burocráticas para ali não permanecerem, como afinal veio a acontecer comigo também.
Assim, era compreensível o carinho com que éramos tratados. E os que lá continuavam sempre referiam como era difícil carregar o carro com azeite, couves, batatas, fruta diversa, e mais uma série de belíssimos produtos naturais com que aquele povo os presenteava, quando, de duas em duas semanas, iam visitar a família.
Era uma forma de compensar um difícil exercício da Medicina. Sem grande experiência, com equipamento diminuto e com necessidade de por vezes ir de burro, monte acima, consultar um doente que não se podia deslocar.
É claro que era proibido exercer a Medicina fora do hospital. É certo que nunca tinham andado de burro. Mas, quando estava em perigo a vida das pessoas, não se olhava a regulamento nem a meios de transporte. O que era necessário era resolver as situações.
Ali reaprendi como o povo do interior pode ser - e muitas vezes é - mais delicado, de mais fino trato, com maior sensibilidade do que a população das grandes cidades.
Mas ali reaprendi também como deve ser
difícil aos políticos que, em Lisboa, definem as coordenadas
de Saúde deste país - e que normalmente nem sequer são
técnicos do sector -, compreender as necessidades da população,
procurar as soluções apropriadas e definir as linhas de rumo
adequadas, de forma a satisfazer Lisboa, Porto, Braga, Setúbal,
mas também Ardãos, Alcains, Calheta e Freixo-de-Espada-à-Cinta.