![]() |
![]() CDD Brasil compartió sus experiencias con una investigación realizada, con iguales objetivos en 1996 Soc. Myriam Aldana
Brasil: Religião e práticas anticoncepcionais. Esta pesquisa realizou‑se na ilha de Marudá, região do Salgado do Estado do Pará, no ano de 1996. Trata‑se de um estudo de caráter descritivo e exoratório. Neste exposição, exponho a problemática da vida reprodutiva de um grupo de mulheres, esposas de pescadores, especificamente suas práticas anticoncepcionais, saliêntando a influência da religião católica nessas práticas. "Marudá não tem pessoas que possam ser enquadradas no nível da chamada "camada alta", ou mesmo, "camada média" regional. A nível regional ou mesmo nacional, os habitantes de Marudá se encaixam no que corresponde ao estrato mais baixo da sociedade brasileira" (Furtado 1987:131) Esta situação de pobreza afeta toda a vida das famílias: as mulheres, além de manter a casa, educar as crianças e garantir todos os dias as condições para que os pescadores possam repor as energias, realizam trabalhos como domésticas, ou caseiras ou fazendo carvão. As mulheres entrevistadas se situam na faixa etária de 15 a 58 anos. Todas elas (58 no total) são mães de família, somando 246 filhos vivos e 28 mortos, ou seja, uma média de 4,8 filhos por mulher. 1. Religiosidade das mulheres de Marudá Das 59 entrevistas, 51 se consideram católicas e 8 de outras religiões, sendo que das 8, cinco tinham origem católica. Poder‑se‑ía dizer que a prática religiosa das mulheres e do povo católico de Marudá se enquadra dentro do que se denomina catolicismo popular, o qual se caracteriza pela participação nas festividades dos santos e novenas e, raramente, na prática dos sacramentos. 0 grande momento da religiosidade é a festa do padroeiro local, comemorado com novena, procissão, muito foguetório e abundante comida. Ademais, o que elas entendem como práticas da religião católica são mínimas. 0 importante para elas é rezar, seja individual‑mente, ou seja, coletivamente (na igreja) en algumas ocasiões. Para a reza individual, basta a presença em casa de alguma estampa de Nossa Senhora, ou de um santo, uma medalha, um santinho ou um terço (rosário). A hora de ir dormir é o momento mais propício para a reza individual. Mas essa religiosidade traz consigo uma certa marca da moral cristã. Entendemos por moral o conjunto de normas que servem para regular o nosso comportamento. Estas normas podem surgir das tradições de um povo, de crenças religiosas, cristãs ou não. Neste caso, estamos fazendo referência à moral eclesial católica que tem desenvolvido na teologia moral todo um conjunto de normas para os/as fieis da Igreja católica. Estas normas de conduta são transmitidas pela Igreja oficial através das paróquias, nas missões populares e através de todos os meios com os que ela conta para transmitir seus mensagens. 2. A concepção e a maternidade Existe em Marudá uma total identificação entre mulher e mãe: não se concebe uma mulher que esteja casada ou acompanhada sem ter filhos. A mulher veio ao mundo como a responsável pela reprodução do gênero humano. Não tem outra alternativa! Uma mulher, parteira, 53 anos, mãe de 12 filhos, 8 vivos, 4 mortos, diz o seguinte a respeito da maternidade: Você acha que toda mulher tem que ter filhos? Pode existir uma mulher que diga que não nasceu para ter filho. - "Tem muitas dessas que diz que não nasceu para ter muitos filhos ou não ter mesmo nehum mais eu digo assim: Deus só dá importância para quem ele tem que dar, porque olhe a quantia que ele me deu foi 12 e eu parei com 12. Deus sabe quantos filhos dá para cada um? ‑ "Pois é justamente: ele me deu 12 então justamente eu só tive, aqueles 12 aí pronto, eu parei de ter, graças a Deus, ainda mais agora que eu não sou mais mulher. Sim, mas porque você não é mais mulher' ? ‑ 'A minha menstruação foi embora. Quando a gente não menstrua, a gente deixa de ser mulher? ‑ "É, porque quando a mulher pega filho é na menstruação e a pessoa, quando ela para de menstruar, ela não pega mais filho. Quer dizer que ser mulher é ter filho? ‑ "É" (Entrev.45) A maternidade é para as mulheres de Marudá a razão das suas vidas. Nas falas delas e na sua prática quotidiana, percebe‑se a densa ligação das mulheres com seus filhos. Vejamos alguns depoimentos: - "A gente sem filhos não é gente". (Entrev.55) - "Todo sacrifício vale pelos filhos" (Entrev.53) 3. Religião e anticoncepção A contracepção é um fato extremamente complexo na vida das mulheres. Não é apenas uma questão médica ou técnica, não é só uma questão religiosa, pois significa controlar, conduzir sua vida. A decisão de ter ou não ter mais filhos, mexe em fibras profundas da identidade feminina que estão relacionadas com a sexualidade, com sua fé, com sua inserção familiar e social. A Igreja diz que é pecado evitar filhos? ‑ "Eu escutei o Padre falar que é pecado o aborto; uma criança é essencial assim como qualquer pessoa, e que a mulher não debe tomar remédio para matara criança; a mulher tem que ter muito filho,, Deus dá um jeito! 0 Padre também fala que é pecado tomar remédio para evitar filho e que a mulher vive no mundo para ser mãe, e que daqui uns tempos, as mulheres tão todas operadas". (Entrev. 1) ‑ "A Igreja condena; que isso (usar métodos anticoncepcionais) é pecado, igualmente o aborto; evitar ter um filho épecado; isso Deus não aceita ". (Entrev 1) - “A Igreja fala que a mulher não deve evitar‑ é contra Deus; essa parte de evitar a gente não deve; só que eu acho importante evitar, melhor do que colocar um monte de filho no mundo, do jeito que está a vida, tudo caro!" "... A Igreja é contra o aborto; ela também é contra a mulher se operar, tomar remédio. Teve uma missa agora em outubro e o Padre colocou sobre aquela doença, a AIDS, se nós tivéssemos obedecido os mandatos da Igreja, não teria ocorrido tanta doença; agora o povo esta fazendo sexo adoidado" (Entrev 13) Mas também existem depoimentos diferentes‑ Ele fala assim que não é prá gente ter muitos filhos, que a vida está muito cara e que, quando a mulher se sentir barriguda, não é prá tomar remédio prá matara criança" (Entrev.33) ‑ “Agora ela (Igreja) já diz que já não é mais pecado porque todo mundo se opera e fica arrependida". (Entrev. 1) O que pensam as mulheres: Quando se pergunta para as mulheres o que elas pensam a respeito dos posicionamentos da Igreja de ser ou não pecado evitar filhos, elas não concordam e se referem a uma relação direta delas com Deus, ou alegam razões pelas quais é melhor controlar o número de filhos. Elas dizem assim: ‑ "Vou à missa, à igreja ... ; não sei, acho que não, né... ficar evitando, nó. Já tive muitos filhos; aí fico pedindo prá Deus: meu Deus, me opere, já chega de ter filhos; eu já tive um bocado de filhos, né; eu já dei uns quatro filhos, eu acho que já não é mais pecado; eu já peço prá Deus que não me dê mais. Eu já tive 14 filhos; não é pecado!" (Entrev,44). ‑ "No meu modo de ver, eu acho que é melhor evitar do que assim, depois de grávida, tomar remédio para abortar." (Entrev. 4 1) ‑ "Prá mim, eu acho que não, evitar filho não é pecado. Prá outros, eu não sei o que eles pensam". (Entrev.40) 4. Religião. e esterilizaçao É pecado a mulher se deixar operar? ‑ "Eu tenho sim como um pecado a mulher se operar. Deus coloca a gente no mundo completa; se Ele não quisesse que a gente tivesse filho, a mulher não nascia mulher". A senhora não se operou? ‑ "Quem me operou mesmo foi Deus, eu já me operei porque eu fiz um períneo bexiga baixa que eu me operei, mas para mim não ter mais filhos, não". (Entrev45) 5. Religião e aborto Esta posição das mulheres sobre o aborto como crime e pecado, coincidente com a posição da Igreja, não se altera nem nos casos previstos por lei na constituição brasileira. Nos debates e em algumas entrevistas, foram colocados casos sobre estrupro e risco de vida da mãe, e as mulheres falavam igualmente da impossibilidade de interromper a gravidez. Vejamos alguns depoimentos: ‑ "Eu vou ter filho quando Deus me der, a única coisa que eu não vou fazer é abortar. (Entrev8). ‑ Meus me livre, até eu falar um assunto desses, já estou pecando" (Entrev. 10). ‑ "Eu acho que sim é pecado matar a criança na barriga, se operar e evitar". (Entrev 15). ‑ Aborto é um pecado". (Entrev. 34‑5‑35‑3638‑40) Um aspecto interessante é que, para algumas mulheres o aborto é cometido só quando o feto já tem três meses; antes disso, os chás ou remédios que se tomam são só para "arriar a menstruação". ‑ "Eu não sei não, mas as vezes eu fico pensando assim, ... tem mulher que se ela toma o chá em casa, ela acha que não é pecado, porque ela toma o chá para arriar a menstruação, agora, se ela toma, compra o remédio na farmácia, aí é pecado, porque é aborto eu acho que ela pensa assim .... também é pecado tomar um chá né, porque ela fala que é para arriar a menstruação, então o chá é a mesma coisa desde que ela esteja grávida né.... " (Debate 3). 6. Conseqüências para a vida das mulheres A respeito das práticas referentes à vida reprodutiva e ás conseqüências das mesmas, não há consenso entre as mulheres pesquisadas. As diferenças manifestas são determinadas pelas diferentes circunstâncias por elas vividas. 0 ponto comum é o sentimento de culpa, como fruto da transgressão de normas estabelecidas. Vejamos os siguintes depoimentos: ‑ "A Igreja condena que isso (usar métodos anticoncepcionais) é pecado, igualmente o aborto, evitar ter um filho épecado, isso Deus não aceita. Eu tenho muito medo do castigo de Deus". (Entrev.3) "Você acha que cometeu pecado por ter operado ou tomado chá?" ‑'As vezes eu me arrependo, porque com esta minha última filha que está com três anos, eu fiquei com um gravidez que não queria, sabe. 0 rapaz não queria... estava errado aí tomei remédio, remédio, remédio, aí fiquei desesperada... quis tirar até minha própria vida, mas aí vi que não adiantava, aí eu pensei., não, já que Deus me deu, então tenho eu que cuidar e aí eu tive, está com três anos e é uma criança maravilhosa, só que eu não crio, cria minha irmã." (Entre v 29) Uma mulher que fez aborto diz: ‑ "Depois eu me arrependi, Principalmente se eu tivesse deixado ele, ele já estava grande, eu não devia fazer isso, eu sei que foi um pecado". (Entrev. 18) Como vimos, é visível o sentimento de culpa, de se sentirem mulheres pecadoras, castigadas por Deus com doenças por se terem operado. No entanto, algumas fazem alianças com Deus para diminuir estes sentimentos: ‑ Acho que Deus vai me perdoar por ter‑me operado, pois ele já sabe como é difícil criar estes sete filhos, imagina se tenho mais"! (Debate 1) Acha que cometeu pecado quando se operou? ‑ "Não, não sei, acho que não, não matei; eu já tinha sete, eu achei foi bom, eu tinha à que ter me operado há mais tempo, agora quando eu rezo, eu converso com Deus, agradecendo pelos sete filhos; não tive mais porque as condições não deram". (Entr.20) |
© Católicas por el Derecho a Decidir
Conciencia Latinoamericana es una publicación
de la Oficina Regional para América Latina de
Católicas por el Derecho a Decidir. Los artículos
pueden ser reproducidos libremente, siempre y
cuando se cite la fuente.