20 de agosto de 1999Mais uma vez eu fui pra fila da Receita Federal... Acordei um pouco mais tarde que ontem, hoje eu acordei às sete. Meu irmão me fez o favor, o enorme favor de me levar até lá e hoje, como ele foi lá só pra isso, me deixou na frente do prédio, para que eu não tivesse que subir a avenida a pé e perder mais tempo, pois, como já eram oito e pouco quando chegamos lá, a fila já estava bem maior que ontem. Fiquei lá um tempão na fila, mas hoje, como disse pro meu irmão, não queria conversar com ninguém, por isso, levei meu walk-man e meu livro do Hobbes. Assim que cheguei um homem chegou e puxou assunto comigo, aquelas coisas, sabe? "A fila já está aqui? Que horas abre?..." Como eu já disse, papo de fila. Eu até conversei uns cinco minutinhos com ele, contei minha história sobre o dia anterior, quando não deu nada certo, mas não estava mesmo afim de papo. Deu um pouco de pena, pois o senhor até que era simpático e talvez não fosse chato ficar conversando com ele, mas quando ele chegou eu já estava desenrolando o fio dos meus fones de ouvido pra ouvir música. Encerrei o assunto colocando os fones no ouvido. Liguei o rádio, ouvi Dona Encrenca por um tempo, mas não tava muito legal. Resolvi ler meu livro. Já eram quase nove horas quando eu me sentei no chão para poder ler. Li muitas páginas, até dar umas nove e meia, quando meu cérebro saturou de leitura e eu já não conseguia mais me concentrar. Liguei o walk man e fiquei ouvindo. Estavam tocando músicas legais e isso sempre levanta meu ânimo. Levantei, pois minhas pernas estavam adormecidas de ficarem cruzadas naquela posição de yoga que eu tive que ficar. Às dez horas começou a andar a fila. Veio um cara perguntando quem iria tirar o CPF, que era para fazer uma outra fila. Fomos eu e todos os outros sofredores pra lá. Fui atendido uns vinte minutos depois. Cheguei no balcão, coloquei meu Título de Eleitor e meu Rg na mesa e esperei. O atendente olhou para mim e disse:
- Você pode tirar no correio, viu?
Eu empurrei os documentos pra perto dele, abri minha pasta e disse:
- É, poderia, mas é que eu preciso desse documento e rápido. Eu estive aqui ontem e me disseram que precisava de uma declaração da Auto-Escola, então tá aqui, a declaração, o boleto de cobrança e até o livrinho que eu tenho que estudar.
Nisso eu fui colocando tudo isso em cima da mesa dele. Ele me olhou, pegou a declaração (que inclusive tinha um erro de português, mas isso é irrelevante), leu e me deu uma senha e o formulário pra preencher.
Satisfeito, me sentei num degrau que tinha lá e comecei a preencher, errei. Peguei outro formulário, errei novamente, mas deixei assim mesmo, pois não iria prejudicar em nada aquele erro. Um cara pediu minha caneta emprestado pra preencher a ficha dele, eu emprestei e depois que ele acabou eu fui pra sala de espera. Era muito estranho, pois eu estava tremendo. Não sei se era nervoso, se era medo de não dar certo novamente, sei lá, sei que eu tremia, tremia incontrolavelmente. Tentei racionalizar a situação pra acabar com aquilo, mas não consegui. Meia hora depois eu estava sendo chamado. Subi as escadas e fui para meu guiché. Ele pegou minha ficha preenchida, meu Rg e meu título eleitoral. Começou a fazer meu cadastro no computador e a me perguntar tudo o que eu já tinha escrevido, porque ele não entendia minha letra. Se fosse assim eu nem preenchia nada. Aliás, realmente nem precisa preencher nada, pois seria muito mais fácil e rápido se eu já falasse direto pra ele... burrocracia do caramba. Quando ele acabou, imprimiu minha ficha com meu CPF (finalmente) e me entregou. Eu tirei a declaração do Auto-Escola da pasta e disse:
- Você pode dar uma carimbada aqui só pra eu mostrar lá no Auto-Escola?
Mentira, era só pra ver o que aquele filho de uma égua ia falar. Ele leu e disse:
- Não precisa carimbar não, é só você mostrar esse papel que eu te dei que tá certo. Ninguém tá vindo com declaração aqui.
Meu sangue ferveu. Quer dizer que se aquele filho da puta tivesse quebrado meu galho ontem, não iriam encher meu saco coisa nenhuma. Engraçado a eficiência daquele lugar. Eles dão ordem a só uma parte do grupo, o outro nem sabe o que se passa... burrocracia!!!! Eu me controlei e disse:
- Engraçado, porque ontem eu vim aqui e me disseram que não podiam fazer sem isso aqui.
Ele só me olhou sem dizer nada e sem cara de nada, só cara de burocrata. Eu fui embora sem dizer obrigado.
De lá eu fui pro Paulo, tinha que pegar as xerox que ele tirou pra mim. Liguei pra ele pra perguntar como chegava na casa dele quando se pegava ônibus na estação Bresser. Ele me explicou.
Entrei no ônibus perguntei pro cobrador se o ônibus passava onde eu queria, ele disse que sim e eu pedi pra ele me avisar quando chegasse lá. Ele disse que avisava, eu agradeci e sentei perto dele. O ônibus saiu e no meio da viagem quase um homem perde o ponto que ia descer porque tinha pedido pro cobrador avisá-lo e ele esqueceu. Eu já fiquei esperto. Ainda bem que quando o ônibus chegou onde eu queria, o farol estava fechado. Eu levantei e perguntei pra ele se era lá o lugar que eu pedi. Eu sabia que era, mas tinha que mostrar pra ele o quanto ele foi camarada comigo, que consideração... pra apenas pegar dinheiro eu sou a favor da catraca eletrônica, pô. Como o ponto já tinha passado, ele pediu pro motorista abrir a porta pra mim e eu desci.
Fui no Paulo, nada demais a acrescentar. Ele me controu algumas novidades da faculdade, disse que quer montar um grupo de estudos e me convidou. O rádio estava ligado e estava tocando uma música dance. Eu disse que a música era legal e ele disse: "nossa, como as coisas mudam, tá vendo?", pois eu odiava esse tipo de música até a minha última viagem, já relatada. Ele pegou minhas xerox, entregou e eu não tinha dinheiro para pagar tudo o que devia, ficou de eu acertar amanhã com ele, quando nós saírmos. Depois que ele recebeu, não se sentou mais no sofá e ficou conversando comigo em pé. Eu achei estranho e perguntei:
- Você está ocupado?
- É que eu estou de saída.
- Bom, então deixa eu arrumar minhas coisas, ué. - disse eu já pegando minha pasta.
Eu só não entendi por que ele não disse logo de uma vez que estava de saída, já que nós iríamos para o mesmo lugar pegar ônibus, embora cada um de um lado da rua, cada um um sentido. Ele se aprontou e saímos.
Perto dos pontos de ônibus nós conversamos um pouco, reafirmamos que iríamos sair amanhã e ele me disse novamente que chamou umas meninas da faculdade. Eu entortei a cara, pois quero sair pra zoar, chegar em meninas e levar mulher pra esse tipo de programa é fogo. Ele disse que não, que não tem nada a ver, mas claro que tem, só ele não vê.
- Cara, amanhã eu tenho que ficar com alguém. - eu disse.
Ele me olhou com uma cara de descaso e disse:
- Você é igual ao Rodrigo (um amigo dele que eu não conheço). Fica com as minas de vez em quando e fica se cobrando.
Eu pensei: "será que ele tem consciência de que já faz mais de um ano que eu não fico com ninguém? Quando tempo será que tem o "de vez em quando" dele? Será que ele não percebe que não é uma questão de cobrança, de se fazer de vítima, é uma realidade que tá aí pra quem quiser ver. Eu não disse nada sobre isso, mas continuei.
- Ah, é que lá é um lugar de louco, mulher entra na faixa, tem tudo pra dar certo. Tem que dar.
Ele me olhou com uma cara que eu não entendi e concordou. Resolvemos ir aos nossos pontos, pois os ônibus poderiam passar e a gente perder. Despedimo-nos e fomos. O ponto dele era quase em frente do meu, mas não dava pra ver se ele estava me vendo. Chegou uma menina que me parecia bonita, no meu ponto e eu quis fazer sinal pra ele, mas não quis correr o risco de pagar o mico caso ele não estivesse me vendo. Depois meu ônibus chegou e eu cheguei mais perto da menina, que não era tão bonita assim, ainda bem que eu não fiz sinal algum. Fui pra casa. Fiz musculação. Meu irmão não pôde passar a máquina no meu cabelo hoje porque ele tinha que se arrumar para ir num casamento com a namorada. Amanhã ele me faz esse favor. Aliás, sei não esses dois, viu? Acho que vão acabar casando. Meu irmão já tem vinte e cinco anos, não é mais época de ficar com namoricos, mesmo porque a namorada dele desmanchou de um noivado, prestes a casar, pra ficar com ele. Já pensou? Eu indo no casamento do meu irmão? Que marco histórico... puxa. O duro é que ela é legal, mas é muito pegajosa. Liga pra cá várias vezes por dia e tenta puxar assunto comigo. Do jeito que eu gosto de falar no telefone, principalmente com pessoas com as quais eu não tenho nada em comum. Eu corto logo e passo pro meu irmão, mas sem ser grosseiro.
No mais, ele saiu, eu fui tomar banho e estou aqui agora escrevendo meu diário. Não creio que nada mais de interessante aconteça, embora seja meio cedo ainda. Mas arrisco que nada mais que valha a pena escrever vai acontecer e encerro por aqui.
Outro dia eu volto com mais novidades. FUI!