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Diário do Front
A época das definições está chegando Logo não haverá mais espaço para políticos que ficam no muro esperando vantagens de vários lados "Arlequim, servidor de dois amos" é uma deliciosa comédia do italiano Carlo Goldoni. Arlequim, como já deve ter concluído quem se lembra de um carnaval qualquer, é o protótipo, a caricatura, do bobo, mas não de um bobo qualquer. É o bobo que se julga esperto e passa a metade do tempo se envolvendo em situações complicadas e a outra metade tentando escapar das consequências destas situações. Na peça de Goldoni ele resolve ganhar dois salários servindo ao mesmo tempo a dois senhores hospedados no mesmo hotel. Julgando-se "esperto" ele espera obter no final do mês os dois salários sem imaginar a dimensão do problema que estará criando para si mesmo. A confusão se agrava ainda mais porque um dos amos de Arlequim é uma mulher disfarçada de homem e, para completar o inferno astral do pobre palhaço, é a noiva do outro amo. Lá, é claro, a história acaba terminando bem e a forma espalhafatosa como se dá o desenlace da situação garante boas risadas. Mas não é só no teatro italiano que há muitos fazendo o papel de arlequim e tentando obter vantagens servindo a dois amos. No teatro da política tal comportamento é até usual. Transcrevi, há algumas semanas, historieta contada na coluna de Cláudio Humberto a respeito da disputa judicial entre Paulo Maluf e Laudo Natel pelo governo do estado. Na história um deputado havia se dirigido à casa de um e mandado a esposa à casa do outro para prestar solidariedade. Mas tampouco é necessário ir tão longe para achar exemplos de outros arlequins que se julgam espertos - ou melhor, que acham que só eles são espertos - e tentam garantir vantagens de dois - ou mais - lados em disputa. A política local, por exemplo, é repleta de personagens que estão simultaneamente em diversos lados da história. Mas há uma má notícia no ar para todos aqueles que esperam a última hora, verificando a direção que o vento sopra, para decidir em qual barco irão chegar ao porto. A má notícia é que não são apenas eles os espertos e que a arriscada manobra já não passa mais despercebida. Há no máximo mais alguns meses até que a decisão tenha de ser tomada e aqui não há perigo de uma cena rocambolesca dar margem a um final feliz que harmonize os amos e garanta o emprego do infeliz arlequim. Mais grave do que isto é que ele já foi descoberto, seus passos já são medidos e não faltam pessoas dispostas a um acerto de contas com ele. A traição é um pecado capital na política, principalmente quando mal sucedida - os políticos são em geral condescendentes com os vitoriosos mas implacáveis com os vitoriosos. Assim o nosso pobre arlequim que se imaginou mais raposa que as raposas e mais leão que os leões - na definição que Maquiavel deu aos dois animais - corre o risco de ser colocado no seu devido lugar: o picadeiro. O que leva o Arlequim a envolver-se nestas conspiraçõezinhas de botequim que lhe custam tão caro? É simples, a própria vaidade, a sensação de ser capaz de enganar a todos por todo o tempo, a falta de consciência de seu próprio papel subalterno de peão na partida de xadrez dos poderosos. O Arlequim é sobretudo um homem incapaz de medir seu próprio tamanho e por isso sempre se imagina um gigante até que o tombo lhe mostra a real e diminuta distância que o separa do chão. |
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