22 de agosto de 1999

Esse dia tem algo de diferente, pois, na verdade, é o primeiro que começa do fim. Quer dizer, o relato sobre o dia 22 de agosto, começa no fim do dia 21.
Conforme tínhamos combinado, Paulo, Maurício e Flávio iríamos na festa lá na estação Luz. Nem sabíamos direito o endereço mas, mesmo assim, iríamos. Como já disse antes, pegamos a propaganda lá no mercado mundo mix.
Eu não tenho certeza se foi o Paulo ou o Maurício que falou primeiro, mas um deles tinha falado com a Eliana sobre nossa saída e a convidou. Eliana é uma menina que estudou com a gente no primeiro colegial. Na verdade, eu nem me lembrava muito nitidamente da sua fisionomia, nem tão pouco do seu gênio, afinal, eu não me lembro de ter conversado muito (nem pouco) com ela naquela época. O amigo dela mesmo era o Paulo, mas rolava uns boatos, de que ela gostava do Maurício. Como não iria nenhuma menina com a gente (eu acabei não chamando a Ângela) Paulo disse que iria dar uma desculpa pra Eliana dizendo que não deu tempo de ligar. Isso porque tinha ficado combinado de que ele iria ligar pra ela confirmando o compromisso, caso contrário, ela não iria.
Maurício passou aqui em casa umas dez da noite. Começou a tocar um dance num carro que parou aqui perto de casa e eu perguntei pra ele:
- Pronto pra encarar esse tipo de som? - isso porque ele não gosta dessas músicas.
- Ah, Luiz, é sério que vai tocar essas músicas lá? - disse ele meio desanimado.
- Eu acho que sim, a gente pegou a propaganda no Mundo Mix, deve ser desse estilo o lugar.
Peguei minhas chaves, me despedi de minha família e saí.
- Você sabe quem vai, Luiz? - ele perguntou.
- Eu, você, Paulo, Flávio e uns amigos dele. Só cueca. A Eliana não vai porque, como só ia ela de menina, o Paulo disse que iria inventar alguma coisa pra falar que não deu tempo de ligar pra ela confirmando o passeio. - respondi, enquanto andávamos para o ponto de ônibus.
- É, ela ligou lá em casa e eu disse que, qualquer coisa, era pra a gente se encontrar na estação Bresser às quinze para as onze. - ele falou rindo.
- Vixe, é sério? Bom, então acho que ela vai acabar indo. Vai só ela de menina com a gente, fazer o que?
O ônibus chegou, pouco tempo depois, só deu tempo de a gente conversar um pouco sobre estar andando de ônibus e ter que ficar lá até às cinco, sem jeito de ir para um lugar mais legal, caso lá não estivesse bom. Subimos no ônibus, eu emprestei um bilhete eletrônico pra ele, pois ele não tinha, e nos sentamos no fundo do ônibus. Não deu nem tempo de a gente retomar o assunto, uma menina que estava sentada no banco do lado se levantou e sentou no banco à nossa frente. Era Eliana. Completamente surpresos, nos cumprimentamos e começamos a conversar. Eu pensei "ai, quero ver o que o Paulo vai falar agora".
Chegamos no Bresser, Flávio e seus amigos chegaram logo depois. Esperamos ainda um pouco pelo Paulo, como é de costume. Até aí, só eu conversava com Eliana, pois Maurício quase não falava nada. O pior é que eu nem tinha assunto direito com ela, eu não a conhecia bem, mas deu pra levar numa boa. Fomos pra estação Luz do metrô e em lá chegando, começamos a procurar pela rua. Não demorou muito, encontramos. Era um velho casarão, não era uma casa noturna, e um pessoal de preto, góticos, fazia hora na porta enquanto a música tocava lá dentro. Ficamos um tempinho do lado de fora também, sentindo o ambiente, mas tínhamos que entrar depressa porque até antes da meia noite mulher não pagava e Eliana não queria perder essa mamata. Entramos.
De cara, o inesperado acontece. Maurício encontrou um amigo da faculdade. A última pessoa que eu esperava encontrar um conhecido lá era ele. Depois Paulo encontrou uma amiga também. Andamos um pouco pelo salão, que era bem grande... e vazio. Pouquíssimas pessoas estavam lá dançando. Só umas figuras, góticas, com umas roupas estranhas é que dançavam com a própria sombra lá dentro. Eu saí pra procurar um banheiro e vi que no piso superior do casarão estava tendo festa também. Falei pro Paulo e todo mundo subiu. Eu fui no banheiro e depois nós ficamos um tempinho lá em cima. Estava melhor que lá embaixo. Tinha mais gente, era mais iluminado e a música não era tão depressiva. Fora que tinha muito mais meninas bonitas lá... pra olhar. Eliana foi comprar uma cerveja (dois reais, que roubo!) e eu, que estou tomando remédio ainda por causa da intoxicação, não podia beber. Droga. Mas quando ela me ofereceu um gole, não resisti e tomei um pouco. Até agora não tive nenhuma reação... até agora.
Todos sentaram, exceto Eliana e eu. Ficamos conversando com o resto do pessoal na mesa. Fomos para a sala onde tocava música e Paulo foi não sei pra onde. Eu disse que iria procurá-lo, mas assim que eu ameacei sair da sala, a tropa de cuecas que estava comigo começou a me acompanhar, deixando Eliana sozinha.
- Onde vocês vão? - perguntei eu, indignado.
- Você não vai procurar o Paulo, a gente vai com você. - disse Maurício.
- Bom, então vão só vocês. A menina vai ficar aqui em cima sozinha? - disse eu, desviando deles e voltando pra sala.
Eles foram embora. Depois eles disseram para o Paulo que estavam querendo forçar um clima entre ela e eu, mas isso foi uma mentira inventada, provavelmente, na hora em que Paulo perguntou onde nós estávamos. Digo isso porque, como disse, a iniciativa primeira de sair da sala foi minha, e depois que vi que todos estavam me acompanhando, a iniciativa de ficar também foi minha. Então quer dizer que eles não pensaram em sair pra me deixar sozinho com ela em nenhum momento. Ficamos dançando Beatles lá, ela e eu, estava muito legal e confesso que realmente, por um tempo, fiquei tentado a chegar nela. Por exatamente sete minutos e cinquenta e seis segundos, que foi o tempo que precisei pra perceber que não iria pegar nada entre nós. Dançamos mais um pouco e eu disse que era melhor descermos pra ir procurar os caras. Fomos.
Lá embaixo Paulo me disse:
- Os caras falaram que estavam tentando forçar um clima entre vocês. - se referindo ao episódio já relatado e explicado.
- É, realmente, forçar um clima, porque não pega nada. - disse eu, também me referindo aos motivos já ditos.
Passou mais um tempo e nós subimos novamente. Dessa vez ficamos numa sala que tinha umas mesas, aquela primeira em que a gente entrou. Paulo, Eliana e eu ficamos conversando em pé e os outros caras ficaram sentados. Numa hora em que eu virei pra conversar com os caras na mesa Eliana jogou cerveja nas pessoas que estavam na fila lá embaixo. Paulo e ela estavam se escondendo quando eu virei novamente para eles e eles não viram se acertou alguém. Eliana estava travadinha. E só com duas cervejas... que menina fraca. Eliana saiu pra comprar cerveja e os meninos me perguntaram se rolava ou não. Eu disse que não sabia, mas achava que não. Ela voltou e eu continuei dando umas bicadas na cerveja de um e outro, até que não resisti e saí pra comprar uma pra mim. Quando voltei ela cochichava com Paulo e eu quis saber o que era. Ué, talvez fosse de mim, por que não? Mas com segundos de conversa ouvida já entendi tudo. Ela estava pedindo pro Paulo perguntar pro Maurício se ela tinha chance com ele... eu ri, pois sabia que não tinha a mínima chance. Maurício é um cara realmente esquisito nesses assuntos. O mais incrível é que Paulo estava certo, ela realmente gostava dele na época do colégio, coisa que ela nunca tinha admitido até ontem. Ele chegou nele e eu fiquei conversando com ela.
- Também, se ele não quiser, ó, tô nem aí. - disse ela balançando os ombros.
- É isso aí, a vida continua, bola pra frente. - respondi, pois tinha certeza que não iria rolar com ele. E depois daquilo, nem comigo.
Mas, sabe? Não senti muita sinceridade no "tô nem aí" dela. Me pareceu que ela se importava sim com o resultado da investida, delegada ao Paulo. Aliás, se ela não tivesse medo de tomar fora dele, se realmente não importasse pra ela, por que não foi ela falar com ele? Por que ela mandou o Paulo? É, ela se importou sim. Bom, azar, perdeu ele e jogou no lixo uma oportunidade única de ficar com o garotão aqui... brincadeirinha. Outra coisa engraçada é que, da turma, só faltava eu perder pra ele. Veja só, em casos muito antigos, eu já perdi garotas pro Paulo e pro Leandro (que é um cara que não sai com a gente já há muito tempo; virou boyzinho). Só pro Marcus que eu não perdi garota nenhuma, mas só pra dar uma compensada, ele comeu uma mina antes de mim. Mas eu coloquei isso só como uma reflexão que me passou pela cabeça agora. Continuando.
Eu disse pro Paulo que ele estava certo de novo, sobre ela gostar dele. Brinquei com ele mais uma vez com a história do Oráculo, dizendo que ele sabe de tudo e ele me deu uma resposta que me confirmou uma coisa que eu estava pensando. Ele respondeu: "É, acho que estou me convencendo disso." Depois, no correr da noite eu só fui confirmando o que estava pensando.
A noite passou. Ás três da manhã já estávamos num prego só. A saída já tinha dado o que tinha que dar. Ficamos, os caras, um pouco no salão lá de baixo e ela ficou lá em cima, pois tinha encontrado um conhecido do colegial também. Falando nisso, foi dia de reunião do pessoal da escola. Eu também encontrei um cara que estudou comigo no primeiro colegial. Mas nem conversamos muito, ele me perguntou se eu tava fazendo faculdade, de que e onde. Eu respondi que sim, sociologia e USP. Ele me cumprimentou, depois me abraçou se despedindo e saiu. Enquanto dançávamos lá embaixo, eu brinquei brinquei com o Paulo, dizendo:
- É, acho que não pega mais nada agora. Que eu devo fazer, Oráculo?
- Venha andar, como eu. - disse ele já saindo. E eu o segui.
Ficamos dançando mais um pouco e estava muito chato. Eu disse que iria sair e ele disse: "Faça o que você achar melhor". Percebe? "Faça o que você achar melhor". Que frase cretina. Parece que ele me olhou como o senhor das verdades e que se eu o fosse desobedecer, o risco era meu. Oras, ele podia ter dito "tá bom", "vai pra onde?", frases comuns, coisas que eu teria dito a ele também se ele me dissesse que iria sair. Mas não "faça o que você achar melhor"... humpt.
Saí e depois de um tempo nos sentamos na mesa e ficamos lá, parados. Cansados às três da manhã, quando os transportes coletivos só voltavam a funcionar às quatro ou cinco horas. Resolvemos que iríamos embora às quatro e quando deu três e meia eu disse pro Paulo:
- Ó, eu vou lá em cima avisar a Eliana que nós vamos embora daqui a pouco. Pois se o cara até agora não fez nada com ela, não faz mais e se for fazer, é melhor avisá-la que a gente vai embora antes de eles ficarem do que chegar no meio da festa e interromper pra falar que vamos embora.
O cara de quem eu falava era aquele que eu disse que ela encontrou, que era do colégio, mas até essas alturas, nós não sabíamos disso.
- Você quer atrapalhar de todo jeito, né? - disse Paulo, com uma cara esquisita.
Meu sangue ferveu, me deu muita, muita raiva de ouvir aquilo. Como ele podia insinuar isso? Por que eu ia querer atrapalhar se ela fosse ficar com alguém? Eu acho isso uma puta de uma criancice e se ele acha que eu iria fazer isso, me chamou de criança... O pior é que com raiva eu começo a gagejar e não consigo formar direito minhas frases, juntando com o sono e o som alto da casa... Nem sei o que a gente falou depois, sei que acabei subindo e a avisando. Eles não estavam ficando e ela já estava ciente de que iríamos embora.
O tempo arrastava naquela maldita festa... eu estava morrendo de sono e queria ir embora. Ficamos lá penando até às quatro. Eu subi pra a chamar pra ir embora e ela disse que iria ficar, que era cedo. Nos despedimos e fomos. Resolvemos que iríamos embora de ônibus, que era mais fácil e começava a funcionar mais cedo. Ficamos no ponto, no frio, por um tempão. Era ponto final de um monte de linhas, então tinha um monte de pontos onde a gente tava. Ficamos todos perto de onde o meu parava. Depois de muito tempo o ônibus que Paulo ia pegar passou. Ele deu sinal, mas ele não parou, porque ele estava no ponto errado. Rimos da situação e dele tentando falar que era uma falta de consideração do motorista e não sei o que. Que ele espera dos motoristas de ônibus? Parece que ele não pega ônibus. Todos nós falamos que eles eram assim mesmo, pois todos já tivemos experiências do tipo em que a má vontade das pessoas nos ferra (como quando eu fui tirar o CPF, grrrrr), mas ele dizia que não, que aquilo era absurdo. Passou. Veio um outro ônibus lá no fim da rua, mas estava com o destino apagado e para não correr o risco de ser o meu e ele passar direto, dei sinal, pois se não fosse o meu era só falar que não era e pronto. Não era mesmo, e, por isso, ele também passou direto, porque não era ali que ele parava. Paulo começou a rir. Nós olhamos pra ele, pois não sabíamos do que ele estava rindo.
- Olha só, agora ele quer descontar porque a gente riu dele quando o ônibus dele passou direto. Mas esse ônibus nem era o que a gente ia pegar, tonto. - disse eu, rindo.
- Ah, tá bom, tá bom. - disse ele ainda rindo.
Eu realmente não estava me importando com a risada, pois era nítido que ele só estava descontando o que aconteceu com ele numa situação completamente diferente, mas que ele forçava por fazer parecer que era igual, mas foi então que ele bateu no meu ombro. Eu odeio que me dêem tapinhas no ombro, como de consolação, mesmo de brincadeira. Meu sangue ferveu pela segunda vez com ele naquela noite e se ele fosse qualquer outra pessoa eu teria apelado feio. Em nome da amizade, eu engoli mais aquela. Fora que eu esqueci de contar quando eu falei, não sei o que sobre ter sido um dos agitadores da balada, pois fomos nós que combinamos aquilo no dia do Mundo Mix. Ele disse que não, que agora eu queria me vangloriar. Não sabia se ele estava brincando ou não, mas, de qualquer forma, só disse isso: "como se tivesse muito o que se vangloriar de ter vindo nesse lugar". O ônibus dele chegou e só pra Maurício e eu ele não servia. Como já eram cinco horas, resolvemos ir de metrô. Chegamos no Belém e não tinha ônibus nenhum. Entramos na lotação, mas quando o cobrador disse que a passagem era dois reais, saímos. Eu ficaria até às seis horas esperando aparece ônibus ali mas não pagaria aquele roubo. Além disso a lotação ainda parava mais longe da minha casa do que qualquer ônibus. Ficamos até às cinco e pouco esperando até que chegou um ônibus. Quando fomos pegá-lo, encontramos com a Eliana novamente. Coincidência incrível, né? Fomos e voltamos no mesmo ônibus que ela, mas sem combinar nada. Fui pra casa, muito cansado. Comi um pão com carne e fui dormir.
Acordei hoje às dez, tomei banho e almocei meio dia. Fiquei lendo Durkheim pra aula da semana que vem. Muito bom o texto. Fiquei lendo, entrei na rede, falei um pouco com a Lilian e, no meio da conversa, o telefone tocou. Qual a minha surpresa quando atendo? Eu não reconheci a voz de quem falava e quem falava também nem reconheceu minha voz, pois pediu pra falar comigo. Era o Leandro. Aquele cara com quem a gente não falava há muito, muito tempo, pois tinha virado boyzinho e nós não suportávamos seu narcisismo. Falei com ele um tempão. Tínhamos muitas novidades pra por em dia. Eu não achei ruim falar com ele não, é legal ouvir a voz de antigos conhecidos. Engraçado que no dia anterior, durante a festa nós falamos tão mal dele. Até enchemos o saco da Eliana tentando fazer ela lembrar quem era ele, pois ele dizia que ela era muito afim dele, e não do Maurício (o que ficou provado que não era verdade, pelo que aconteceu e pelo fato de ela nem lembrar que ele era). Aliás, ele também não lembrou quem era Eliana, por mais que eu insistisse. Ele pediu pra vir aqui conversar comigo, mas eu disse pra ele não levar a mal, mas eu estava estudando e tinha muito o que fazer ainda. Era verdade mesmo, eu estava lendo e quando ele ligou eu só tinha dado uma pausinha pra descansar entrando na internet. Disse que ele podia ligar aqui pra a gente marcar alguma coisa qualquer dia e ele disse que eu podia ligar pra ele, pra sair junto com ele e seus amigos. Até estranhei, mas aceitei. Disse pra ele que estou gostando de dance e ele também achou que eu realmente mudei. Depois fui levar minha vó em casa com meu irmão. Agora estou falando na Internet com uns amigos da faculdade, inclusive uma antiga paquera minha, que não deu certo, pra variar. Acho que é só... puxa, quebrei meu recorde em paginas, mas foram praticamente dois dias em um.
Chega, tchau!!!!


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