À semelhança do que acontece com diversos animais, o Homem de vez em quando sente necessidade de se evidenciar. Umas vezes, fá-lo pela positiva, ou seja, coloca a si próprio objectivos exigentes, esforça-se por os atingir e, naturalmente, notabiliza-se pelos seus próprios actos. Outras vezes, fá-lo pela negativa, procurando minimizar as qualidades daqueles que o rodeiam, inferiorizá-los ou ridicularizá-los, a fim de mais facilmente sobressair.
É curioso como num país de pequenas dimensões como é Portugal, os residentes na região de Lisboa galvanizam os acontecimentos da capital, tratando de uma forma secundária o que se passa no resto do país, a que chamam província.
Já os homens do norte, principalmente os do Porto e da região litoral de Aveiro para cima, esforçam-se por realçar as suas qualidades de trabalho, a sua dinâmica empresarial, atribuindo aos da capital um papel meramente político.
Para além disso, os de Braga minimizam os de Guimarães, e estes aqueles. As gentes de Lever e de Crestuma rivalizam entre si. Os funchalenses menosprezam um pouco os porto-santenses e estes maldizem um pouco aqueles. As pessoas de Cascais parecem sentir-se algo superiores às de Lisboa e estes dizem que aqueles são algo emproados. E, alguns milhares, ou milhões, de portugueses contam anedotas de alentejanos.
Certamente que as pessoas residentes em cada região vão assumindo características algo diferentes. Mas, num país com as dimensões do nosso, essas diferenças não deverão ser demasiado grandes. E, sejam de que dimensão forem, naturalmente que seremos bem mais construtivos se nos unirmos nos pontos de interesse comum, do que se nos afastarmos nas diferenças.
Os alentejanos, por exemplo, dada a sua ascendência com influência árabe, atentas as características do clima da sua região, o tipo de comunidades que formaram e mais um sem-número de factores, têm características diferentes dos transmontanos, dos beirões, dos açoreanos e dos restantes portugueses. Naturalmente.
Mas é profundamente injusto condenar os homens daquela região, todos, a serem uns indolentes ou uns atrasados mentais. No Alentejo, como noutras regiões, há homens trabalhadores e gente muito inteligente, capazes de colocarem a si próprios objectivos ambiciosos e de se esforçarem por os atingir. Capazes de contribuiírem para que, em conjunto, coloquemos aos portugueses objectivos ambiciosos e, em conjunto, nos esforcemos por os atingir.
Numa época em que se busca a igualdade entre os europeus, em que se exalta a abertura nos países de leste, em que se admira o combate à segregação racial na África do Sul, nós divergimos, afastamo-nos e ridicularizamo-nos com anedotas. Por outras palavras: segregamo-nos.
Poderá dizer-se: "ora, ora; pequenas brincadeiras sem importância." Será? Alguém gosta de ser ridicularizado? As anedotas poderão ser pequenas e brincadeiras para quem as conta ou para quem nelas é ricularizado?
E, se queremos a união e a paz entre os povos, entre as regiões, entre as pessoas, porque não havemos nós próprios de começar a contribuir para essa união e essa paz? Deixar de contar anedotas sobre alentejanos poderá ser um pequeno acto simbólico, até muito fácil de conseguir, mas é já algo de construtivo.
E depois? Não podemos em conjunto ponderar os problemas dos alentejanos (como das restantes regiões), procurar as soluções apropriadas e desenvolver as acções necessárias ao seu desenvolvimento económico, agrícola e sociocultural?
Meditemos só nisto: se alugássemos o Alentejo aos israelitas, por um período de dez ou 20 anos, o que é que eles poderiam ali fazer! Os homens criaram no deserto os maiores laranjais do mundo, numa região assolada pela guerra fraticida, o que seriam capazes de fazer entre nós?
No "nosso" Alentejo não há deserto,
nem guerra. Poderão os alentejanos conseguir uma capacidade de realização
semelhante à dos israelitas em Neguev? E como é que nós,
os restantes portugueses, os vamos apoiar?