Sofistas, Sócrates e Socráticos menores
© Álvaro dos Penedos |
Terceira Parte
1. A 2.ª metade do séc. V a. c..
1.1. O quadro histórico
A
2.ª metade do séc. V. a. C. é importante sob vários
aspectos, entre os quais o filosófico.
Vamo-nos deter, quase exclusivamente, sobre
Atenas, por razões perceptíveis ao longo desta exposição.
Para uma melhor compreensão dos movimentos
filosóficos tracemos, primeiramente, as linhas gerais do quadro
político.
Em meados do Séc. V. a. C., o estratego
Péricles apresenta-se como o símbolo de um determinado regime
- o democrático; e o circulo que constituiu ao seu redor foi bem
representativo do ambiente cultural que, então, se respirava. Plutarco,
na sua Vida de Péricles, dá-nos algumas indicações
preciosas sobre a constituição de tal circulo.
Assim, sabe-se que o sofista Protágoras
foi um dos íntimos do grande político (55); e pode-se acrescentar
ter sido ele quem elaborou a constituição para a colónia
de Túrio, construída sobre a arrasada cidade de Síbaris.
Zenão de Eleia, o célebre discípulo de Parménides,
gozou, também, da mesma audiência. Diz Plutarco:
É
possível que tanto o sofista como o eleata tivessem preparado Péricles
para os grandes embates na assembleia, onde o discurso bem como a arte
de disputar constituíam os grandes temas para a vitória política.
Plutarco, que continuamos a seguir, não
esconde em vários pontos da sua obra a admiração por
Anaxágoras:
Estas
figuras que rodearam Péricles, sem falarmos de outras que foram,
também, importantes indiciam, já, o quadro intelectual da
Atenas na 2.ª metade do séc. V.
Abordando, agora, o aspecto político,
o nosso melhor guia é o historiador Tucidides, que foi um chefe
militar ateniense, no conflito que apôs Atenas e Esparta e também
um pensador político que, na sua obra Guerra do Peloponeso,
embora com moderação, não esconde a sua simpatia pelo
dirigente ateniense.
Em texto que ficou célebre, o historiador
apresenta uma oração fúnebre, pronunciada pelo estratego,
em que este aproveita para elogiar o regime, sob o qual vivia Atenas; (II,
35-46).
É um elogio á democracia, cujo
regime é caracterizado pela possibilidade de todos os cidadãos,
qualquer que seja a sua posição económica, ascenderem
aos mais altos cargos da polis.
Mas, impõe-se fazer algumas considerações,
quanto á sociedade ateniense e á democracia no tempo de Péricles,
para determinar o que há de novo na vida da Cidade, assim como o
que se deve entender por democracia, enquanto Péricles esteve á
frente dos destinos de Atenas.
Sobre o primeiro ponto, parece não
haver dúvida em assinalar-se uma transformação que,
embora ainda não radical, contrastava com a de Atenas de algumas
décadas atrás.
Os grupos familiares que agregavam uma série
de partidários cedem o lugar a grupos mais vastos, que se diferenciam
dos anteriores pelo maior número de membros e por um esboço
de ideologia que os vai informando.
Embora, encaremos, cautelosamente, toda e
qualquer comparação, permitimo-nos afirmar que, cerca de
450-440 surgem as facções políticas, aproximadamente,
como hoje as entendemos. Agrupamentos, como dissemos, mais vastos (em que
o núcleo já não era o clã familiar), com uma
doutrina já assente e cujo objectivo era a conquista do poder e
a instauração de um determinado tipo de governo.
Assim, frente a frente, encontravam-se a
facção democrática e a aristocrática. A primeira
agrupava, essencialmente, os cidadãos, cujo privilégio não
era o sangue, ou seja, aqueles que pertenciam á classe popular e
á burguesia de riqueza grande ou mediana, alcançada através
do comércio e da industria, aos quais se juntaram alguns nobres.
A segunda era constituída pela nobreza, que não queria perder
os seus antigos privilégios, a qual atraiu, também, a si
alguns ricos burgueses. Tal facção visava, fundamentalmente,
constituir um governo oligárquico.
Devemos fazer algumas considerações,
para uma melhor compreensão, da democracia da qual Péricles
era o expoente máximo. Em primeiro lugar, o estratego era um Alcmeónida,
isto é, um membro de uma das famílias mais poderosas de Atenas
que, ao longo de gerações, lutava pela conquista do poder.
O próprio Tucídides, simpatizante deste político,
não se furta a dizer que o governo de Atenas, no seu tempo, era
essencialmente o governo de um homem só, ou seja, que, sob a capa
da democracia, Péricles tinha, praticamente, todos os poderes, restando
ao demos aplaudi-lo.
Falemos, agora, um pouco sobre algumas características
da democracia ateniense.
Em primeiro lugar, o corpo de cidadãos,
aqueles que tinham o direito de votar e de ser eleitos, era constituído
apenas por uma parte da população: talvez 10 por cento. Havia,
assim, uma limitação desta democracia, pois, nem todos tinham
a capacidade política.
Em segundo, diremos, agora, que esta democracia
era directa. A Assembleia Popular, constituída por todos os cidadãos,
detinha o poder político e a condução dos negócios
públicos.
Em terceiro lugar, dever-se-á anotar
que o regime democrático ateniense, ao longo do tempo criou mecanismos
para controlar (na medida do possível) os aspectos demagógicos.
Anotar, ainda, que a democracia em Atenas, durante a sua longa existência,
se foi aperfeiçoando e, não obstante alguns acidentes de
percurso, serviu os interesses da Cidade.
*
Os
acontecimentos ocorridos em 411, em plena Guerra do Peloponeso, são
elucidativos de como algo profundo ocorria na vida ateniense. Nesse ano,
os oligarcas tomaram o poder através de uma revolta, constituindo
o chamado governo dos Quatrocentos, o que mostra a dificuldade que a nobreza
tinha em tomar um lugar de relevo na condução da vida política,
sem recurso á força.
Esse facto mostrava, também, como
se iam extremando, cada vez mais, os campos ideológicos, manifestando-se
uma consciência muito aguda dos conteúdos doutrinários
das facções em presença.
Mas, o governo dos Quatrocentos, cujo teórico
seria Antifonte, contou com a firme oposição de uma parte
da frota e do exército que, na altura, estacionava na ilha de Samos,
o que se poderá interpretar como a expressão de um sentimento
profundamente democrático do povo ateniense.
*
Falar
da 2.ª metade do século V, sob o ponto de vista histórico
conduz-nos ao grande conflito, conhecido por Guerra do Peloponeso. Esta
guerra ocupa, praticamente, as três últimas décadas
do século V.
O conflito teve a sua origem na pretensão
de hegemonia manifestada pelas duas cidades-estados mais poderosas da Grécia
- Atenas e Esparta; não só factores económicos mas
também ideológicos estiveram em jogo.
Atenas tinha constituído um império,
essencialmente marítimo, cujo grande obreiro tinha sido o próprio
Péricles.
O poderio ateniense centrava-se, sobretudo,
no quadrante oriental do mundo grego e que procurava, já, estender-se
para as regiões do Ocidente. Plutarco, na Vida de Péricles
diz que este
Era
este império, vasto em termos gregos, que fornecia as matérias-primas
de que Atenas necessitava, enquanto esta dava protecção militar
às suas aliadas. Os impostos recebidos por Atenas, assim como os
lugares de funcionários e soldados que constituíam a estrutura
ateniense, faziam com que a Cidade da Ática pudesse viver desafogadamente,
ao mesmo tempo que uma parte dos seus habitantes tinha uma ocupação
que lhes dava, pelo menos, para viver razoavelmente.
Compreende-se, assim, que a facção
democrática se encontre empenhada na defesa dos resultados já
conseguidos, obtendo, por isso, um grande apoio popular.
Por razões ideológicas, o movimento
aristocrático era pró-espartano, sendo, portanto, contrário
a uma guerra que opusesse a sua Cidade a Esparta e parece, também,
que não estaria interessado na manutenção de um império.
As cidades-estados, ameaçadas por
Atenas, juntaram-se a Esparta e, a guerra pela supremacia prolongou-se
durante vinte e oito anos, com excessos de ambas as partes.
As devastações realizadas pelo
exército espartano na Ática, assim como as pilhagens no litoral
do Peloponeso pela frota ateniense, constituíram marcos de uma violência
que transbordou desses limites geográficos. Relembremos, apenas,
o massacre efectuado pelos atenienses na pequena ilha de Melos, em que
os homens foram mortos e as mulheres e as crianças feitas escravas.
Quanto a guerra já não favorecia
os atenienses, estes entraram numa espécie de demência.
Os próprios estrategos, embora vencedores
junto das ilhas Arginusas, não podendo recolher os corpos dos seus
compatriotas, devido a uma tempestade, foram condenados em bloco - o que
era contra a lei.
Mas a batalha de Egospótamo pôs
fim á guerra do Peloponeso devido á destruição
da esquadra ateniense, o que levou á celebração da
paz em condições, talvez, não muito duras para a Cidade
que tinha realizado várias violências, a coberto de razões
políticas e em nome da justiça.
*
Em
404, Atenas obteve a paz a troco da destruição das suas muralhas
e da perda da frota e do império. A facção democrática,
sob a pressão interna e externa, não se conseguiu manter
e os oligarcos constituíram um governo, apoiado pelos espartanos.
O novo governo, cedo conheceu a cisão, pois, Critias era partidário
de um regime de força, enquanto Terâmenes, representante dos
moderados pretendia uma nova constituição.
É provável que esta cisão
tenha resultado do facto de Terâmenes ver, com clareza, que o apoio
ao governo ia diminuindo devido ás perseguições e
extorsões que, então, se praticavam. Terâmenes pagou
a sua moderação com a morte.
Este governo, que ficou conhecido por governo
dos Trinta Tiranos levou os democratas a refugiarem-se em Tebas (onde se
encontrava Trasíbulo, que já em 411 se tinha oposto ao regime
dos Quatrocentos), e em Mégara, que, também, abriu as suas
portas aos refugiados; a estes exilados juntaram-se, depois, os partidários
de Terâmenes.
Com um corpo de cidadãos reduzidos
a três mil, e uma onda de terror que, segundo Aristóteles,
levou á morte cerca de mil e quinhentas pessoas, o governo oligárquico
tornou-se odioso.
Em 403, Trasíbulo, reunindo os exilados,
conquistou, primeiramente, o Pireu, entrando, em seguida, na própria
Atenas.
Sem grande oposição das forças
espartanas, o regime democrático foi restaurado, tendo os novos
governantes usado de uma moderação, notável, em relação
aos seus adversários.
1.2. O quadro Cultural
Depois
de termos traçado o quadro histórico, nas suas linhas gerais,
da 2.ª metade do século V, é altura de indicarmos os
grandes momentos sob o ponto de vista cultural.
Ocupando lugar de relevo no movimento
filosófico dos meados do século V, situava-se Anaxágoras
de Clazómenas que, como já disse, pertenceu ao círculo
de Péricles. Ele foi, juntamente com Demócrito, o último
grande pensador do chamado período pré-socrático.
A sua presença, em Atenas, é
indicio, muito provável do desejo de Péricles em ver desenvolver-se,
na Cidade, a especulação filosófica, a qual presente
em zonas da colonização grega, tinha estado arredada de Atenas.
A estadia do ilustre filósofo tem,
pois, um elevado significado cultural, na medida em que a Filosofia mudava
de quadrante geográfico, passando da Grande Grécia para a
Ática.
Com muita probabilidade, devido á
sua presença no círculo de Péricles, o filósofo
foi acusado de impiedade, crime considerado muito grave em Atenas (a acusação
de impiedade, neste caso, devia esconder uma perseguição
política).
Acusado de tal crime, Anaxágoras retirou-se
para Lâmpsaco.
Os mais recentes pensadores, da linha pré-socrática,
são Hípon de Samos, que restaura o ponto de vista de Tales,
Diógenes de Apolónia, possivelmente o de maior valor, que
regressa a Anaximenes, e Arquelau, discípulo de Anaxágoras,
que tentou conciliar o pensamento deste último com o do milésio
Anaximenes.
Todos eles foram defensores de um eclectismo
em que as teorias dos pensadores de Mileto foram reelaboradas com a ajuda
de conhecimentos de ordem cientifica especializada, sobretudo médica,
conhecimentos esses que tiveram um surto de grande desenvolvimento pelos
meados do século V.
Mas este eclectismo não chegou a impor-se
e se a ciência conhecia o apogeu, a filosofia, teve de fazer uma
viragem, devida como veremos, em grande parte, ao movimento sofístico.
Se a Filosofia tinha nascido em Mileto, é
Atenas que vai assistir á aurora de um novo impulso filosófico.
*
A
2.ª metade do século V foi fértil em transformações
políticas, sociais e culturais.
É a altura em que a ciência
e a técnica ganham foros de cidadania, havendo alguns dos seus cultores
cujos nomes vamos recordar.
Em primeiro lugar, citemos os matemáticos
Enópides e Hipócrates de Quio, que prolongaram um domínio
cultivado pela escola pitagórica, a qual alcançou êxitos
assinaláveis até ao século IV a. C., e cujos representantes
mais famosos foram conhecidos pelo próprio Platão, sobretudo
quando este fez a primeira viagem á Grande Grécia.
Famoso, também, o astrónomo
Méton, que lançou ombros á reforma do calendário,
pertencendo a essa plêiade de cientistas que a Grécia via
surgir. Embora a técnica não tivesse ganho importância,
Plutarco (V.P.,23) assinala o nome do engenheiro Artemon que acompanhou
Péricles no cerco de Samos e fora o inventor de algumas máquinas
de guerra, utilizadas nessa altura.
*
O
grande acontecimento cientifico em nossa opinião, foi levado a cabo
pela Medicina, cujo centro principal foi a Escola de Cos dirigida pelo
célebre Hipócrates. O Corpus Hipocraticum,
que chegou até aos nossos dias, não permite, todavia, distinguir
o que pertence ao mestre e aos seus discípulos.
Werner Jaeger teve entre outros, evidentemente,
o grande mérito de, na sua Paideia, aprofundar o significado
e mostrar o impacto que a ciência médica teve no seu tempo.
São do célebre historiador estas palavras, bem elucidativas:
E, na linha do que pretendemos, essencialmente, estudar, outra passagem do mesmo historiador parece-nos, também, da máxima importância:
Esbocemos,
porém, as grandes linhas da medicina grega, para, com mais clareza,
vermos qual o lugar que ela ocupa na cultura dos séculos V e IV
a. C.. Em vários escritos do Corpo Hipocrático
ressalta a influência que a filosofia pré-socrática
exerceu sobre alguns médicos, pois, as doenças são
estudadas numa perspectiva ampla, em que o Homem não pode ser desligado
da própria natureza.
Tal significa que o conceito de physis
é transposto da reflexão filosófica para o campo da
ciência médica. Para ilustrarmos a voga deste conceito bastará
dizer que, num dos escritos hipocráticos, se aconselha o médico
que se dirija a qualquer cidade, para estudar, em primeiro lugar, a situação
desta, as águas, os ventos, portanto o que era matéria da
chamada meteorologia; só de posse destas informações
ele estaria habilitado a debruçar-se sobre o doente.
O conceito de natureza, de physis,
ainda é tomado no sentido em que os milésios o empregaram.
Se os escritos, um pouco, mais antigos mostram
a influência da chamada filosofia da natureza, todavia a medicina
dá um passo em frente e será esta que, em meados do século
V, influencia os próprios pensadores como Anaxágoras, Diógenes
e Hipon, sendo este último, também, um médico.
Surgem os estudos sobre os alimentos, ou
seja, a dietética, assim como as obras sobre a ginástica.
Tais conhecimentos são tendentes a que o Homem, atinja um equilíbrio,
pois o universo tem uma ordem harmoniosa, e o Homem, inserido neste mesmo
universo, deve constituir, também, uma harmonia.
Dos conceitos mais importantes que vão
surgir é, sem dúvida, o da natureza humana que mais interessa,
aqui, focar. Do sentido lato de natureza passa-se, agora, para o sentido
mais restrito da natureza que é própria do Homem, preocupando-se
a ciência médica com a dimensão eminentemente antropológica
(como é natural numa ciência deste tipo).
Assim, alguns escritos do Corpo Hipocrático
mostram diferenças em relação às doutrinas
dos pré-socráticos. E será essa noção
que, por sua vez, irá influenciar o próprio movimento sofístico
que, segundo Robin, foi sobretudo permeável ao Acerca da Arte,
um dos tratados da colecção hipocrática.
A autonomia da ciência médica
está bem expressa na obra intitulada Da Medicina Antiga,
cujo autor considera que esta ciência não necessita de uma
nova fundamentação, e aponta para um campo mais restrito,
para um certo empirismo, em que o Homem fosse estudado, não já
nas suas relações com a Natureza, mas em si próprio.
2. os sofistas
2.1. Preliminares
Um
dos grandes movimentos culturais dos meados do século V foi, sem
dúvida, a sofistica, com uma repercussão que ultrapassa esse
século, penetrando no seguinte, sendo pois contemporâneo do
próprio Platão.
Protágoras, Górgias, Pródico
e Hipias (seguindo a ordem cronológica) são os representantes
máximos desta corrente sendo, ao mesmo tempo, os seus iniciadores.
A actividade destes quatro sofistas decorre mais ou menos entre 450 e princípios
do século IV. Surge ainda, uma geração mais jovem
dos quais destacamos: Trasimaco, Pólo, Xeníades, Licofron,
Alcidamas.
A acção destes homens denegrida
durante muito tempo é, nossos dias, e de uma maneira geral, encarada
de forma positiva. L. Robin, em La Pensée Grecque,
ainda escreveu estas linhas:
Estas reticências não são compartilhadas por Werner Jaeger que, sobre este movimento, afirma o seguinte:
A
opinião deste historiador é partilhada, entre outros, por
Dupréel e Guthrie tendo este último , na minha opinião,
efectuado um dos estudos mais profundos sobre os sofistas.
Após estas linhas introdutórias
convém salientar que o sofista era um mestre do saber (sábio,
filósofo, sofista, foram termos equivalentes), um profissional do
ensino, como hoje diríamos, e a sua acção só
se compreende pelas mutações cada vez mais rápidas
que a sociedade grega sofria.
A partir dos meados do século V, como
já disse, a presença das facções políticas,
a luta ideológica, transposta, por vezes, para o conflito bélico,
fazia com que a carreira política fosse, simultaneamente, mais difícil
e mais aliciante.
Sobretudo a juventude, que queria tomar parte
na gestão da coisa pública, tinha de ter uma preparação
cuidadosa, pois, era perante as assembleias, nas quais estavam presentes
os cidadãos, que se travava a luta pelo poder.
Os sofistas respondiam a essa necessidade
assim como àquela, sobretudo na classe mais elevada, que consistia
na curiosidade pela análise literária e pelos temas filosóficos
e científicos. O fenómeno sofistico, tem de ser compreendido,
portanto, no enquadramento histórico e cultural, o qual, a ser desconhecido,
tornaria ininteligível o aparecimento e a voga destes profissionais
do saber.
Até que ponto os sofistas desenharam
um movimento com interesse para a História da Filosofia constitui
um tema controverso. Referindo-se ao aparecimento do subjectivismo e do
relativismo filosófico, W. Jaeger defende a seguinte posição:
A
posição de Werner Jaeger, que é acompanhado por outros
autores consiste em considerar que as Histórias da Filosofia Grega
(talvez não todas) cometem um erro ao considerarem a sofistica como
uma corrente filosófica.
Problema, sem dúvida, delicado este,
o de se considerar o movimento sofistico como devendo ou não entrar
na História da Filosofia. Na minha opinião considero o estilo
destes homens, sem dúvida, diferentes dos investigadores da physis
o que não me parece suficiente para os colocar fora da História
da Filosofia.
A grande objecção que levanto
a esta tese é a de que não se compreenderia a luta de Platão
contra os sofistas, praticamente ao longo de toda a sua obra, se estes
não tivessem uma envergadura intelectual, e se não tivessem
levantado problemas pertinentes, no campo filosófico. Se entre os
sofistas foi Protágoras o mais longamente atacado por Platão
(teremos de ver mais tarde as razões), vários diálogos
mostram, com clareza, que o filósofo considerou, também,
como adversários difíceis não só os primeiros
sofistas como alguns dos seus discípulos.
Citamos, ainda, Aristóteles que em
vários passos da sua obra se debruça sobre estes homens.
O movimento sofistico deve ter o seu lugar
na História da Filosofia Grega, segundo penso, e tentarei mostrar
que a sua problemática foi importante para o desenvolvimento ulterior
da filosofia.
Os sofistas a que nos vamos referir são,
por ordem cronológica, Protágoras de Abdera, Górgias
de Leontinos, Pródico de Céos e Hipias de Elis. Mas antes
de entrarmos numa breve exposição do seu pensamento apresentarei
alguns traços gerais deste movimento:
- os sofistas não constituíram uma escola filosófica: por assim dizer, cada sofista constituiu a sua escola;
- os sofistas são professores itenerantes, ou seja, permanecem por períodos, mais ou menos longos, em várias cidades gregas;
- os sofistas recebem honorários pelos seus cursos;
- os sofistas não pertencem á classe mais elevada da Grécia; talvez, por essa razão, as suas lições são pagas;
- os sofistas são professores da excelência política (politike arete);
- estes professores introduzem duas técnicas da máxima importância: a erística e a retórica.
Diremos, ainda, que o movimento sofistico apresenta dois aspectos que deverei mencionar:
não obstante a sua originalidade ele não corta, por completo, com o passado: alguns sofistas continuam a debruçar-se sobre as questões cosmológicas; o movimento sofistico teve um impacto notável em vários sectores da cultura grega que mencionaremos um pouco mais adiante.
*
2.2. Referência aos quatro grandes sofistas
Para uma melhor compreensão do movimento sofistico farei uma referência a Protágoras, Górgias, Prodico e Hipias; coloquei os quatro grandes sofísticos por ordem cronológica.
- 2.2.1. Protágoras de Abdera
Protágoras,
nascido em Abdera, foi o primeiro a intitular-se sofista e pertenceu, como
já disse, ao círculo de Péricles.
O sofista ficou famoso pela seguinte frase:
A
grande questão que ainda, hoje, se coloca é se o termo "homem"
deve ser tomado em sentido colectivo(humanidade) ou no sentido individual
(cada homem).
Tenho defendido que o termo "homem"
deve ser considerado no sentido individual. Os testemunhos que possuímos,
o de Platão, Aristóteles e Sexto Empírico apontam
para esta interpretação.
Poder-se-á argumentar, que os testemunhos
que citei podem não ser verídicos e desta forma a minha interpretação
não se poderia manter.
Vejamos, agora, com mais detalhe esta questão:
1. os testemunhos dos três autores citados são claros a interpretar o termo homem no sentido individual;
2. os testemunhos que apresentai estão colocados ao longo do tempo: Platão, 1.ª metade do séc. IV, Aristóteles, 2.ª metade do séc. IV e Sexto Empirio, séc. II-III D.C.;
3. só podemos trabalhar sobre os testemunhos que possuímos;
4. para além dos testemunhos citados os restantes testemunhos e fragmentos não põem em causa a interpretação que apresentai.
"O
homem é a medida de todas as coisas" constitui o cerne
do fragmento: aprofundemos o seu sentido.
Podemos, agora, ler o fragmento da seguinte
forma:
Esta leitura leva-nos aos seguintes aspectos:
1) há uma verdade para cada um;
2) todas as verdades têm a mesma graduação;
3) se cada um tem a sua verdade, só existe um discurso (o da verdade);
4) segundo a alínea 3) não existe o discurso falso;
5) há uma ruptura com os pré-socráticos; para estes a verdade está nas coisas enquanto para Protágoras ela está em cada homem.
*
No
diálogo Protágoras, Platão apresenta
um longo discurso que atribui ao sofista; este discurso ficou conhecido
por mito de Epimeteu e Prometeu.
Este mito apresentado por Protágoras
mostra o progresso da Humanidade ao longo do tempo, desde os seus inícios
até à Cidade regida por leis justas.
É interessante notar que o sofista
considera uma evolução humana não só material
mas também cultural.
Protágoras considera que a Cidade
subsiste com leis justas, como já disse, e também com a participação
de todos os cidadãos.
O sofista não é um reformador
político, segundo a minha opinião, mas sim um defensor da
democracia ateniense.
A questão que se coloca, neste momento,
é saber se há uma conciliação deste mito com
a frase "O homem é a medida de todas as coisas."
*
Protágoras
afirmou que existe um discurso forte e um discurso fraco. A posição
do sofista tem dado lugar a variadas interpretações.
Segundo penso, é através desta
posição de Protágoras que se articulam a frase "o
homem é a medida de todas as coisas" e o mito de Epimeteu e
Prometeu.
Se cada homem tem a sua verdade, esta posição
levada ao extremo conduziria a uma anarquia que aniquilaria a comunidade,
ou seja, a própria Cidade.
Ora, nós vimos que Protágoras
é defensor da harmonia na Cidade e também do regime democrático.
Segundo, penso, o discurso forte é
aquele que reúne a maioria enquanto o discurso fraco é o
da minoria.
Assim, para manter a coesão na Cidade
é necessário que as leis provenientes da maioria sejam seguidas
e respeitadas.
Parece-me que "o homem é a
medida de todas as coisas" não colide com as leis oriundas
dos órgãos políticos: o cidadão respeita as
leis embora cada um mantenha a sua verdade.
A importância e a influência
de Protágoras foram notáveis o que tentaremos mostrar, ainda,
nestes Apontamentos.
- 2.2.2. Górgias de Leontinos
Górgias
é oriundo de Leontinos (Sicília) onde a retórica deu
os seus primeiros passos. O sofista teria contactado com Empédocles
do qual teria sido discípulo.
Górgias foi o grande retórico
da 2.ª metade do século V; ficou famoso pelos seus discursos
mas também por ter escrito um tratado de Filosofia ("Do
Não Ser ou da Natureza").
O tratado (frg. B3) apresenta três
teses que o sofista vai desenvolver:
- Nada existe;
- se existe alguma coisa não é apreendida;
- se existe alguma coisa que se apreenda não pode ser comunicada a outrem.
O
objectivo do Tratado tem sido considerado, por vários historiadores,
como um ataque à Escola eleata.
Segundo penso não é, apenas,
a Escola eleática a ser visada mas também outras estariam
na mira de Górgias.
O que o sofista queria mostrar, por absurdo,
é que se a primeira tese fosse infirmada cair-se-ia na segunda e
se as duas primeiras fossem infirmadas cair-se-ia na terceira; Górgias
bloqueava, assim, todas as saídas.
A terceira tese, é importante, na
medida em que, Górgias aproveita a ocasião para dissertar
sobre as coisas e as palavras.
*
Se
o Tratado de Górgias é importante, todavia,
a grande fama granjeada por Górgias foi a sua utilização
da Retórica.
Os precursores do sofista são sicilianos,
da região da qual Górgias é oriundo. Mas tudo aponta
no mesmo sentido: se os precursores dão o primeiro passo, Górgias
vai mais longe e a Retórica consolida-se devido ao seu esforço.
A Retórica é a técnica
de bem falar, constituída por discursos que visam persuadir os ouvintes.
Para atingir os seus fins o discurso tem
de ser correcto na utilização da língua mas também
na utilização de um conjunto de regras.
No seu discurso Elogio de Helena,
Górgias mostra a força da palavra:
Nesta
passagem vê-se o vigor, a convicção e o orgulho de
Górgias no poder da palavra; não obstante o "corpo diminuto",
o discurso "leva a cabo acções divinas".
É minha opinião que Górgias
quer mostrar que a palavra é superior à força física.
O sofista, possivelmente, é defensor do embate entre discursos em
detrimento dos combates entre guerreiros. Se assim é, estamos perante
uma atitude humanista e civilizada.
A posição de Górgias
é reforçada na seguinte passagem:
A
passagem, agora, transcrita reforça e amplia a primeira passagem.
É a exemplificação do
poder da palavra mas Górgias, ainda, vai mais longe.
Considero que Górgias acreditando
no poder do discurso tem a consciência de que este pode ser positivo
mas também negativo. É possível que o retórico
queira alertar, igualmente, para a possibilidade do mau uso por parte de
alguns oradores.
Górgias ficou na História da
Cultura como cultor de uma técnica que chegou até ao nosso
tempo.
*
Obs.:
As passagens da tradução que utilizamos pertencem à seguinte obra: "Górgias, Testemunhos e Fragmentos", Lisboa, Colibri, Tradução, comentário e notas de Manuel Barbosa e Inês de Ornellas e Castro.
2.2.3. Pródico de Ceos
Abordarei,
apenas, alguns aspectos do pensamento de Pródico de Ceos.
Este sofista teve grande importância
no campo da linguagem. Para o movimento sofístico este campo era
importante para que a retórica e a erística se constituíssem
como técnicas fortes e persuasivas.
Pródico é citado pela sua perícia
em distinguir os vários sentidos das palavras. A sua preocupação
rasgava novos horizontes não só para a sofistica mas também
para os gramáticos.
*
Pródico
é, igualmente, célebre por um apólogo conhecido por
Escolha de Herácles.
Estamos perante uma incursão no terreno
da moral. O sofista apresenta Herácles na encruzilhada constituída
pela Virtude e pela Luxúria. As duas personagens apresentam os argumentos
para o herói seguir o caminho indicado por cada uma delas.
A Luxúria mostra um caminho, sem obstáculos,
repleto de prazeres. Por seu lado, a Virtude indica um caminho, difícil
e penoso mas que vai atingir o bem estar espiritual, a felicidade.
O herói Herácles escolhe o
caminho da Virtude não obstante deixar de lado as delicias da Luxúria.
Herácles ao seguir a Virtude atinge,
como disse, a felicidade e a consideração dos Gregos.
A breve referência que fiz ao apólogo
de Pródico mostra que a corrente sofística, na 2.ª metade
do século V, pelo menos em parte, nem é amoral nem imoral.
No caso de Pródico é bem clara
e patente a sua preocupação pela moral a qual constitui uma
parte importante da sua obra.
2.2.4. Hipias de Élis
Hipias
oriundo da Cidade de Élis, o mais jovem dos quatro grandes sofistas,
é aquele que foi mais maltratado por Platão. Por aquilo que
conhecemos de Hipias, ele não merecia a critica contundente e, sobretudo,
o ridículo que lança sobre o sofista.
As indicações que possuímos
mostram uma série de obras distribuídas por vários
campos. Citemos, apenas, duas para ilustrar o que dissemos:
- Lista de nomes de povos (frg. B 2)
- Lista dos vendedores olímpicos (frg. B 3)
Quanto
ao conteúdo destes livros só podemos avançar com conjecturas.
O primeiro livro citado é possível
que tivesse apresentado aspectos etnográficos e talvez, geográficos
para poder situar os povos que fariam parte da Lista.
O segundo livro, que apresenta os vencedores
olímpicos, talvez tivesse, também, o objectivo de constituir
uma cronologia, tarefa, sempre, importante naquela época.
*
Vamos, agora, debruçarmo-nos sobre um tema que, tudo o indica, era importante para o sofista. Platão no diálogo Protágoras, 337 C-338 B coloca Hipias a apaziguar uma discussão:
Se Platão é fiel ao pensamento do sofista podemos extrair vários aspectos desta parte do discurso de Hipias:
todos pertencem à mesma família o que significa que não há barreiras intransponíveis entre os homens; as diferenças entre grupos de homens (famílias, Cidades, etc.) deve-se à lei, ou seja, à lei por convenção; Hipias considera que a lei mais justa é a da natureza.
O sofista vai continuar o seu discurso que é importante para a compreensão da sua doutrina:
"Por
natureza, o semelhante é da mesma linhagem do que o semelhante,
enquanto a lei, tirana dos homens comete uma violência à natureza"
(Protágoras, 337 C).
Tentemos dilucidar a passagem transcrita:
Hipias faz a distinção entre lei por natureza e lei por convenção. A lei por convenção é um produto do legislador ou de um órgão político. A lei por convenção pode ser modificada e as Cidades apresentam as suas leis que podem ser variáveis de Cidade para Cidade. A lei por natureza é universal e repousa sobre a Natureza; a terminologia lei por convenção e lei por natureza é empregada pelos sofistas e, sobretudo, no século IV, vai ser usada por pensadores que não são sofistas; a lei por convenção pode ser violenta em relação à lei por natureza e não é, como já disse, universal; talvez, por influência de Empédocles o sofista vai considerar que "o semelhante é da mesma linhagem do que o semelhante" o que significa, que o semelhante atrai o semelhante; o semelhante atrai o semelhante significa, pela lei da natureza que o homem respeita e gosta do homem; para Hipias a lei por natureza não conduz à lei do mais forte.
Cálicles,
uma personagem do diálogo platónico Górgias
ao defender a lei por natureza identifica-a com a lei
do mais forte.
Cálicles considera que o mais forte
deve mandar nos outros e que as suas paixões não devem ser
cerceadas.
Ora, Hipias, segue um caminho diferente:
a lei por natureza leva à solidariedade e ao respeito do semelhante
pelo semelhante.
Hipias, o sofista, é um humanista
e tem uma visão cosmopolita, como também Demócrito
a teve.
Esta pequena digressão, segundo penso,
mostra, pelo menos, que alguns sofistas se preocuparam com a moral.
- 2.3. A importância da sofistica.
Nos
nossos dias a reabilitação da sofistica, como já disse,
é um facto, embora se possa cair em exageros um pouco semelhantes
aos anteriores.
Durante um longo período, os sofistas
foram considerados não só como personagens menores mas também
como prejudiciais á cultura do seu tempo.
O ataque á sofistica e o seu denegrimento
inicia-se, já, na 2.ª metade do século V, ou seja, em
vida dos seus grandes representantes. Aristófanes, o comediógrafo,
é um dos seus críticos contundentes. Mas considera-se Platão,
mais do que Aristóteles, como um dos detractores da sofística.
Considero que se atentar na crítica
de Platão aos sofistas pode-se verificar os seguintes pontos:
Segundo penso, Platão é, por
vezes, injusto em relação aos sofistas: os diálogos
Hipias Maior e Hipias Menor são exemplos
do que acabei de dizer;
Creio, todavia, como já foi notado
por vários historiadores, que Platão mostra deferência
por alguns sofistas: a apreciação da doutrina de Protágoras
no Teeteto é paradigmático deste ponto de vista; o
fundamental na minha perspectiva é, porém, a diferença
radical de posições mantidas por Platão e pelos sofistas.
Vejamos um pouco melhor este ponto.
Os sofistas, de uma forma geral, defenderam
o primado da sensação. O filósofo irá considerar
que o sensível, pela sua mobilidade, não pode ser objecto
da Ciência; esta terá de possuir um objecto estável
e universal. Mas também alguns sofistas consideram que há
apenas um único discurso, ou seja, não há discurso
verdadeiro e falso o que será, igualmente, combatido por Platão.
Acresce ao que já dissemos a oposição
platónica às técnicas da eristica e da retórica.
O que queremos dizer é que existe
uma oposição radical entre Platão e os sofistas. E
se por um lado tudo isto mostra a animosidade do filósofo em relação
aos sofistas por outro mostra a importância filosófica que
estes tiveram.
Ora, se os sofistas tiveram uma influência
no campo filosófico a sua importância faz-se sentir noutros
sectores. Na literatura (por exemplo em Euripides), na história
(é o caso de Tucidides), na linguistica e sem dúvida no campo
político-social, a sua presença é marcante.
3. SÓCRATES
3.1. O pensamento de Sócrates.
Ao
falar-se de Sócrates temos de defrontar a chamada questão
socrática.
Esta questão consiste na abordagem
dos testemunhos à cerca de Sócrates.
A questão é difícil
porque os testemunhos não são coincidentes.
Ainda, em vida de Sócrates, a corrente
anti-socrática conta com a comédia "As Nuvens"
da autoria de Aristófanes. Esta comédia é demolidora
para Sócrates. O filósofo é apresentado como um adepto
da filosofia pré- socrática e da corrente sofística;
mais ainda, ele surge na comédia de Aristófanes como um charlatão.
No século IV, logo nos primeiros anos,
surge a corrente socrática, sobretudo constituída por obras
dos seus discípulos.
Platão e Xenofonte escrevem, cada
um, uma "Apologia de Sócrates". Embora sejam ambos discípulos
de Sócrates há diferenças nas duas "Apologias".
A questão é complexa devido,
por um lado ao facto de Sócrates nada ter escrito, e por outro,
os testemunhos serem diferentes.
Houve, da parte de alguns historiadores a
tentativa de conciliar os vários testemunhos. Assim, teria havido
duas fases no percurso de Sócrates:
- a primeira em que Sócrates teria sido um adepto da filosofia da Natureza e talvez, também, da corrente sofística;
- a segunda em que Sócrates aparecia na fase retractada pelos seus discípulos.
Embora
considere esta tese verosímil penso que ela não resolve as
discrepâncias nas obras de Platão e de Xenofonte.
Pessoalmente, creio que a questão
Socrática ainda está aberta e pouco poderemos dizer, com
alguma segurança, sobre Sócrates.
*
A
questão socrática levanta alguns problemas difíceis
de ultrapassar, como já vimos, o que aconselha alguma prudência
na exposição do pensamento de Sócrates.
Vejamos alguns aspectos que poderemos avançar
com uma certa segurança.
O método utilizado por Sócrates
está pelo menos próximo da erística sofistica. É
um método essencialmente refutativo que se aplica ao saber
do seu interlocutor.
A fazer fé numa passagem da Metafísica
de Aristóteles, Sócrates estaria interessado nas definições
e nos termos universais. E Aristóteles vai mais longe ao afirmar
que para Sócrates os universais não estavam separados das
coisas, ou seja não eram independentes.
O Estagirita queria dizer também que
a responsabilidade na separação dos universais como inteligíveis
pertence a Platão.
Sem dúvida que o esforço de
Sócrates em estabelecer a definição é um ponto
filosoficamente importante.
A este ponto podemos juntar outro, atestado
por Aristóteles noutra passagem da Metafísica:
a indução foi utilizada por Sócrates.
Diremos agora que o tema da virtude devia
ter tido um lugar de destaque na reflexão socrática. A natureza
da virtude, o seu ensino, eram aspectos caros a Sócrates.
A estes temas voltaremos quando abordarmos
Platão mas será pelo menos, difícil, descortinar o
que pertence ao mestre e ao discípulo.
3.2. A condenação de 399.
É
sabido que em 399 Sócrates foi acusado de impiedade e de corromper
a juventude e comparecendo perante o tribunal foi condenado à morte.
Com frequência a condenação
de Sócrates é vista ou como um atentado à filosofia
ou como uma questão religiosa.
Pensamos, todavia, que qualquer dos pontos
de vista avançados não resolve a questão, o que significa
que avançaremos com outra explicação. Compreendemos
que a indagação socrática suscitasse alguma má
vontade e que a suspeita de impiedade fosse relevante na Atenas de então.
Algumas das personalidades acusadas dos males
que caíram sobre Atenas durante a Guerra de Peloponeso, ou imediatamente
após a capitulação, frequentaram o circulo socrático.
Alcibiades, apontado como um dos responsáveis pelo desastre da expedição
á Sicília, Critias e Cármides que pertenceram ao regime
sangrento que governou a Cidade após a capitulação
de 404 foram alguns dos homens que conviveram com Sócrates.
Entre 404 e 399 medeia um curto espaço
de tempo e convirá relembrar que em 403 a democracia foi restaurada.
O regime democrático foi moderado contendo-se em fazer uma perseguição
aos seus inimigos. Mas com toda a probabilidade alguns ajustes de contas
teriam ocorrido.
Em 399 quando Sócrates comparece perante
o tribunal estava fresca na memória a derrota e o governo dos trinta
tiranos. E era muito possível que os juizes se lembrassem das ligações
perigosas entre Sócrates e políticos que tinham contribuído
para o descalabro de Atenas.
Por aquilo que podemos saber Sócrates
não devia ser um ímpio: não negou a existência
dos deuses e seria, provavelmente, um homem piedoso.
Assim consideramos que em 399 ocorreu um
ajuste de contas, ou seja, a acusação de impiedade camuflou
um caso político (o que já tinha acontecido com Protágoras
e Anaxágoras).
Não deixa de ser significativo que
no séc. IV, já depois da morte de Sócrates, tivessem
surgido os ataques contra o filósofo pondo a tónica na responsabilidade
da formação dos políticos a que nos referimos.
Diremos, por fim, que o nosso ponto de vista
não põe em causa o regime democrático de Atenas. Este
funcionou, pelo menos, de forma razoável e os acidentes de percurso
não puseram em causa o seu valor.
3.3. A chamada revolução socrática.
Ainda
hoje é vulgar ler-se que Sócrates inaugurou um novo ciclo
da filosofia grega. Tal significa que a um período cosmológico
se seguia o período antropológico inaugurado
por Sócrates: estávamos perante uma autêntica revolução.
Por aquilo que sabemos de Sócrates,
este foi sem dúvida uma figura relevante na 2.ª metade do séc.
V. Todavia este período é marcado por outros acontecimentos
importantes.
Em primeiro lugar a medicina tornou-se um
acontecimento marcante no período referido. A sua influência
em Platão, por exemplo, é explicita e importante.
A medicina, pelo seu objecto, debruça-se
sobre o que por vezes se chama a natureza humana. O que é o homem
e o interesse por ele são preocupações do Corpo Hipocrático.
Assim a medicina grega fornece uma contribuição importante
para o domínio da antropologia.
Qualquer que seja o valor que se atribua
ao movimento sofistico será difícil sustentar que ele tenha
uma pequena influência na Cultura Grega da 2.ª metade do séc.
V.
Os sofistas, ao que nos parece, tiveram um
papel relevante no campo que agora nos interessa considerar.
A preocupação pela paideia
é clara nos sofistas. A utilização de algumas técnicas,
como a erística e a retórica, procuravam a valorização
dos seus discípulos. Era, portanto, o aparecimento de uma educação
de grau superior.
Se juntarmos ao que já dissemos o
interesse pela linguagem, o tema do conhecimento e a ética deparamos
com um vasto campo no qual o homem está no centro.
O que queremos dizer é que Sócrates
não foi o único personagem a operar uma mudança na
2.ª metade do séc. V. Os médicos do Corpo Hipocrático,
os sofistas e Sócrates, são todos eles os protagonistas da
viragem a que assistimos no período que menciona-mos, o que nos
leva a considerar que na 2.ª metade do séc. V ocorreu uma revolução
cultural.
Para concluir diremos que não há
uma revolução socrática mas sim uma revolução
em que outros tiveram uma importância que não podemos menosprezar.
O que afirmamos não diminui o valor da filosofia de Sócrates
mas coloca-o no contexto em que viveu.
4. OS SOCRÁTICOS MENORES
4.1. Introdução
Os
socráticos menores são discípulos de Sócrates;
Platão, também discípulo será o socrático
maior.
Esta designação, que terá
apenas uma utilidade pedagógica, não é muito feliz
na medida em que contém um juízo de valor. Não pondo
em dúvida a envergadura de Platão terá de se fazer
um balanço da actividade destes homens. Não caberá
no âmbito destes Apontamentos proceder a essa tarefa
propondo-nos apenas traçar algumas linhas das escolas que apresentam
Sócrates como figura tutelar.
O estudo destas escolas é difícil:
mais uma vez, verificamos a perda de uma produção considerável.
A reconstituição tem de realizar-se a partir de fragmentos
e de testemunhos.
Trataremos dos primórdios das escolas
cínica, cirenaica e megárica. Como tentaremos mostrar elas
auxiliam a compreensão do platonismo e por isso é desejável
o seu conhecimento mesmo não muito desenvolvido.
4.2. A escola cínica
O
fundador da escola é Antistenes. Pertenceu ao circulo socrático
mas, antes, foi discípulo dos sofistas, talvez de Górgias.
A escola cínica tem aspectos bem marcados.
Os seus membros levam uma vida ascética: vestem-se da forma mais
simples e alimentam-se do que lhes é dado. Não possuem bens
e são hostis aos estatutos económico e social: como já
foi notado esta escola faz lembrar uma ordem mendicante.
A escola cínica preocupa-se com a
postura perante a vida; assim não é para admirar que coloque
a virtude em primeiro lugar e a ciência em segundo.
A figura tutelar dos cínicos é
o herói mítico Herakles. É o exemplo, mais claro,
dos trabalhos que são necessários para atingir a virtude.
A virtude do sábio cínico consiste
na independência face aos outros, às coisas e às paixões:
o seu desígnio é a autonomia.
Quanto ao tema do conhecimento Antistenes
considera que cada coisa tem uma essência: para este filósofo
não há essências universais mas sim individuais que
são os nomes pelos quais designamos as coisas.
Para Antistenes não há definições
das coisas; quanto muito, podemos fazer comparações para
clarificar o que cada coisa é.
Importante sob o ponto de vista filosófico
é a tese do fundador da escola quanto à predicação:
esta não é possível, pois não existe comunicação
entre as essências. Homem e música são essências
singulares e por isso só podemos dizer que o homem é homem
e que o músico é músico.
Anotemos, ainda, a posição
de Antistenes quanto ao discurso: para ele não há discurso
verdadeiro e discurso falso. Há um único discurso pois quando
se fala sobre uma determinada coisa há apenas um discurso e por
isso não se pode falar em falsidade.
A presença de Protágoras é
nítida, ao que parece, o que permite ver a influência sofística
nos primórdios da escola.
4.3. A escola cirenaica
Aristipo,
originário de Cirene, colónia grega do Norte de África,
foi discípulo de Sócrates e recebeu, igualmente, a influência
sofistica.
Fundou a sua escola na Cidade natal.
Os cirenaicos consideram como fundamental
a acção, a vida prática, em detrimento da teoria.
Todavia, como veremos, a filosofia do conhecimento cirenaica é importante.
Esta escola defende que a sensação
constitui o conhecimento. O que nós temos são sensações
e estas não podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. Temos
acesso às sensações e elas são verdadeiras
na medida que constituem o único critério: quaisquer que
sejam as condições, quaisquer que sejam as diferenças,
e a sensação é verdadeira. Isto é, se alguém
diz que tem a sensação do branco e outro do azul referente
ao que chamamos o mesmo objecto qualquer delas é verdadeira
porque é individualmente que temos acesso a elas.
Segundo os cirenaicos não podemos
dizer o que são os objectos. O que podemos dizer é que temos
a sensação do branco ou do doce mas não podemos afirmar
que este objecto é branco e aquele doce. Assim, o que chamamos realidade
é uma incógnita, é algo de incognoscivel.
A ética da escola decorre deste sensismo.
Deverá seguir-se as sensações e estas podem dividir-se
em três categorias: as que provocam a dor, as que são neutras
e as que oferecem o prazer.
O que é natural é que o sábio
siga as sensações que lhe dão prazer. Desta forma,
estamos perante uma ética hedonista.
Será importante referir que nesta
concepção é sábio aquele que é autónomo.
Afastando-se da dor, procurando tranquilamente a prazer, o sábio
não deve ser dominado pela paixão e pelos desejos. É
próprio do sábio usufruir do prazer presente sem se preocupar
com o passado e o futuro. A autonomia, a independência constituem
o traço fundamental da sabedoria.
É importante verificar na escola cirenaica
a presença da sofistica, em especial de Protágoras, no respeitante
ao temas do conhecimento. Segundo pensamos, e tentaremos mostrá-lo
mais tarde, esta situação explicará, pelo menos, em
parte, a critica de Platão ao sofista Protágoras.
4.4. A escola megárica
A
escola foi fundada por Euclides de Mégara (não confundir
com o geometra Euclides), possivelmente antes da morte de Sócrates.
Após a morte de Sócrates vários
discípulos foram para Mégara, para junto de Euclides que,
como já disse devia ter aberto a sua escola há já
alguns anos.
Platão, cerca de dez anos, mais novo
do que Euclides estabelece com este uma longa e sólida amizade.
A escola de Mégara, das três
que estamos a examinar era aquela que mais próxima da filosofia
platónica; não obstante este facto Platão irá
criticar alguns aspectos da doutrina dos megáricos.
Apresentarei, brevemente, alguns pontos da
filosofia megárica:
1) o conceito de Bem é a entidade mais elevada para a escola megárica. Ele é designado por nomes diversos mas o Bem é uno;
2) concebem uma pluralidade de essência que são isoladas umas das outras. O Bem participa de todas as essências;
- 3) se as essências não se articulam entre si não é possível a predicação;
- 4) o sensível é o Não-Ser. Nada nasce nem perece assim como não existe o movimento;
- 5) para defenderem a sua doutrina apresentam um conjunto de paradoxos utilizando a metodologia de Zenão de Eleia.
Para findar esta breve abordagem direi que a escola de Mégara cruza as influências de Sócrates e da filosofia eleata (é possível que Euclides tivesse sido um eleata, na sua juventude)