Conhecemo-nos há alguns anos. O contacto quase diário, a comunhão de ideais vários, a empatia que se foi gerando, uniram o que os diferentes níveis culturais, sociais ou económicos poderiam separar. Respeitando-nos mutuamente, deixámos crescer entre nós uma sã amizade. Somos amigos.
Este meu amigo é um homem fisicamente forte. Com a desenvoltura física de quem outrora mergulhou vezes sem conta no rio, ora em puro deleite de quem não tinha brinquedos de bazar para preencher os tempos livres, ora na busca de algumas moedas atiradas por senhores muito inferiores e com um ar muito superior e até divertido. Fortaleza aliás desenvolvida nas mais que oito horas diárias de vida operária, antes industrial e agora de construção civil.
Mas à força física junta-se a força espiritual de quem, em menino, se apresentou ao dono de um quiosque a devolver a revista que horas antes havia roubado, porque a sua consciência não podia aceitar tal comportamento. Verdadeira força a de quem se ergeu depois de ter caído, enquanto jovem, nos caminhos das paixões exacerbadas e dos comportamentos viciosos. Ao tempo de correcção prisional seguiu-se o tempo de constituição de um lar simples e honesto, de quem assume com dignidade a sua condição de ser humano.
As nossas conquistas de ordem espiritual, quando bem sedimentadas, assumem o carácter de definitivas. Contudo, quando em fase de sedimentação, todos estamos sujeitos a falhar, para o que basta ficarmos algo desatentos aos verdadeiros valores, distraíndo-nos com as múltiplas e perfeitamente secundárias solicitações materiais e perdendo a noção das realidades.
E isso terá acontecido com o meu amigo, quando deixou o lar e se foi instalar num acanhado quarto dum terceiro andar numa viela da zona velha da cidade, que me dizia ser um quarto muito jeitoso e com uma bela paisagem.
Subimos as longas escadas de madeira, ouvindo diversas discussões familiares, um jovem em trajos menores a cantarolar, várias emissões de rádio (parecendo que toda aquela gente tinha dificuldades auditivas, tão alto sintonizavam os seus receptores); vendo quadros mais ou menos íntimos de quem não tem condições para viver com o mínimo de privacidade; sendo visto por diversas mães de família que "controlam" quem sobe as escadas daquele tipo de comunidades. Ultrapassámos uma porta velha e aí estávamos numa estreita dependência com um divã, uma cómoda, uma mesinha de cabeceira e uma cadeira, tudo muito velho e mal conservado. À janela viam-se telhados e frontarias de casas antigas e bastante degradadas.
Sofri. Um pouco pelas condições miseráveis em que aquelas pessoas viviam. Mas muito pela forma como vi o meu amigo a enganar-se a si próprio, tentando pateticamente adaptar-se a uma situação que lhe era francamente adversa. Como ele errava... E como ele se enganava...
Uma deturpada análise da realidade leva-nos a errar. Mas quando erramos, fazemos, em defesa própria, uma análise adaptada da realidade, no que se incluem as múltiplas atenuantes que sempre procuramos para os nossos erros.
Depois... bem, depois ou temos força interior para nos erguermos de novo, verificando como (depois de se descer tão rápida e facilmente) sempre é difícil e lento subir; ou ficamos mergulhados na lassidão da vida de corrupção, satisfazendo apenas os mais pequenos e tacanhos prazeres da nossa vida animal.
Mas o meu amigo é um homem verdadeiramente forte e, assim sendo, foi-se erguendo. Arrumou ideias, regressou ao lar, arranjou novo emprego, libertou-se da droga, pagou as dívidas, encarou de novo a realidade de frente.
Os anos passaram e esse homem é um triunfador. Ele sabe que todo o seu acervo material e espiritual foi conquistado graças ao seu próprio trabalho, à sua força de vontade, à sua capacidade de renúncia, ao seu persistente esforço racionalmente conduzido, à crescente firmeza do seu próprio carácter.
É, e continuará certamente a
ser, um homem simples, um ilustre desconhecido da generalidade das pessoas,
mas não deixa de ser em si um belo exemplo para quem deseja ver
um pouco para além da materialidade das coisas.