GUIA DE ESTUDO - Filosofia Antiga

     © Álvaro dos Penedos


NOTA DE ABERTURA

     Este Guia de Estudo não exclui a importância do Guia de Estudante, que tem sido editado ao longo de vários anos. Neste, são apresentadas as linhas do Programa e a Bibliografia sumária da disciplina. O Guia de Estudo para a Filosofia Antiga apresenta-se com dois objectivos bem definidos:

     Segundo pensamos, este Guia permite o estudo da Filosofia Antiga através de dois níveis: aquele que é exigido na disciplina e um outro no qual se caminha já para os inícios da investigação.

Porto, Agosto de 1998


PRIMEIRA PARTE

Uma disciplina no ensino universitário impõe ao professor determinados limites dos quais citamos os seguintes:

     É útil, assim o pensamos, saber primeiramente qual o lugar da disciplina no curriculum e também quais as suas características.
     A Filosofia Antiga, que é uma cadeira anual, está situada no 1º ano da licenciatura em Filosofia. Tal facto implica determinados cuidados pois o estudante ao entrar na Faculdade depara com ela, logo no início do curso. Entre os cuidados que envolvem esta disciplina citemos desde já a necessidade de incluir no programa, relativamente, poucos temas.
     É preferível estudar-se poucos temas mas com um certo aprofundamento o que permite ao aluno, simultâneamente atingir dois objectivos:

    Para uma melhor dilucidação do que temos vindo a dizer apontemos agora as balizas cronológicas da Filosofia Antiga. Essas balizas põem em destaque um longo período que se estende desde Tales de Mileto (secs.VII-VI a.C.) até 529 D.C. em cuja data, um édito do imperador bizantino Justiniano, fechou as Escolas de Atenas. Um período tão longo não permite, não obstante todo o interesse que esses séculos nos oferecem, um estudo minimamente aprofundado. Pensamos que é possível e desejável, sem cair em vulgarizações caricatas, estudar a Filosofia Antiga na sua época grega. Assim o que propomos como programa, é a abordagem com uma certa profundidade das origens da Filosofia até Platão (inclusivé), seguida de um estudo em extensão de Aristóteles até ao fim do chamado período helenístico. Pelo que dissemos no prágrafo anterior, ficam de fora temas que são relevantes para o pensamento ocidental: a época greco-romana que permite estudar a trajectória da Filosofia Grega em solo romano e com as características que lhe são dadas pelos respectivos pensadores e a Patrística, produto da tradição judaico-cristã que, ora se opõe à Filosofia Greco-romana, ora se cruza com ela em sínteses que procuram conjugar as duas tradições que são os pilares da cultura ocidental. O que dissemos até este momento põe em destaque, assim o esperamos, as dificuldades que esta disciplina nos apresenta e a opção sempre delicada e sempre discutível, de carácter pedagógico-científico que deve ser tomada. Procurámos, pelo menos ser claros quanto aos limites que esta disciplina nos impõe e arrostar com a responsabilidade da opção tomada. O facto de a Filosofia Antiga constituir uma disciplina do 1º ano apresenta determinadas dificuldades aquele que tem a sua docência. Dificuldades que vão implicar maiores cuidados pedagógicos do que noutras disciplinas mais avançadas no curriculum. O docente que leciona uma cadeira do primeiro ano terá sempre de ter presente que a sua acção é duplamente importante. Por um lado, ele tem que reger a cadeira o mais correctamente possível e por outro, recordar que uma disciplina do primeiro ano, bem orientada, pode proporcionar ao aluno um maior entusiasmo para os anos lectivos que se vão seguir. Assim, o docente tem de procurar um equilíbio entre a clareza e o rigor científico. Aliás estas duas atitudes não são incompatíveis, pelo contrário, devem-se encontrar sempre interligadas. O que acontece, infelizmente, com uma certa frequência é encarar-se a clareza como sinal de vulgarização do conhecimento. De facto, esta ideia é incorrecta. Se o docente não deve em nome da clareza descer à vulgarização que desvirtua também não deve em nome do rigor científico descer à linguagem hermética. O que se torna necessário é através de uma linguagem clara e correcta apresentar aos alunos os conceitos fundamentais de uma forma bem estruturada. Voltamos a insistir no que dissemos no parágrafo anterior. Muitos temas; muitas noções que são abordadas nas disciplinas do primeiro ano, entre as quais se conta a Filosofia Antiga, surgem ao aluno ou pela primeira vez ou então numa perspectiva bastante diferente daquela que tinham encontrado no ensino secundário. Acresce ainda o facto de várias noções abordadas poderem vir a reaparecer em disciplinas dos anos posteriores. O que dissemos até este momento, aponta no sentido de a Filosofia Antiga possuir o carácter de uma propedêutica aos estudos filosóficos. E como veremos, esta propedêutica estende-se por várias linhas de força, algumas das quais serão destacadas neste texto. O que torna a Filosofia Antiga uma disciplina especifica é ela, por um lado, ser História da Filosofia, e por outro, essa História abarcar a Filosofia desde as suas origens até à sua existência no mundo cristão. A Filosofia Antiga é uma cadeira específica essencialmente pelas razões que já apontámos. Não o é, portanto, por ser mais importante do que esta ou aquela disciplina. Não entramos no jogo fútil e inútil que é procurar ou defender uma posição de supremacia desta disciplina em relação a outras. Quando dizemos que a Filosofia Antiga é uma disciplina específica, queremos significar sobretudo (ampliando o que já dissemos) que ela é uma História da Filosofia que estuda as manifestações filosóficas mais antigas, manifestações essas expressas numa língua que hoje levanta problemas delicados de tradução. É um passado distante que temos de reconstruir muitas vezes com base em material bastante escasso. A Filosofia Antiga como disciplina de História da Filosofia levanta outros problemas. Se as Histórias da Filosofia estão em minoria no curriculum de estudos, a Filosofia Antiga é aquela que primeiramente se abre ao estudante, o que acarreta maiores responsabilidades para esta disciplina, como já dissemos anteriormente. No prosseguimento das nossas observações parece-nos agora ser da máxima importância abordarmos a noção de História da Filosofia. Embora possa não ser assumida por outros docentes da História da Filosofia de épocas posteriores é todavia importante explicitarmos o que pretendemos nesta matéria. E neste campo, também se fornecem aos alunos as primeiras noções. O ponto que focamos é para nós importante. Importante porque distinguimos claramente a História Antiga dos temas filosóficos antigos, quase sempre sem qualquer perspectiva histórica. Para nós a História da Filosofia não se limita a estudar temas desgarrados ou então a estudar a doutrina de filósofos abordados como se nunca tivessem pertencido a qualquer momento histórico. A História da Filosofia é uma área complexa porque pretende estudar a produção filosófica enquadrada no ambiente histórico em que nasceu e viveu. Assim é necessário conhecer-se as várias componentes do momento histórico para se compreender uma determinada filosofia. Não são apenas a História política, económica e social mas também a cultural que têm de ser levadas em linha de conta para a compreensão de um pensador e das ideias que ele expõe. Existe quanto a nós uma ligação entre uma filosofia e o contexto histórico no qual ela surgiu. Mas neste ponto, convém determo-nos um pouco para aclarar uma perspectiva que não é de forma alguma fácil. O que nós defendemos não é o pensamento filosófico como uma mera consequência do meio ambiente; a Filosofia não é produzida, aliás como qualquer outra manifestação cultural, de uma forma mecânica pela sociedadade. Por outras palavras, as ideias não são meros reflexos da sociedade. A Filosofia como outras manifestações culturais, se tem uma ligação com o meio no qual surge, o que lhe confere aliás a sua historicidade, não é, todavia, uma mera segregação na medida em que o filósofo pode gozar de uma autonomia perante as linhas de força da sociedade em que está inserido. Se a Filosofia fosse um mero reflexo ou segregação da sociedade, não se compreenderia que aqui ou além surgissem filosofias que são contrárias às concepções vigentes e que podem, aliás, conduzir à destruição, pelo menos em parte, dessas mesmas concepções. O que acabámos de dizer, também não pode ser compreendido como repúdio pelo interesse das condições históricas contemporâneas de um pensador, como aliás assinalámos um pouco mais acima. Uma Filosofia nasce motivada por problemas e correntes de ideais anteriores e/ou contemporâneas do pensador. A compreensão dessa esfera cultural auxilia, por sua vez, a compreensão dessa mesma filosofia. Situações políticas, económicas e sociais podem por seu turno levar-nos a uma compreensão mais correcta da filosofia que pretendemos estudar. Há na tarefa do historiador da Filosofia a preocupação em recriar da forma mais correcta possível o momento em que uma filosofia nasceu e se desenvolveu. O que é que nós queremos dizer com tudo isto? Uma filosofia é compreensível nas seguintes condições:

     A grande dificuldade para aquele que faz História da Filosofia consiste na recriação do meio e na leitura o mais correcta possível do pensamento de um autor. Esta dificuldade aumenta quanto mais longe estão no tempo os filósofos que pretendemos estudar. No caso da Grécia Antiga encontramos em toda a sua plenitude as dificuldades a que fizemos referência. Os conceitos que são manuseados pelos filósofos gregos têm de ser compreendidos na sua genuinidade o que mostrará a grande diferença entre aqueles apresentados pelos gregos e os que hoje são utilizados pelos pensadores contemporâneos. O conhecimento das noções utilizadas pelos antigos filósofos pode-nos permitir uma aproximação com um certo rigor do pensamento desses homens. Os problemas e as noções poderão ser melhor compreendidos quando por sua vez nós conhecemos as correntes de ideias e o momento histórico que os rodearam. O que está à sua volta auxilia-nos muitas vezes de uma forma directa, ou por analogia, a compreender a estrutura de uma filosofia. O conhecimento da própria língua pode ser também um auxiliar relevante. Mas aqui os cuidados têm de ser muitos. O filósofo, sobretudo o grego, vai buscar à linguagem vulgar termos cujo significado é alterado. A História da Filosofia Antiga é difícil porque estuda um período em que existiu na esmagadora maioria dos casos, um grande número de pensadores dos quais, chegaram até nós escassos fragmentos ou mesmos nem sequer uma única linha. É fácil de compreender que uma reconstituição das doutrinas com base em poucos fragmentos e em referências de outros autores (por vezes também pouco numerosas) se torna uma tarefa simultaneamente difícil e delicada. Não é a nossa intenção, nem tem cabimento no âmbito desta introdução, dissertar longamente sobre a noção de História da Filosofia. Gostaríamos, todavia, de voltar a um ponto que já abordámos. Consideramos fundamental, como dissemos por várias vezes, que se faça a reconstituição possível do período histórico e do pensamento de um filósofo, segundo, entre outros, as coordenadas culturais e mentais desse mesmo período. Sendo assim é legítimo perguntar-se, e um estudante fá-lo-ia naturalmente. Se a história da Filosofia assim concebida não encerraria por completo um pensamento em compartimento estanque. Se assim fosse, o interesse da História da Filosofia limitava-se apenas ao conhecimento de um período que nada teria a ver com os subsequentes. A resposta a esta questão não pode ser dada com facilidade. Embora fazendo um esforço para sermos sintéticos, teremos que nos debruçar um pouco sobre a questão posta. Na nossa perspectiva, e gostaríamos de acentuar este ponto, uma filosofia adquire todo o seu significado, quando é lida à luz das referências intelectuais e mentais dessa mesma época. Mas ainda não respondemos, todavia, à questão que levantámos há pouco. Tentemos agora abordá-la da melhor maneira. Não obstante uma filosofia ter surgido com um significado que é próprio para a época em que se desenvolveu, ela pode passar por outras épocas, fazendo mesmo um trajecto tão longo como o do seu aparecimento até aos nossos dias. Os intelectuais fazem a passagem das doutrinas mais antigas para os seus dias através da readaptação dessas mesmas doutrinas à época que é sua contemporânea. Estas leituras não são, em boa parte dos casos, leituras históricas. São leituras que têm agora com horizonte os referenciais de outras épocas. Assim, as filosofias anteriores constituem, pelo menos em parte, o material que vai ser manuseado e que mantém simultaneamente o antigo e o novo mas cuja leitura é sempre uma leitura contemporânea. O trajecto das noções filosóficas gregas ao longo dos séculos, por exemplo, é a história das readaptações sucessivas que permitem desta forma essa viagem na qual vão ser tocadas com as perspectivas de outras épocas. Nós queremos chegar ao seguinte ponto: o esforço de reconstituição o mais rigorosamente possível das antigas filosofias não as vai fechar na sua época; podemos descortinar, e aqui outra História pode ser escrita, a sua passagem para outros momentos nos quais os antigos referenciais perdem a sua razão de ser. A História das ideias é em boa parte, quanto a nós, o itinerário das noções no seu trajecto ao longo dos tempos. A Filosofia Antiga é uma disciplina específica, como já dissemos. Específica porque os filósofos a estudar utilizaram uma língua que hoje é difícil para nós e a reconstituição das várias doutrinas por parte do historiador é muito difícil. A Filosofia Antiga é assim uma disciplina difícil para o próprio docente. A ele se exige um grande esforço para expor aos seus alunos uma matéria tão delicada, de uma forma rigorosa mas que não constitua uma barreira, quase intransponível, aqueles que a têm de estudar. Pensamos que não é sinal de parcialidade o afirmamos que a Filosofia Antiga é uma cadeira importante para o estudante do Curso de Filosofia. Em primeiro lugar, o aluno vai habituar-se a utilizar as técnicas de investigação histórica e a empregar o rigor com que deve analisar o material disponível. Sob o ponto de vista intelectual constitui, assim, um esplêndido exercício. Tratando-se do período histórico em que os textos filosóficos se encontraram mais fragmentados, mais fácil será quando o aluno abordar a História da Filosofia de períodos posteriores. Em segundo, o contacto com a filosofia grega permite atingir as fontes do pensamento ocidental. Sem negar a importância de outros pensamentos, como por exemplo o hindú e o chinês, é quanto a nós claro que o ponto de partida para o movimento de ideais do Ocidente se encontra na Antiga Grécia. O estudo da Filosofia Grega surge como um elemento importante para a compreensão de uma civilização. Todavia, a nossa atitude não é etnocêntrica; o que dizemos não implica um juízo de valor sobre a civilização ocidental em detrimento de outras civilizações. O que queremos dizer, e acreditamos que este é um ponto importante para os nossos alunos, é que o estudo de um pensamento que se iniciou hà 25 séculos, é relevante para a compreensão da História das ideias do Ocidente, para a compreensão, em parte, daquilo que somos. Em terceiro lugar, a Filosofia Antiga dá ensejo a que se exercite o rigor histórico, a compreensão das coisas, dos acontecimentos e das ideias. Assim surge a atitude, que vê como cada ideia, aparece com significado próprio e inconfundível. Para terminarmos esta introdução gostaríamos de salientar os seguintes pontos:

SEGUNDA PARTE

I - As origens da Filosofia

II - Os pré-socráticos

III - Os sofistas, Sócrates e os socráticos menores

IV - Platão

V - Aristóteles

TERCEIRA PARTE - A Bibliografia

     A bibliografia que vai ser apresentada, para uma maior comodidade, está dividida em secções. Entre estas, duas são respeitantes à História da Grécia e à História da Cultura Grega, o que nos vai merecer algumas breves considerações. Embora aquele que aborda a Filosofia Antiga deva seguir o caminho que puder ou desejar daremos a nossa opinião quanto à ordem de leituras. Tratando-se de uma história da filosofia pensamos que será útil conhecer o quadro histórico do período que desejamos estudar. Em seguida, abordar o quadro cultural correspondente. Finalmente, deverá passar-se para os textos dos filósofos e estudos correspondentes. A bibliografia agora apresentada está longe de ser exaustiva, todavia, apresenta uma quantidade de obras que permite o aprofundamento razoável das matérias. A bibliografia foi constituída levando em linha de conta os seguintes critérios:





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