24 de agosto de 1999
Acordei às sete e meia da manhã, após
um outro sonho muito estranho. Tomei café e fiquei aqui
pela casa, arrumando uma coisa aqui, outra ali, bobeirinhas que
tomaram quase toda a minha manhã. Conectei pra ver meus
e-mails e encontrei uma mensagem do Marcus dizendo que tinha
que falar comigo urgente. Nisso já eram oito e vinte.
Liguei pra ele, que me atendeu com uma voz de sono de dar dó.
- Te acordei? - perguntei, meio sem graça.
- Tava - respondeu ele.
- Pô, meu, tá dormindo ainda?
Nesse momento eu olhei no relógio e notei que não
eram nem oito e meia ainda, muito chato. É claro que ele
estava dormindo ainda, metade da população que
vive no nosso fuso horário ainda estava... tudo bem. Disfarcei,
perguntando que horas ele ia trabalhar (era só à
tarde) e perguntei o que ele tinha a falar comigo de tão
urgente.
- Você queria falar comigo, né?
- Ah é, (e tossiu). Vamos viajar?
- Pra onde?
- Rio de Janeiro.
- Quanto?
- Sessenta reais. Só a passagem de ida e volta.
Eu não entendi bem se o resto (hospedagem, comida, etc)
estava arranjado, mas estava com um pouco de pressa pra sair
pra faculdade, pois ainda tinha que ler um texto enorme e minha
mãe não ia fazer almoço em casa, por isso
eu tinha que chegar lá ainda a tempo de pegar o restaurante
do Coseas aberto.
- Bom, eu tenho que sair agora, depois a gente se fala e combina
isso aí direitinho, certo? - disse eu.
- Tá.
- Qualquer coisa, a gente se vê na net.
- Tá bom então.
E desligamos. Arrumei minhas coisas e fui pra faculdade. Peguei
o trolebus de sempre, que demora duas horas pra chegar lá,
mas pelo menos pago só uma passagem. Ia tudo bem até
que chegou no centro da cidade. Não sei por que diabos
o trolebus demorou, sem exagero, mais de uma hora pra passar
um trecho de menos de um quilôometro e meio. Eu ficava
impaciente. Tentava ouvir rádio, ler um pouco do texto
que eu tinha que ler, mas nada me distraia daquela situação
estressante. De repente o motorista parou e desceu do ônibus.
Todos ficaram esperando, pois ele não falou nada sobre
se o trolebus tinha quebrado, ou acabado a força, então
todos esperávamos que aquilo não fosse demorar
muito, que logo voltaria ao normal. Fiquei cerca de trinta minutos
esperando que logo voltaria ao normal. Arrumei minhas coisas
na mochila, desci do ônibus e vi uma fila de trolebus que
não tinha mais tamanho estacionados na avenida, iguaizinhos
ao meu. Olhei para uma mulher que estava no trolebus junto comigo,
mas que nessa hora também tinha descido pra ver o que
acontecia, e disse "Chega". E saí andando, procurando
um metrô. Eu estava no fim da Consolação,
mas pra pegar o metrô nessa rua eu tinha que subir ela
toda a pé. Estava sol do meio dia e eu não queria
andar tanto. Procurei outro mais perto e encontrei o Anhangabaú.
Entrei, fui até a Sé e troquei de linha, pra ir
até a Paraíso. Depois de um minuto e meio de viagem,
o metrô parou e apagou as luzes. Eu dei uma risada, abaixei
a cabeça e pensei "isso deve ser alguma brincadeira,
eu devo estar numa câmera escondida, ou algo assim..."
E fiquei esperando a operação se normalizar. Depois
de uns cinco ou seis minutos ele começou a andar novamente.
Fui de metrô até a Consolação para
pegar um outro ônibus que me levasse até a USP e
quando eu saio da estação (que fica perto da esquina
da Augusta com a Paulista), vejo o dito cujo do ônibus
descendo a rua. Eu corri, corri muito e ele parou no farol vermelho.
Só que o farol vermelho pra ele, era pra mim também,
já que estávamos descendo a mesma rua. Vários
carros passavam no cruzamento, mas eu não podia esperar
o farol abrir pra mim, pois abriria pra ele também e eu
não conseguiria correr mais que um veículo motorizado.
Passei correndo, depois de três ensaios, na frente dos
carros que passavam pelo cruzamento. Alguns até tiveram
que diminuir de velocidade enquanto eu passava com a mão
estendida na direção deles, pedindo passagem. Corri
e consegui chegar no ponto antes do ônibus. Peguei. Quando
o ônibus ia saindo uma menina estava chegando no ponto,
ela não teve a mesma sorte que eu e teve que esperar o
próximo. Entrou um cara vendendo drops de hortelã
e eu comprei. Ia ter que comprar drops de qualquer jeito, pois
minha garganta está raspando depois do sábado em
que fiquei no frio esperando pra voltar pra casa. Aliás,
eu reparei que nunca teve tanta gente vendendo ou pedindo coisas
como agora. Qualquer meio de transporte que você pega tem
alguém pedindo... No metrô também tinha uma
mulher, com uma criança no colo pedindo dinheiro. Eu não
dei pois não gostei de ela ter usado o filho pra ganhar
mais dinheiro... mas na verdade, sei lá se isso é
certo ou não, pois se ela pedisse sozinha, talvez não
ganhasse nada e se ela estiver realmente precisando... essas
questões são muito complexas pra se refletir nos
cinco minutos que se passaram naquele vagão.
Cheguei na faculdade. Todos repararam (ótimo) no meu
novo corte de cabelo que meu irmão fez pra mim. Gostaram
do topete. O melhor de tudo foi todo mundo falando "andou
sumido, heim? ", "e aí, sumido, tudo bem?",
"que saudades de você!". Eu me senti muito bem
com aquilo. Eles realmente perceberam que eu faltei uma semana
e, falsamente ou não, falaram que ficaram com saudades.
Eu fui falar com umas amigas da faculdade e elas estavam fazendo
uma lista de convidados pra festa delas. Um monte de nomes estavam
escritos numa folha de papel, na ordem em que elas iam se lembrando.
Eu, que não sou bobo, fiz questão de olhar em que
lugar estava meu nome, pra ver se elas demoraram pra me chamar
e qual não foi minha surpresa em ver que meu nome, se
não era o primeiro, era o segundo nome da lista. Adorei,
mas não falei nada pra elas.
Passou o tempo, Paulo chegou pra assistir aula à tarde,
eu tive aula de sociologia e, no final, resolvi ficar pra assistir
a aula da noite, pra não ter que ir lá na quinta
à tarde.
Depois da aula, fiquei esperando, junto com o Paulo, pela Lilian.
Ela disse que iria lá às seis horas e eu a esperaria
até as seis e meia, depois iria comer, pois depois de
tanta confusão pra chegar na faculdade nem tinha dado
tempo de almoçar. Lilian chegou e nós ficamos falando
com ela. Ela foi até no "bandeijão" com
a gente, mas dizia não gostar daquele lugar. Ela estuda
na FEA, que é uma faculdade da USP, só que com
incentivos privados, por isso, ela tem muito mais recursos, restaurantes
mais bonitos, fachadas melhores... Bom, comi e continuamos conversando
com ela. No final, levamos ela até sua faculdade e voltamos
discutindo política. Quando eu entrei na faculdade, fui
abordado, nada mais, nada menos que por Aretha, aquela menina
de quem eu gostava e com quem eu tinha falado na internet no
domingo. Nos cumprimentamos e nos falamos um pouco. Ela continua
do mesmo jeito, só pintou o cabelo. Me deixou falando
sozinho várias vezes, me deixando puto. Fui pra sala com
o Paulo. Nos sentamos e eu perguntei pro plantonista se ele tinha
a lista de presença da tarde pra eu assinar, pois não
iria assistir aquela mesma aula na quinta. Ele disse que tinha,
mas que já me conhecia desde o primeiro dia de aula e
só me daria a lista no final, senão eu assinaria
e iria embora. Eu achei engraçado, pois foi o primeiro
professor (se bem que ele não é professor, mas
não convém explicar a função dele
aqui) que me taxou como preguiçoso. Eu gostei, prefiro
ser visto como preguiçoso e fazer as coisas certas do
que ser visto como o certinho. É legal ser fora da lei.
Eu não tinha intenção mesmo de ir embora,
então fiquei esperando até ele me dar a lista (que
aliás, no fim eu tive que pedir, pois ele enrolou demais).
Aretha sentou-se atrás de nós, mas não ficou
muito perto, pois disse que iria ficar muito escondida. "E
você quer que quem te veja?" perguntei brincando.
Ela riu e disse "é mesmo". Mas ficou longe de
qualquer forma.
A aula estava extremamente massante, por isso, Paulo e eu ficávamos
conversando. Depois de um tempo chegou Nívea, uma japonesinha
muito linda, a quem eu já tive uma atração.
Aliás, até hoje ela me atrai. Eu disse:
- Isso são horas de chegar, mocinha?
Ela riu e perguntou:
- Já passaram a lista?
- Oras, se você vem aqui só pra isso, assina e
sai. Já passaram a lista. - disse, meio rindo. E era mentira,
a lista não tinha passado ainda.
- Você está muito folgado, viu?
- Pega eu. - disse fazendo voz de malandro (se é que
você consegue imaginar essa voz).
Embora pareça sério, tudo isso foi dito em tom
de brincadeira. Ela continuou:
- Você está na minha lista negra, viu?
- Que fosse na rosa choque, você acha que eu tenho medo
de você?
Rimos e paramos pra continuar a assistir a aula. A certa altura,
Paulo me perguntou o que eu tinha achado da volta da Aretha e
eu fiz uma cara que queria dizer "não estou nem aí".
Embora seja difícil de imaginar que cara é essa,
ele entendeu e disse "tá respondido". É
engraçado como isso acontece, amigos de muito tempo a
gente entende as caras que um e outro faz, nem precisa falar
pra responder. Na verdade, agora, analisando friamente, eu não
sei se estou completamente indiferente à volta dela. Homem
é bicho burro, por isso, sempre acho que ainda vai rolar
algo entre nós. Sei que não estou idiota como estava
antes dela ir viajar, pois aconteceram tantas coisas nesse meio
tempo que deu pra esquecer bem, mas se, de 0 a 10, antes eu me
importava em nível 10, agora me importo em nível
2. Falando na viagem, eu disse pra ela que foi uma grande falta
de consideração não ter me mandado o postal
e o único argumento que ela teve, antes de desconversar,
foi "eu não mandei pra ninguém". Fodam-se
os outros. Eu queria um postal pra mim. Assim a gente vai conhecendo
as pessoas. Se bem que, ela, eu já conhecia faz tempo.
No final fomos embora, Paulo, eu e Nívea. O ônibus
estava muito cheio, creio que seja por causa da greve. No meio
do caminho resolvemos que iríamos embora de metrô,
pois o terminal estava fechado. Nívea veio discutindo
comigo sobre uma crônica que eu escrevi e mostrei pra ela,
sobre as mulheres. Ela é feminista e achou que minhas
considerações sobre as mulheres terem um quê
de superficiais em relação ao que esperam de um
homem, muito generalizante. Mas não me deu argumentos
sólidos para desbancar minha opinião. Ficamos combinados
de lermos juntos a crônica, pois eu já nem lembrava
direito o que tinha escrito pra discutir. No mais, vim pra casa
e olha só que coincidência: quando eu peguei o metrô
lá na Sé, para ir pra estação Belém,
entrei no vagão e estava lá dentro nada mais nada
menos que a Lilian. Achei incrível. Conversamos um pouco
até eu chegar na minha estação, ela me mostrou
o livro que tinha que ler e eu mostrei os meus. Estávamos
conversando quando chegou minha estação, por isso,
mal deu pra eu me despedir dela e de seu amigo de faculdade,
que estava com ela. Cheguei em casa, fiz um serviço de
banco no computador pra minha mãe e fui dormir. Até
agora não falei com Marcus sobre a viagem.
Só uma coisa ficou faltando falar: quando eu cheguei
na faculdade as meninas me chamaram para ir, de graça,
pra Brasília, na marcha contra o Fernando Henrique. Eu
aceitei, mas depois da aula, reconsiderei e até agora
eu acho que não vou não... que droga!!! Agora tá
em cima da hora pra eu dar meu nome... não sei o que fazer.
Creio que não vai ser dessa vez que eu vou sair do estado
de São Paulo. Sempre tem algo pra atrapalhar.
O dia acabou... vou dormir.


