Estive alguns dias na Amazónia. Provavelmente mais do que a generalidade dos leitores, mas muitos menos do que os que gostaria de lá passar. De qualquer modo, os suficientes para ficar fascinado por toda aquela beleza natural.
A imensidão daquela floresta faz-nos sentir pequeninos. Desde o porte magnificente das grandes espécies, até à delicada beleza da pequena flor tropical, passando por um sem-número de plantas que estamos habituados a conhecer em vasos aqui na Europa e que, naquela região, nos aparecem como grandes árvores ou arbustos.
Floresta imensa tanto quando a sobrevoamos e nos aparece como um enormíssimo tapete verde, como quando nela penetramos e sentimos dificuldade em nos deslocar, dada a forte densidade da vegetação.
Mas, se o nenúfar, as estrelícias e tantas outras plantas me fascinaram, também a forma como o reino vegetal ali acasala com a água, me deixou extasiado.
Como é belo penetrar na floresta por
um daqueles inúmeros braços de água que a entrelaçam,
numa pequena canoa, hábil e silenciosamente conduzida por um índio...
Impressionou-me a enorme quantidade
de avermelhadas e escuras águas transportadas pelo rio Negro. Não
mais poderei esquecer o fenómeno do encontro das águas: durante
alguns quilómetros a água escura proveniente do rio Negro
corre lado a lado com a água turva do rio Solimões, sem se
misturarem.
Porém, se o rio Amazonas e os seus afluentes me extasiaram, também a fauna da região me tocou.
Desde os típicos e coloridos pássaros - como as araras e os tucanos - até às múltiplas espécies de macacos, passando pelos impressionantes répteis. É muito agradável tomar o pequeno-almoço ao som da passarada, mas são inesquecíveis os momentos de contacto com os crocodilos no seu próprio habitat, ou a demonstração de coragem de um dos meus filhos a pegar numa jibóia, com o auxílio de um "caboclo".
Extasiado com todas essas belezas da natureza, foi, todavia o ser humano que mais me impressionou. Ou, pelo menos, quem mais me fez meditar, nesses dias de andanças amazónicas, e posteriormente.
Conheci índios autênticos, habitando cabanas construídas em cima de espécies de jangadas boiando nos braços de água que se estendem pela floresta amazónica. Vi homens seminus a caçar peixes de arco e flecha e mulheres, também seminuas, preparando de forma primitiva os alimentos para a família.
Apreciei os "caboclos" a fazerem comércio em Manaus - desde as flautas índias até aos electrodomésticos japoneses - nos grandes armazéns, nas lojas, nas barracas de rua e na rua sem barracas.
Conheci imigrantes portugueses e de outros países europeus, bem como descendentes destes, exercendo profissões liberais, explorando pequenas ou médias empresas, ou representando os interesses de grandes multinacionais.
Meditei nas diferentes experiências que o Homem tem à superfície da Terra. Com a camisola colada ao tronco e algumas gotas de suor escorrendo pela face e pelas pernas, ponderei que, se eu tivesse nascido debaixo daqueles 45 graus centígrados e sufocantes, seria provavelmente tão lento de atitudes como a generalidade dos nativos. Imaginei a alegria que naturalmente sentiria por conseguir um lugar deitado numa rede, quando viajasse num dos navios-motores entre Itacoatiara e Urucurituba, em que a grande maioria das pessoas viaja de pé, durante algumas horas.
A influência do meio ambiente em cada um de nós é de facto muito grande. Aqueles homens e mulheres, com aspecto e hábitos tão diferentes dos meus são-me iguais em essência. Vi-os cultural e materialmente distantes de mim, mas sinto-os espiritualmente semelhantes a mim próprio e aos restantes europeus.
Entendi que também ali há gente intrinsecamente boa e pessoas de má índole. Gente capaz de enganar, de maltratar, de matar os seus semelhantes. E pessoas capazes de nos transmitirem um sorriso amigável, de nos ajudarem desinteressadamente, de nos oferecerem uma pequena lembrança.
Fiquei com a sensação de que a maioria das pessoas que conheci são pacíficas e pouco ambiciosas. Talvez por isso o ouro de Serra Pelada ou o petróleo da bacia amazónica raramente sejam referidos. Talvez por isso tantas pedras preciosas circulam pelas mãos de tanta gente, embrulhadas em papel de jornal ou num farrapo.
Ocorreu-me que a população indígena da América do Sul não terá demonstrado preponderantes características guerreiras quando os primeiros europeus ali chegaram e - dizendo-se disseminadores da mensagem de Cristo - os tentaram escravizar. Contudo, nunca aceitaram a escravização, optando em muitos casos pela morte.
Ponderei a situação actual, em que algumas entidades exteriores aos povos sul-americanos procuram interferir no presente e no futuro da região, dizendo-se defensores do equilíbrio ecológico. Perguntei a mim próprio se a defesa dos grandes espaços verdes, ou a sua criação, não deverão ser feitos também noutros lugares deste planeta. Questionei-me se, por trás das aparências, não estará a tentativa de exploração da imensa riqueza amazónica.
Desejei - e desejo - que o povo da Amazónia
saiba encontrar por si as soluções mais apropriadas ao desenvolvimento
de todo o potencial da região, preservando o dito equilíbrio
ecológico de tão belas paragens. Recusando a escravização
às ideias ou aos interesses de terceiros, mas também evitando
a "morte" do maior espaço verde deste planeta.