26 de agosto de 1999
Eu fui pra Batatais e encontrei com Clara. Crente
que ia ficar com ela, perguntei como ela estava. Ela me respondeu
que estava namorando com aquele carinha da última vez,
seu ex-namorado. Eu fiquei muito triste e fui pra casa da minha
vó. Ela chegou com um monte de fotos e quando eu fui ver
eram fotos da família dela e umas fotos de homens. Que
merda...
E foi assim, sonhando com isso que eu acordei às seis
horas e sete minutos dessa quinta. O ônibus continuava
rodando. Agora por uma estrada muito ruim. Estreita, sem faixa
central. Ninguém tinha acordado ainda, então eu
fiquei olhando a paisagem diferente que se revelava para mim
na janela. Vários morros retos no topo, tipo chapadões
com grama amarelada e árvores tortas. De repente o motorista
parou o ônibus, bem no meio do nada, num descampado que
só tinha uma cerquinha azul marcando a propriedade. Aliás,
quanta terra improdutiva eu vi para aqueles lados!!! O ônibus
parou algumas outras vezes no meio da estrada durante a noite,
mas eu não sei o porque, só uma vez eu consegui
ouvir que era porque uma correia tinha quebrado, ou algo assim.
Voltamos a rodar e aquela parada tinha feito o pessoal começar
a acordar. Passada uma meia hora daí, paramos no segundo
posto da viagem. Era um postinho muito forreca, superlotado e
pequeno Difícil conseguir um lugar até na pia do
banheiro para escovar os dentes. Usar a privada, então,
era uma missão impossível. Eu consegui escovar
os dentes e saí. Comprei uma Keep Cooler e fui tomar lá
fora. Olha só que café da manhã! Um tempinho
depois voltei ao banheiro, para ver se conseguia uma privada
desocupada e consegui. Quando saí tinha um cara fazendo
discurso contra o FHC. Eu só achei absurdo o fato de ele
estar fazendo aquilo lá. Se o pessoal já estava
lá, era porque não concordava com o governo dele,
se ele quisesse fazer aquele discurso tinha que ser de onde ele
saiu, pra conseguir mais gente. Bom, cada doido com a sua. Aliás,
o cara era muito estranho. Fazendo uma comparação
legal entre Fernando Henrique e Nero ele seguia. Estava com umas
roupas daquelas cores brilhantes e falava num fone de ouvido,
ligado no plug do microfone, fazia esse papel, enquanto sua voz
saía por outros fones de ouvido. Creio que pelo fato de
os fones de ouvido estarem perto de sua cabeça, lhe dava
a impressão de ter sua voz ampliada, mas não tinha.
Voltei para o ônibus e a Keep Cooler que eu acabei de tomar
já fazia efeito... Eu estava meio alegre e relaxado. Precisava
daquilo. Aí comecei a pensar, será que aquele pessoal
que estava no ônibus tinha consciência do momento
histórico que eles presenciavam? O que será que
os levava a fazer aquela viagem? Ideologia? Desespero? Manipulação?
Farra? Acho que cada um deles tinha seu motivo. Mas eu não
estava em condições de avaliar, afinal, mal sabia
o que me levava. Às vezes eu tinha a nítida impressão
de que estava indo pela reprova ao governo; às vezes,
pelo estudo de uma manifestação popular e as impressões
que as pessoas tinham do fato; outras vezes achava que era apenas
pelo fato de que eu nunca tinha saído do meu estado e
a viagem era de graça; e outras ainda, era por causa de
mulher. Só o tempo vai esclarecer minhas idéias.
Olhei para o lado e vi o cara que organizava a viagem, junto
com sua namorada. Ambos eram meio chatos, mal humorados. Na verdade,
só riam de suas próprias piadas e tudo o que nós
calouros falávamos era motivo de eles se entreolharem
e fazerem uma cara de reprovação.
Vinha um cheiro de maconha do fundo do ônibus, na frente,
Roberto dormia e o resto da turma estava quieta. Eu vi, então,
que a "farra do ônibus" a qual aludiram minha
ida, era o motivo de muita gente que estava lá dentro.
Senti uma pequena tristeza por constatar isso, mas, quando lembrei
que milhares de ônibus estavam saindo de todos os pontos
do Brasil, para manifestar sua insatisfação, ponderei
que a porcentagem de alienados da marcha era muito pequena e
que ainda valia a pena. Faltavam mais ou menos três horas
para chegar e eu estava curioso para saber o que os jornais diriam
daquilo tudo. Uma mulher passou num carro ao lado da gente olhando
para nós como se fossemos ETs. Ela riu e sumiu na estrada
Como eu disse, tudo bem que eu não sabia muito bem o que
me levava até lá, mas era visceral que algo muito
importante estava acontecendo.
Chegamos lá por volta de meio dia e fomos andando até
o local da manifestação. Eu não peguei nenhuma
bandeira e não gritava palavras de ordem. Olhando em volta,
vi muitos policiais, helicópteros, fogos de artifício,
soldados do exército, uma quantidade enorme de ônibus
estacionados e muita, muita gente caminhando para o protesto.
Nívea veio conversar comigo e sugerir que déssemos
uma escapada da passeata para conhecer a cidade, eu disse que
sim, desde que esperássemos nossa turma se estabelecer
num ponto em que pudéssemos sair e voltar depois. Eu fui
conversando com ela e os caras que estavam comigo me olhavam
rindo. Até que nossas turmas se separaram e eu me perdi
dela.
Sentados na grama, Daniel me perguntou:
- E aí, Luiz, que tá rolando?
- Nada, acho que não pega nada. - respondi e era sincero.
- Mas você tá xavecando?
- Ah, sempre se faz alguma coisa, né?
Ele riu e disse:
- É isso aí, você não dá ponto
sem nó.
Mesmo sabendo que não ia rolar nada, é sempre bom
deixar os outros pensando que vai. Ajuda na nossa reputação,
se a gente souber levar. Caso contrário ficamos conhecidos
como o que só canta mas não consegue nada.
Tinham muitos carros de som, um monte de discursos sendo feitos
ao mesmo tempo, tantos que mal dava para entender algum. O que
será que aconteceria? Tiramos fotos em frente ao Palácio
do Planalto. O espaço era enorme e, por isso, mesmo com
aquele tanto de gente, dava a impressão de que estava
vazio. Utilizando-se disso foi que eu vi uns repórteres
trabalhando. Um dizia para o outro: "olha, tira essa foto
de um ângulo que não parece ter muita gente.".
Eu fiquei revoltado.
Nívea veio e disse "pensou que ia escapar?"
e eu disse que não, mas que achei que tinham furado nossos
planos, pois não esperava encontrá-la novamente.
No meio da bagunça, resolvemos sair. Andando, eu ficava
prestando atenção no que as pessoas conversavam
e uma hora eu até parei, disfarçando que estava
lendo um panfleto, para ouvir o que um homem falava pelo telefone
sobre a manifestação. Nívea disse que eu
era xereta e eu argumentei que todo antropólogo tem que
ser, afinal, ele se instala no meio de uma comunidade que ele
nem conhece só pra ficar vendo quais são os hábitos
e costumes. Isso não é xeretice? Ela concordou
e continuamos andando. Andamos muito, muito mesmo e vimos que
Brasília não tinha nada de interessante. Eu contei
a história sobre Batatais pra ela e ela disse que eu deveria
ter logo dado um beijo nela, mesmo ela dizendo não. Caramba,
isso só me faz ter mais raiva do que aconteceu! Mudando
de assunto, nossa, como eu me sinto à vontade falando
com a Nívea! É incrível como a gente se
dá bem. Tudo o que eu falava, mas não conseguia
achar as palavras certas, ela completava e vice-versa. É
legal que eu não rio falsamente de nada do que ela fala,
como às vezes acontece com outras pessoas. Mas eu prefiro
afastar esse pensamento, pois ela está namorando com um
cara e não cansa de (quando me vê avançando
o sinal jogando um xaveco nela) me chamar de amigo. Do nada,
eu acabo de falar e ela dá um jeito de falar de nossa
amizade... amizade... amizade... Eu estou cheio de telefones
de amigas na minha agenda... caraco! Sei que andamos muito e
acabamos parando num shopping. Eu estava imundo de terra vermelha
nas botas e na calça, mas nem liguei, entrei assim mesmo.
Ufa... ar condicionado. Estava um calor insuportável lá
fora e aquilo foi um sopro de ar fresco mais do que necessário.
Ouvimos CDs, eu tomei um suco de laranja e ela um refrigerante
com dois pães de queijo. Ficamos um tempão lá
até resolvermos voltar. Ela me contou a história
de seu namoro. Disse que sabe que o cara fica com outras meninas,
mas ela também fica com outros caras. Embora ambos se
gostem e ela nunca se sentiu tão bem em um relacionamento,
pois gostava dessa liberdade. Eu não consegui entender,
minha mente deve ser muito atrasada. Só sei que isso poderia
bem ser um incentivo pra mim, pois, já que ela ficava
com outros mesmo namorando e não tinha problema, nada
me impedia, porém, aquilo de "amigo"... "amigo"...
"amigo"... na minha cabeça, me tirava do sério
e me fazia ver a verdade. Eu NÃO tenho chance com ela.
Por que as coisas tem de ser assim? Não, não quero
pensar nisso.
Voltamos para a passeata mas já estava acabando e o pessoal
estava indo embora. Não achamos nossa turma e me bateu
um arrependimento de ter saído, afinal, Roberto tinha
feito tanto para que eu fosse pra no final eu sair da manifestação
e ir pro shopping... fiquei meio mal e sabia que seria repreendido
pelo resto da turma. Ela também. Eles nunca nos perdoariam
por ter feito turismo, quando deveríamos estar lá,
junto com os outros manifestantes. Combinamos que não
contaríamos a ninguém onde estivemos e que apenas
falaríamos que ficamos andando por aí.
Já que não encontramos ninguém, ficamos
sentados à beira do lago que fica em frente ao Palácio
do Planalto, conversando. Resolvemos que iríamos comprar
cervejas e ficar ali, naquele lugar bonito, enchendo a cara e
conversando. Era uma proposta tentadora e eu devo confessar ao
meu diário, que me passou pela cabeça a idéia
de que, ambos bêbados, aquela de amizade iria para o espaço.
Subimos para comprar cerveja e, qual não foi minha surpresa,
ao encontrar no caminho todos os meus amigos... fiquei feliz
e infeliz ao mesmo tempo. Feliz por tê-los encontrado e
infeliz por ver meus planos irem por água abaixo.
- Finalmente achamos vocês! - disse eu.
- Onde vocês foram? - perguntou Daniel.
- Ah, a gente ficou andando, fomos até a asa norte, mas
não tem nada nessa cidade. - respondeu Nívea, olhando
para mim.
- E vocês, onde foram? - perguntei.
- Ah, a gente foi andar e depois a gente fomos no shopping comer.
- respondeu Flávio
Nívea e eu nos olhamos e quisemos rir, mas não
rimos e, numa inversão de papéis, dissemos:
- Nossa, como vocês são burgueses, foram passear
no shopping! - disse eu.
Nívea entrou na brincadeira e começou a falar também.
- Como se passa facilmente de oprimidos, pra opressores, não
é, Nívea? - eu disse isso para que ela entendesse
que, ao invés de estarmos levando bronca, estávamos
dando. Ela entendeu e concordou, rindo. O resto não entendeu
dessa forma e pensaram que eu queria dizer que de manifestantes
eles teriam a passado a burgueses. Reagiram, mas a gente levou
tudo na brincadeira. No final, ficamos por isso mesmo, mas não
sei se teria sido assim se apenas nós tivéssemos
saído. Que mundo estranho.
Nívea e eu fomos comprar cerveja. Na ida, passamos em
frente à câmera que filmava uma repórter
da Bandeirantes e aparecemos na TV. Lindo, né? Compramos
um monte de cervejas, colocamos num saquinho plástico
cheio de gelo que o vendedor arranjou para a gente e voltamos.
Um cara perguntou as horas para ela, ela disse e ele perguntou
se era horário de Brasília. Ela ficou confusa,
pois não sabia o que ele queria dizer. Eu disse que sim,
que era horário de Brasília e ele agradeceu e foi
embora. Ela estava pior que eu pensava...
Voltamos, ficamos lá, todos nós, olhando a paisagem
e conversando, até que deu a hora de voltarmos. No caminho,
ela, eu e Roberto fomos discutindo como deve ser um relacionamento.
Eu defendia o jeito tradicional só que com um pouco mais
de liberdade, pois também não gosto de me sentir
prisioneiro de ninguém e eles defendiam um namoro completamente
libertário, como o dela. Não chegamos ao consenso,
mas eu nem esperava que chegássemos. A única coisa
que eu sei e que nada me tira da cabeça, é que
ela pode estar gostando dele e ficando com outros caras que ela
não gosta tanto, mas para ele, só pelo que vi na
viagem e pelo que ela me conta, não gosta dela. Aliás,
gosta, mas em mesma escala quanto a qualquer garota que ele fica
por aí. Só fica com ela mais porque ela está
sempre lá quando ele procura. QUE RAIVA EU TENHO QUANDO
PENSO NISSO!!!
Nossa, como eu sou humano!
Subimos no ônibus, cada qual no seu, e fomos embora. O
ônibus parou num posto que não quis atender àquele
monte de gente, mas os motoristas comeram, por isso, tivemos
que esperar um tempão até a próxima parada.
Roberto discutia com a gente o por que de a gente ficar com medo
de falar para o motorista que aquilo que ele fez estava errado,
mas nós só chegamos à conclusão de
que era por pura besteira e vergonha sabe lá do quê.
Conversamos até a próxima parada, onde eu desci,
comi uma comida muito ruim e voltei para o ônibus. Um cara
da nossa turma quis sair sem pagar a conta, dando uma comanda
em branco que tinham dado a mais para ele e, pelo posto ser pequeno
demais e ficar fácil de ver que ele tinha consumido mas
nada tinha anotado na comanda, deu até polícia.
No final ele pagou o que devia e fomos embora.
Eu dormi ao chegarmos em Uberlândia. Não sonhei,
ao menos não me lembro, e sentia uma dor forte nas pernas...
queria muito chegar em casa e tomar um banho, comer comida de
verdade, dormir de verdade... vamos lá.


