PLATÃO

  • Apontamentos I I I I

     © Álvaro dos Penedos


 Quarta Parte

 

1. Preliminares

1.1. A vida

     Platão nasce em Atenas na data provável de 428/7 e pertencia á velha aristocracias da Cidade.
     Sabemos que em 404 exerce funções políticas após a queda de Atenas, na Guerra do Peloponeso. Abandona essas funções, pouco tempo depois, desiludido com a actuação dos chamados trinta tiranos. Até ao final da sua vida nunca mais exerceu qualquer cargo político.
     Em 399 sofre outro desgosto: Sócrates é condenado á morte. O respeito e o carinho de Platão por Sócrates perdurará ao longo da sua existência. Após a morte do seu mestre, Platão (acompanhado por outros Socráticos) faz uma estadia em Mégara, junto de outro socrático, Euclides. Persistem dúvidas quanto a esta estadia. Receio de represálias em Atenas ou procura de um local para reflexão; curta ou longa duração dessa estadia.
     Cerca de 388 Platão inicia uma viagem que o leva ao Egipto, a Cirene (colónia grega do N. de África), a Tarento no S. de Itália e a Siracusa, na Sicília.
     Quanto a esta viagem (há dúvidas se é uma ou mais) há alguns pontos a mencionar:

  • é indicativa da curiosidade do filósofo;
  • em Tarento encontra um pitagórico que é um governante, Arquitas, com quem vai manter uma longa amizade;
  • a visita a Siracusa é feita a convite do tirano da Cidade;
  • em Siracusa fica com a esperança de influenciar a política da Cidade devido á relação que estabelece com Dion.
  •      Regressa a Atenas tendo sofrido alguns dissabores não só em Siracusa mas também na viagem de retorno.
         Platão já deve estar em Atenas no ano de 387 ou 386. E é por volta de 386 que ele funda a sua escola - a Academia. Durante aproximadamente quarenta anos (ou seja, até á sua morte) Platão terá uma actividade intensa de chefe de escola, docente e escritor.
         O filósofo fez ainda mais duas viagens a Siracusa, em 366 e 361. O seu objectivo eram as reformas políticas a realizar em Siracusa mas os seus esforços foram em vão.
         Em 354 Dion (que tinha iniciado operações militares em 357) é assassinado e com a sua morte desfez-se o sonho siciliano de Platão.
         Em 348/7, em Atenas, faleceu Platão com a idade aproximada de 81 anos.

    1.2. A formação filosófica de Platão

         Aristóteles numa passagem da Metafísica (A,G,987 ab) refere-se á formação filosófica de Platão.
         Dessa passagem podemos extrair os seguintes pontos:

          Quanto a Crátilo pouco sabemos. É um heracliteano que radicalizou a filosofia do Efésio. Só podemos conjecturar que Platão tivesse sido discípulo de Crátilo quando teria 18 ou 19 anos.
         O encontro com Sócrates deu-se quando Platão andaria á volta dos 20 anos. Permaneceu no circulo socrático durante 8 anos, ou seja, até á morte de Sócrates em 399.
         De Crátilo, Platão devia ter recebido a noção de fluir que ele vai aplicar ao mundo sensível. É por isso que o filósofo vai considerar que se o sensível não apresenta algo de estável então não há ciência do sensível, ou por outras palavras, a ciência não é possível.
         Sócrates abriu o caminho a Platão: há os universais mas, segundo Aristóteles, Platão vai separá-los do sensível transformando-os em objectos inteligíveis.
         A dialéctica e a preocupação pelo tema da virtude são contribuições importantes que o filósofo devia ter recebido de Sócrates.

      

     

    1.3. A obra

         A obra de Platão chegou intacta até aos nossos dias. Os diálogos que compõem este espólio são os seguintes:

         Deverá anotar-se que dois diálogos constantes desta lista levantam, ainda hoje, dúvidas quanto á sua autenticidade: o Hipias Menor e o Alcibiades.
         Com a autoria de Platão temos também uma colecção de cartas, sendo a chamada carta VII aquela que é considerada autêntica por vários historiadores; mas seja como for a carta VII pode ser considerada como um documento importante para o estudo da vida e da acção do filósofo.
         A obra de Platão não está datada e é evidente que tal facto levanta dificuldades ao historiador.
         Se uma cronologia absoluta é altamente conjectural, já uma cronologia relativa, de uma forma geral, tem sido considerada como uma tarefa com resultados razoáveis, embora esta também não esteja isenta de perigos.
         A partir do século XIX empreenderam-se os estudos a estabelecer a cronologia dos diálogos. O método utilizado foi o estilístico que parte da hipótese de que o estilo de um escritor se modifica ao longo do tempo.
         Foi assim possível indicar grandes períodos nos quais se inseriam os diálogos (vamos utilizar os chamados períodos da juventude, da maturidade e da velhice). Mas convirá dizer que nem todos os problemas ficaram resolvidos e que ainda hoje subsistem fortes dúvidas quanto ao lugar que deve ser ocupado por alguns diálogos.
         Embora não desfazendo todas as dúvidas o método estilístico cruzando-se com outros critérios pode trazer resultados positivos.
         Façamos, por fim, uma referência ao ensino oral de Platão. Há testemunhas de que houve um ensino oral, doutrina não escrita, por parte do fundador da Academia.
         Através desses testemunhos procurou-se reconstituir esse mesmo ensino. Se há ou não diferenças fundamentais entre os diálogos e a doutrina não escrita, qual o verdadeiro Platão é um problema, em aberto, nos nossos dias.

    1.4. O diálogo

         Cassandra, princesa de Tróia, tinha o dom de adivinhar mas as suas palavras não eram acompanhadas pela persuasão. A tragédia de Cassandra consiste em dizer a verdade mas esta não é patente aos seus ouvintes.
         Não sendo o filósofo grego, por norma, um adivinho, tem todavia a preocupação de que o seu discurso seja convincente. Assim, a forma de que se reveste uma doutrina torna-se fundamental.
         Antes de Platão conhecemos a prosa dos milésios (praticamente de modo indirecto), o estilo oracular de Heraclito, a poesia solene de Parménides, entre outros.
         Assim, a questão de como se apresenta o pensamento de um filósofo não é, de forma alguma, uma questão menor.
         É um problema de persuasão que se coloca aos filósofos gregos.
         Podemos dizer que Platão tem um extremo cuidado com a forma literária. É um cultor do diálogo, do qual não foi propriamente o fundador nem o único a escrevê-lo. Mas também podemos dizer que foi ele quem levou mais longe este género, a que não será alheio o brilhantismo estilístico que ele possuía.
         Apresentemos, agora, algumas características do diálogo platónico:

      

         Uma das questões que se levantam quanto ao diálogo platónico é o das suas origens ou razões que levaram Platão a utilizar este género. Segundo pensamos podemos avançar três razões:

         O diálogo platónico levanta um série de problemas delicados das quais apenas alguns tivemos a preocupação de levantar.

         O facto de ter chegado até aos nossos dias a obra completa de Platão poderá levar a pensar-se que muitas das dificuldades que encontramos no estudo da filosofia grega estarão ausentes na abordagem á obra de Platão.
         É certo que com o fundador da Academia podemos ter a visão global da filosofia de um autor o que é, sem dúvida, francamente positivo.
         Vejamos, agora, algumas dificuldades que se deparam no estudo da filosofia platónica, sendo algumas delas comuns ao pensamento grego:

         A língua grega apresenta problemas difíceis de ultrapassar. A tradução de vários termos empregados por Platão não é, ainda hoje, pacifica. Não há uma estrita correspondência entre palavras gregas e palavras nas línguas actuais. Há termos gregos que têm uma coloração que, por exemplo, não existe no português.
         Pensamos que, pelo menos em parte, se poderá tornear esta dificuldade. O método consiste em analisar os termos em causa dando-lhes a significação, por vezes complexa, que pensamos que contêm no contexto platónico. Tentemos ser mais claros: não se deve, em caso de dificuldade, traduzir uma palavra grega por uma única palavra portuguesa.
         Se, porém, se optar por uma tradução termo a termo deverá ser explicado no texto ou em nota, o seu significado (é o que faremos ao longo desta exposição);

         Há a tendência para vermos uma época distinta da actual através dos nossos quadros culturais e mentais. Não é fácil compreender uma época como os séculos V e IV a. C. na Grécia. É preciso fazer uma reconstrução da cultura e da mentalidade de então, o que se torna difícil devido á escassez de informação que possuímos.
         Quanto mais ampla e profunda for a reconstituição que empreendermos melhor estaremos em condições de compreender um filósofo, neste caso concreto, Platão;

         Uma obra de Platão, e mesmo uma de Aristóteles, não é tão linear na sua estrutura como a generalidade dos livros de filosofia publicados nos nossos dias.
         Num diálogo de Platão as digressões são frequentes e vários temas entrecruzam-se e estes aspectos dificultam a compreensão dos objectivos da obra.
         Acrescentemos ao que já foi dito o facto de a forma dialogada não facilitar o nosso acesso á filosofia platónica.
         A obra de Platão compreende dezenas de personagens: algumas delas têm um papel importante a desempenhar na economia do diálogo.
         O conhecimento que possuímos das dramatis personae não é amplo. Há mesmo personagens sobre as quais praticamente nada sabemos assim como há outras, pensa-se, que sejam ficções elaboradas pelo próprio Platão. Ora, compreender um diálogo passa igualmente pelo conhecimento das personagens e o filósofo, com frequência, descreve-as não só sob o ponto de vista intelectual como também psicológico.
         O esforço a realizar, moroso e difícil, é reunir o máximo de informação, através dos poucos testemunhos existentes para que se possa entender o melhor possível os diálogos platónicos.
         O facto de possuirmos a obra completa de Platão e o atentarmos no brilhantismo literário do autor não nos deve levar a pensar que muitas dificuldades estão ultrapassadas.
         Acrescentaremos, ainda, que iremos aplicar o método genético na abordagem ao pensamento de Platão.

    Nota adicional 1

    O método genético

         Como disse, anteriormente, aplicarei o método genético na abordagem ao pensamento de Platão.
         O filósofo escreveu a sua obra ao longo de 50 anos e, hoje, temos a totalidade dos seus escritos.
         O método genético pode ser aplicado, não obstante, a dificuldade em estabelecer a cronologia dos diálogos. O método genético consiste (em poucas linhas) no estudo das obras para detectar a evolução de um pensamento ao longo das suas obras.
         Não obstante, as criticas que têm sido dirigidas a este método, ele apresenta, segundo penso, algumas vantagens.


         Por último, direi que o método genético dá-nos a conhecer a dinâmica de um pensamento, aspecto que considero, francamente, positivo, pois ele pode ser útil para compreendermos o nosso próprio trabalho. 

     

     Nota adicional 2

    O mito em Platão

         O leitor dos diálogos de Platão depara com numerosos mitos. Não é fácil determinar o sentido destes mitos e, portanto, os historiadores têm-se debruçado sobre eles em busca do seu sentido.
         Direi, como observação preliminar, que os mitos de Platão não se confundem com os mitos que pertencem ao mais antigo corpo de saber grego.
         Os mitos que se encontram nos diálogos são uma criação do próprio Platão.
         O que disse no parágrafo anterior não significa que o filósofo não se tenha inspirado e utilizado a matéria dos antigos mitos. Aliás é difícil descortinar o que pertence à mitologia grega e a que pertence a Platão.
         Dizer que o mito é um ornamento literário, que serve para aligeirar o texto, é opinião da qual não partilho (vários mitos de Platão encontram-se no final dos diálogos).
         Segundo penso, o mito platónico apresenta-se como uma narrativa verosímil que não pode ser demostrada. Tentarei ser mais claro.
         Platão reconhece que há uma fronteira entre o racional e o irracional (emprego o termo sem sentido pejorativo), isto é, há um campo no qual a razão não pode penetrar.
         Os limites da razão já estão presentes na chamada filosofia pré-socrática mas parece-me que Platão vai mais longe do que os seus antecessores.
         Ora, se existe um campo refractário ao racional, à cerca dele, só podem existir narrativas prováveis ou verosímeis.
         Na minha opinião o filósofo tem a consciência dos limites da razão e da necessidade de fazer incursões no irracional com base no verosímil.

     

     

    OS DIÁLOGOS DA JUVENTUDE

    2.1. O Tema da Ciência

         Uma das questões filosóficas mais importantes sobre a qual Platão se debruçou até ao final da sua actividade foi a da Ciência.
         O termo episteme que vamos traduzir por Ciência tem uma amplitude que a palavra Ciência não possui: é mais a sabedoria que por sua vez engloba o que entendemos hoje por Ciência.
         Para Platão a Ciência, para ser possível tem de possuir um objecto universal, portanto que seja estável. Ora, para o filósofo o sensível está num fluir constante, em mutação e por isso não pode fornecer um objecto universal. Se assim é para haver Ciência então o objecto universal tem de estar noutro plano.
         Vai surgir assim o que se costuma designar por teoria das ideias. O termo ideia é a tradução de eidos e idea. Em grego eidos significa o contorno de um objecto, algo que se pode visualizar. Eidos e idea são termos praticamente equivalentes (alguns historiadores não concordam com a equivalência) e podem ser traduzidos, por ideia ou forma; empregaremos o termo ideia na nossa tradução.
         A teoria das ideias levanta três problemas:

    Como veremos são três problemas que vão preocupar Platão até ao final da sua vida.

    2.2. A pergunta, a ideia, a participação

    Embora a Apologia de Sócrates, o Criton e o Êutifron sejam diálogos apologéticos, o último pertence já a um grupo mais amplo.
         A Apologia e o Criton são diálogos positivos, passe a expressão, descrevem aspectos do pensamento e do comportamento de Sócrates.
         O Êutifron tem uma estrutura e objectivo idênticos, por exemplo, ao Laques, Lisis e Cármides. Este grande grupo dos diálogos da Juventude são aporéticos, isto é, terminam numa dificuldade, são inconclusivos.
         A característica que acabámos de anotar por um lado não é a única a assinalar e por outro tem de ser esclarecida através de outras características.
         O grupo de diálogos que agora nos interessa coloca uma pergunta sobre um determinado tema: o que é a piedade? (Êutifron), o que é a coragem? (Laques), o que é a prudência? (Cármides), etc..
         As perguntas que indicámos como exemplos têm algo de estranho. Em primeiro lugar, Sócrates coloca a pergunta àquele que, em principio, saberá responder. Em segundo os temas não parecem ser difíceis de dilucidar.
         Como diz Gadamer o que aqui é questionado é algo de público. São, por exemplo, as virtudes que um homem deve possuir e por isso ele deve saber em que consistem.
         Sócrates pede ao seu interlocutor uma definição, por exemplo, da piedade ou da coragem. O que vai acontecer é o surgir de uma série de tentativas que vão sendo refutadas por Sócrates.
         O que é que tudo isto significa? A resposta pode desenrolar-se por vários aspectos:

    O último ponto exige uma explanação.
         Nos primeiros diálogos começa a detectar-se, como já dissemos, a presença da ideia. Em primeiro lugar a ideia surge como um ponto de referência, aquilo que fundamenta, por exemplo, a piedade. Isto quer dizer que quem conhece a ideia de piedade sabe porque é que este ou aquele acto é piedoso ou não.
         Em segundo lugar a ideia coloca por sua vez o problema da participação. Esta nos primeiros diálogos consiste na presença da ideia nas próprias coisas; a ideia atravessa as coisas.
         O que acabámos de dizer significa que a chamada teoria das ideias surge já nos inícios da actividade de Platão. Neste campo surgem os dois problemas extremamente delicados que consistem na existência das ideias e na participação entre estas e as coisas sensíveis.

      

     

    A TEORIA DAS IDEIAS

    3.1. A Teoria da Reminiscência

         O diálogo Ménon é importante sob vários aspectos mas vai-nos interessar porque é nele que pela primeira vez é apresentada a teoria da reminiscência.
         Vejamos em que circunstâncias vai surgir no diálogo esta teoria.
         Ménon quer saber como se adquire a excelência (arete) se é pelo ensino ou se ela mesma é inata. O seu interlocutor, Sócrates, vai dizer que antes desta questão se deve colocar outra: o que é a excelência. Ménon vai dar três definições que sucessivamente vão ser refutadas. E assim ele coloca o seguinte problema a Sócrates: como podemos procurar alguma coisa que desconhecemos e se a achamos como poderemos saber que ela é o que procurámos?
         Ora, neste momento é que vai ser apresentada a teoria da reminiscência apresentando Sócrates um pequeno mito.
         As almas têm uma existência prévia à sua entrada nos corpos humanos. Durante esse período as almas estão em contacto com a realidade, isto é, com a verdade das coisas.
         Quando habita um corpo a alma esquece-se do que viu e só com esforço se vai recordar da realidade.
         Façamos, desde já, algumas observações sobre este mito:

         A teoria da reminiscência não vai ficar aqui. Neste momento estamos no plano mítico.
         Sócrates vai apresentar, um problema de geometria, a um escravo de Ménon que nunca tinha estudado tal matéria. Através das perguntas que Sócrates vai fazendo, o escravo encontra a solução do problema.
         Tal, merece-nos duas observações preliminares:

         A teoria da reminiscência é importante no contexto da filosofia platónica. Prolonga o tema da alma, onde a inspiração pitagórica é patente: no Ménon a pré-existência e a contemplação da realidade pela alma são pontos a reter.
         Quanto à ciência o Ménon constitui um marco importante. Platão considerava que a ciência só é possível se o seu objecto é universal (o que implica estabilidade). No Ménon o real surge num plano diferente do sensível no qual existe o fluir. Mas a reminiscência aprofunda mais a questão: mostra que a investigação é possível conduzindo a novas descobertas.
         Igualmente, a reminiscência mostra que a base do conhecimento não é empírica mas sim inata.

      

    3.2. As Alegorias na "República"

         No que diz respeito à teoria das ideias a República é importante pois contém três alegorias que dizem respeito a essa teoria: a do Sol e a da linha dividida no Livro VI e a da caverna no Livro VII.
         Sublinhemos que o objectivo ou objectivos da República não consiste numa digressão do mundo das ideias: as três alegorias estão integradas na reflexão platónica sobre o ensino de nível superior (a que faremos referência noutro lugar).
         A alegoria do Sol é relativamente breve (Rep., VI, 507A – 509D). Assim como o Sol ilumina as coisas permitindo que a nossa vista as descortine claramente a Ideia do Bem tem como função o iluminar os inteligíveis o que permite que a alma os atinga.
         A Ideia do Bem é peculiar e obriga-nos a fazer algumas considerações:

    A alegoria da linha dividida é complexa e para a compreendermos o melhor possível vamos apresentar o seu esquema.

     

     

    Façamos, agora, algumas observações tendentes à compreensão do esquema:

         Analisando um pouco mais a fundo o esquema anotemos, desde já, que a matemática é subalterna em relação ás Ideias. É um lugar comum dizer que a matemática foi importante para Platão. Sabemos do seu interesse, das referências que faz nos diálogos e das investigações levadas a cabo na Academia.
         Pode-se dizer que a matemática foi um modelo utilizado por Platão na sua obra mas será interessante notar-se que nunca destronou o modelo médico que foi, também, tanto do agrado do filósofo. Seja, como for é claro no esquema que os objectos matemáticos, embora pertençam ao mundo inteligível não estão no mesmo plano das ideias.
         A interpretação global da linha dividida é delicada e está rodeada de controvérsias.
         Em nossa opinião a coluna dos objectos indica uma hierarquia de graus da realidade. Isto quer dizer que a imagem tem um mínimo de realidade enquanto as Ideias apresentam o seu máximo, isto é as Ideias são os objectos verdadeiramente reais.
         Na coluna do conhecimento a suposição é algo de humilde mas constitui um conhecimento, embora precário. No topo encontra-se a Ciência propriamente dita tendo como objecto as Ideias.
         A linha dividida mostra, segundo cremos, a relação entre sensível e inteligível mas mais ainda o estatuto das coisas sensíveis.
         Quanto a nós Platão considera que o sensível tem alguma realidade.E neste aspecto ele está afastado de Parménides o que nos vai permitir fazer uma pequena digressão.
         É frequente afirmar-se que Platão foi fortemente influenciado por Parménides. Para nós é consensual que Platão nutria pelo eleata uma profunda admiração como o atestam o Teeteto e o Sofista. E por vezes afirma-se que a influência parmenidia terminou ou decresceu a partir do Sofista. Quanto a toda esta questão a nossa posição é diferente.
         Não negando o apreço e mesmo alguma influência que Platão teve por Parménides Há quanto a nós diferenças importantes:

         O que queremos dizer é que há profundas diferenças entre as filosofias de Parménides e de Platão e que não é preciso chegar ao diálogo Sofista para as verificar.
         A alegoria da linha dividida como já dissemos mostra que segundo Platão há uma hierarquia de objectos que vai dos menos reais aos verdadeiramente (completamente) reais. Tudo isto significa que para o filósofo as Ideias são os objectos com a máxima realidade.
         Se há uma hierarquia de objectos também há uma hierarquia no conhecimento. É dado algum valor, por parte de Platão, aos conhecimentos mais baixos considerando o filósofo a Ciência como o mais elevado. Platão preocupar-se-á ao longo da sua carreira para esclarecer a diferença entre os graus de conhecimento (veja-se, por exemplo o Ménon e o Teeteto).
         A alegoria da caverna vai ilustrar um pouco o que acabámos de dizer. É a alegoria mais célebre de Platão e com ela abre o Livro VII da República.
         Embora bem conhecida façamos uma breve exposição da alegoria para em seguida fazermos a sua análise.
         A alegoria está, por assim dizer, dividida em fases, o que nos ajuda a compreende-la melhor.
         No fundo da caverna estão os homens agrilhoados de tal maneira que não podem mexer-se, voltados para a parede. Atrás deles uma fogueira e entre os agrilhoados e a fogueira passam homens transportando os mais variados objectos. As sombras projectam-se na parede e os agrilhoados pensam que elas constituem a realidade. Eis a primeira fase.
         A segunda inicia-se com a libertação de um dos agrilhoados que com grande esforço vai andar pela caverna e verá os objectos dos quais só se tinha apercebido pelas sombras. Compreende que os objectos são mais reais do que as sombras.
         Numa terceira fase o ex-agrilhoado, de uma forma penosa, sobe o caminho que o conduz ao exterior da caverna. A luz do Sol cega-o e ele não consegue ver os objectos que se encontram no exterior da caverna. Tem de se habituar à claridade e assim nos primeiros tempos contempla as sombras e à noite o firmamento.
         Depois de se ter habituado a ver os objectos menos iluminados já pode olhar para os mais iluminados e contemplar o próprio Sol. Estamos na Quarta fase.
         A alegoria não termina neste momento. Vai abrir-se, ainda, uma Quinta fase.
         É uma alegria e uma felicidade olhar para os objectos que detêm a máxima realidade. E aquilo de que mais se gostaria era ficar sempre no mesmo lugar em plena contemplação. Todavia, o antigo agrilhoado deve descer à caverna, ir ao encontro daqueles que foram seus companheiros e explicar-lhes o que é a realidade.
         Não será bem acolhido. Aquele que esteve no exterior da caverna é desajeitado no seu interior e fala de algo que os outros não compreendem. É considerado um louco e se lhe pudessem lançar as mãos mata-lo-iam, com certeza.
         Façamos algumas observações preliminares:

         A alegoria da caverna, por vezes, tem sido olhada como um brilhantismo literário para ilustrar a linha dividida. Só em parte, e talvez pequena, é que esta interpretação é correcta.
         Também nos parece que as primeiras quatro fases da alegoria da caverna correspondem às quatro da linha dividida.
         Todavia, a alegoria da caverna vai mais longe. Ela introduz uma componente ética que é importante: desde a perda das grilhetas até à contemplação do Sol é necessário um esforço e uma coragem próprios de uma grande envergadura moral.
         O que dissemos indicia um aspecto importante para Platão: o conhecimento mais elevado só é possível àquele que alia a envergadura intelectual à moral.
         A Quinta fase da alegoria, segundo pensamos, confirma e amplia, também, a opinião que expressamos. A última fase refere-se à missão do filósofo. O pensador não pode ficar numa posição cómoda e feliz: tem de transmitir aos outros a sua sabedoria. O filósofo não se pode isolar, se fica isolado é porque os outros assim o quiseram.
         O magistério do filósofo é fundamental para Platão: é um dever que deve ser prosseguido quaisquer que sejam as consequências desagradáveis que possa sofrer. E mais uma vez a envergadura moral é essencial. (cfr. o Teeteto)
         Façamos, agora, uma breve apreciação sobre as três alegorias dos Livros VI e VII da República. Estão ligadas entre si e pode-se dizer que formam um todo.
         A alegoria do Sol explica como o conhecimento é possível e a linha dividida mostra a hierarquia dos objectos, indicativa, como já dissemos, da ligação entre sensível e inteligível e de alguma realidade nos objectos que se encontram na parte mais baixa da hierarquia. Igualmente, na linha dividida a hierarquia do conhecimento pretende conferir algum valor ao conhecimento mais humilde.
         Em boa parte a alegoria da caverna absorve as duas anteriores mas junta-lhe a vertente moral e a missão do filósofo.




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