As Origens da Filosofia
© Álvaro dos Penedos |
Primeira Parte
As Origens da Filosofia
Quadro Político da Grécia Antiga até ao século VII
A questão das origens da Filosofia é hoje uma questão
clássica mas ainda controvertida. Para a tentarmos compreender vamos
recuar até ao momento no qual surgiram os primeiros Gregos.
Aproximadamente no ano 2000 a.C. estabeleceram-se na
Grécia povos indo-europeus que nela se fixaram, os quais já
falavam o grego.
Quanto à origem e características dos
indo-europeus ainda hoje subsistem dúvidas. Poder-se-á dizer
que são povos continentais, ligados à pastorícia e
com uma religião ligada aos fenómenos atmosféricos.
Detecta-se no século XVI uma civilização
que vai ser brilhante, a civilização dos Aqueus. Vários
são os problemas que se colocam ao seu estudo e para uma parte dos
quais só há conjecturas.
O que podemos dizer, com alguma segurança é
o seguinte:
- os Aqueus são essencialmente guerreiros e encetam uma expansão pelo Mediterrâneo Oriental;
- constituem uma série de estados entre os quais existe, ao que parece, a hegemonia de Micenas;
- o estado aqueu é fortemente burocratizado;
- o linear B é a escrita dos Aqueus, a qual é silábica e não se adapta à palavra oral.
Não se conhece bem a organização política e
social dos Aqueus. Sob o ponto de vista político o poder está
concentrado nas mãos do soberano; é muito provável
que haja traços orientalizantes no estado aqueu.
O soberano vive num palácio que é uma
autêntica cidadela que se ergue na parte alta da cidade. Ele governa
auxiliado por altos funcionários e uma burocracia controla tudo
o que se passa no estado.
Sob o ponto de vista social deve existir uma hierarquia
rígida na qual a classe dos guerreiros é a mais importante.
Vejamos, agora, outros aspectos.
Os Aqueus entraram em contacto com outros povos e entre
estes, deve destacar-se o cretense.
Um povo rude como o aqueu, pouco a pouco, em contacto
com outras civilizações, vai-se interessando pelos aspectos
artísticos; é provável que artistas cretenses tivessem
trabalhado nalguns estados aqueus.
A civilização aqueia mostrou uma abertura
ao exterior que é notável e neste aspecto prefigura a Grécia
a partir dos finais do século IX. É esta abertura que encontramos
em relação à religião.
A religião que vamos encontrar na Grécia
arcaica, em boa parte, está formada no tempo dos Aqueus. Os principais
deuses encontram-se já na civilização aqueia e há
divindades que vêm de outras regiões, em especial de Creta.
É interessante notar-se que a religião
dos Aqueus, nos tempos mais recuados, privilegiava as divindades masculinas
mas, sobretudo, em contacto com Creta o panteão vai ser enriquecido
com divindades femininas. Os contornos da religião grega são
nítidos, portanto, antes dos poemas homéricos.
Para terminarmos a parte referente aos Aqueus façamos
referência a dois problemas.
O primeiro diz respeito à Guerra de Tróia. Como é sabido a Guerra de Tróia foi encarada, na Antiguidade, como um conflito de grandes proporções. Todavia, para alguns historiadores, entre os quais citemos Finley e Claude Mossé, a importância da expedição a Tróia foi diminuta.
O segundo problema refere-se ao fim da civilização dos Aqueus. Não deve ter sido um final rápido: é possível que a destruição durasse cerca de um século (do século XII ao século XI). Apontam-se hoje várias hipóteses parecendo que se está longe de uma certeza.
Só podemos dizer que a destruição foi brutal. No século
XI um monte de ruínas era o que restaria do mundo aqueu.
Pouco se sabe da Grécia entre os séculos
XI e IX, o linear B desapareceu e a arqueologia não tem trazido
muitas informações sobre este período.
O que se poderá dizer é o seguinte:
a Grécia fecha-se sobre si própria. Se os contactos com o exterior não terminam, são todavia menos frequentes;
a actividade económica é diminuta;
as concentrações urbanas praticamente não existem;
a escrita, que agora é alfabética, deve ter surgido nos meados do século X
A introdução da escrita é um momento alto da civilização
grega. A base da escrita é o alfabeto fenício. É clara
portanto a influência deste povo. Mas o que é interessante
notar-se é o facto dos Gregos não se terem limitado a importar
o alfabeto fenício: para que a escrita correspondesse à linguagem
oral os Gregos fizeram as adaptações necessárias.
A escrita antecede o aparecimento da polis.
Esta, segundo Lévêque, teria surgido cerca de 800.
As poleis espalharam-se por todo esse
vasto território que constitui a Hélade. Mas vejamos o que
é a polis.
Devido à escassez de informações
não conhecemos as raízes, ou seja, as razões do aparecimento
da cidade-estado.
O que sabemos é que de uma forma geral a polis,
tem um pequeno território o que a leva a possuir, igualmente, quase
sempre, uma pequena população.
Há diferenças entre o estado aqueu e a
polis no tocante ao desenho urbanístico: enquanto
no primeiro a cidadela, que é a residência do rei, é
o lugar central, na polis surge a àgora
que, nos seus primeiros tempos, é uma praça pública.
Na àgora os habitantes podiam encontrar-se,
conviver e trocar ideias. Há, assim, uma maior abertura, o sinal
de uma mentalidade na qual a curiosidade sobre as concepções
e a vida pública devem ter, já, um lugar de destaque.
O que vai acontecer ao longo dos tempos é o que
se tem chamado a fragmentação do poder político. A
tendência é para o poder político se dividir por vários
magistrados, colégios e assembleias. E também vários
são os regimes políticos que os Gregos vão conhecer,
entre os quais o democrático que atinge a sua forma mais avançada
na Atenas do século V.
Ora, entre o aparecimento da polis e o
final do século VII podemos encontrar, entre outros, os seguintes
aspectos:
a Grécia está francamente aberta ao exterior; a actividade económica é intensa;
há grupos sociais em ascensão: comerciantes, navegadores, proprietários de oficinas; surge a moeda, cujo significado inicial, ainda hoje não é consensual; aparecem os códigos escritos, com grande repercussão na mentalidade grega.
No final do século VII encontramos a Hélade estendendo-se da extremidade do Mar Negro ao extremo ocidental do Mediterrâneo. A Hélade é, assim, um espaço descontinuo onde a unidade é constituída por laços espirituais: a língua, a religião, os festivais pan-helénicos, entre outros. Mas a Hélade é o espaço das poleis e no período que estamos a considerar mencionemos duas faixas de colonização extremamente importantes: o litoral da Ásia Menor e aquela constituída pelo Sul de Itália e a Sicília.
Quadro cultural da Grécia Antiga até ao século VII.
É frequente ao descrever-se as origens da filosofia falar-se de
passagem do mito ao logos.
Tentaremos mostrar que a expressão passagem
do mito ao logos é ambígua e pode deturpar o que
historicamente se teria passado.
Comecemos pela questão do mito. O mito é
uma história real, ou seja, o que para nós é uma fábula,
uma história maravilhosa, era nas sociedades arcaicas uma narrativa
verdadeira. Mas digamos, ainda, que o mito pode ter como personagens não
só os deuses como os próprios homens (Cfr. M.H.R. Pereira).
A importância do mito é praticamente indesmentivel.
Funciona como algo exemplar: o acto de semear ou de erguer uma casa são
imitações de gestos contidos nos mitos.
Um dos mais importantes é o cosmogónico,
ou seja, aquele que trata das origens.
Este mito narra a forma como o mundo veio à existência
e qual o papel que os deuses desempenharam nesse acto. A origem do homem
era contemplada nesta exposição que era transmitida de geração
em geração: o mundo assim como o homem era obra dos deuses.
Para além da dimensão do mito como modelo
devemos falar da sabedoria que a ele está ligado.
O mais antigo corpo de saber que encontramos na Grécia
está ligado aos sacerdotes e aos homens divinos.
Os homens divinos constitui uma expressão
usada pelos gregos. Com ela queriam significar aquelas personalidades que
continuando a ser humanas possuíam um dom dado pelos deuses, o que
fazia que estivessem mais perto da divindade.
Estes homens tinham poderes extraordinários como
por exemplo: conhecer o passado e o futuro; separar o espirito do corpo
e viajar, por vezes por longos anos, com o espirito deixando de lado o
corpo; descida ao Hades; poderes para deter cataclismos naturais.
Para se compreender um pouco melhor uma questão
tão delicada convirá mencionar a posição de
E. Morin (O Método, III ?). O filosofo francês
considera que na época em que o mito é relevante as técnicas
já existiam, isto é, há uma coexistência de
actividades bem diferenciadas. Tal significa que é próprio
do espirito humano este duplo enfoque, o que leva o homem a viver não
só com a razão mas também com o mito.
No caso da Grécia Antiga podemos ver a força
do mito mas também manifestações culturais, ligadas
essencialmente à literatura, que ampliam e diversificam o campo
do Homem.
Façamos assim uma referência à cultura
Grega desde os poemas homéricos até aos finais do séc.
VII.
Em primeiro lugar acentuemos a importância da
Ilíada e da Odisseia. Nestes poemas
viram os Gregos os seus antepassados: os Gregos são os descendentes
dos heróis da Guerra de Tróia . Há assim uma dimensão
histórica, sempre considerada ao longo dos séculos na Grécia
Antiga.
Nos poemas homéricos o aspecto religioso é
relevante: os episódios relativos aos deuses são numerosos
e assim não é para admirar que a sua influência seja
grande neste campo.
As qualidades ostentadas pelos heróis irão
servir de modelo aos Gregos. Assim não é para admirar que
Homero fosse considerado o educador da Grécia e os
poemas constituíssem a base da paideia grega. Convirá
reflectir um pouco sobre este ponto.
Homero será acusado por vários pensadores
de contar histórias vergonhosas acerca dos deuses.
O ataque de Xenófanes a Homero inicia a querela
entre os defensores da paideia tradicional e os filósofos.
Mais tarde, vemos Platão, na República, criticar
longamente a paideia tradicional.
Se os poemas homéricos são fundamentais
todavia não fazem esquecer a Teogonia e os Trabalhos
e os Dias de Hesíodo (meados do século VIII).
Os poemas de Hesíodo constituem um marco na História
da Cultura Grega – vejamos alguns aspectos.
Será interessante ver que o poeta fala de si
próprio na sua obra (o poeta ou poetas dos poemas homéricos
não têm uma atitude pessoal).
As obras de Hesíodo apresentam outra inovação:
o aspecto ético é frisado e assim a justiça é
algo de agradável aos deuses.
A Teogonia é importante não
só porque é um tratado sobre a religião grega mas
também pela questão cosmogónica.
Há um esforço por parte de Hesíodo
em colocar uma certa ordem na religião grega: ao que nos parece
tudo indica que o quadro religioso grego era confuso, que as contradições
eram abundantes nas biografias dos deuses.
Surge, assim, um traço de um novo espirito: há
a preocupação em arrumar a matéria religiosa,
há uma certa racionalização na tarefa
levada a cabo por Hesíodo. Com isto não queremos dizer que
se perca o sentido religioso mas sim, que começa a surgir um novo
estilo.
A narrativa cosmogónica na Teogonia
segue o estilo a que fizemos referência. A génese do Universo
é relativamente simples e há uma certa aproximação
à noção de Natureza sem implicar a perda do estatuto
de importância que as divindades possuíam.
Mencionemos outro acontecimento da História da
Cultura Grega: o aparecimento, nos princípios do século VII,
da poesia lírica.
O poeta lírico fala de si, descreve os seus sentimentos,
torna - - os públicos. É este, sem dúvida, um fenómeno
relevante na Cultura Grega.
O quadro que traçamos não nos mostra toda
a riqueza da Cultura Grega desde os fins do século IX até
aos finais do século VII. Mas parece-nos suficiente para compreender
a passagem do século VII para o VI.R
Relembremos que a parte oriental do mundo grego estava
em contacto com algumas civilizações brilhantes (Egipto,
Mesopotámia). A polis, por sua vez, implicava uma
mobilidade espiritual que a diferenciava do estado oriental.
Sob o ponto de vista cultural, a trajectória
seguida, implicava uma discussão sobre temas cada vez mais amplos
e complexos.
Segundo os Gregos nos finais do século VII e
primeiras décadas do VI surgiu uma pleiade de personalidades a quem
chamaram os sete sábios e cujos nomes variavam de
lista para lista. Tales é um dos nomes presentes em todas elas.
Os sete sábios, envolvidos em parte pela lenda,
são figuras diferenciadas: ao lado de legisladores e governantes
surgem, também, aqueles que têm poderes extraordinários.
Vejamos algumas das suas características:
- os sete sábios estão ligados à defesa da polis ou escrevendo os códigos ou salvando-a de catástrofes por meios extraordinário
- o seu saber é condensado em máximas, os apotegmas;
- esse saber é público e algumas máximas são gravadas na pedra.
Quando chegamos a Tales de Mileto há na Grécia uma longa
tradição cultural. Encontramos a inovação que
não corta abruptamente essa mesma tradição. Não
deve ser por acaso que Tales é um dos sete sábio e o primeiro
filósofo.
O filósofo surge como o herdeiro do chamane,
do sacerdote, do poeta. É detentor do saber como o eram os seus
antepassados. Mas agora o saber é oferecido a quem
o quiser fruir. É um saber aberto que contrasta, agora, com o circulo
fechado do antigo corpo de saber.
Há uma dessacralização do saber
? A resposta não é fácil. Há mitos e narrativas
que perdem velocidade, que se vão tornando mais abstractos
, ao longo dos tempos. Mas a religião não perde o seu prestígio
e acompanhara sempre o homem grego.
Pelo que dissemos, já anteriormente, a expressão
passagem do mito ao logos não é muito correcta.
O mito não desaparece com a filosofia, umas vezes
enfrenta-a, outras cruza-se com ela. Na longa caminhada não há
cortes bruscos, há transformações mais ou menos lentas.
Nos finais do século VII havia condições
para o aparecimento da filosofia. Um quadro político aberto é
uma delas. Mas há também um conjunto de experiência
culturais que preparam o terreno para a " aurora da filosofia".
Álvaro dos Penedos