(de Mainline, edição especial VIII Conferencia sobre SIDA, Amsterdão, Julho de 1992)
Dois terços dos consumidores de heroína perseguem o dragão. Até agora pouco se conhece sobre o assunto. Será que a folha de alumínio liberta fumos prejudiciais? O que acontece quando a droga está adulterada com outras substancias? Quanta droga se desperdiça quando se persegue o dragão?
As perspectivas de alguns consumidores, um médico e um
analista laboratorial.
Esta pratica iniciou-se com grande fervor em Hong Kong no
inicio dos anos 50. Devido ao facto da espiral de fumo se
assemelhar a cauda de um dragão, foi chamada de chui lung, o que
significa perseguir o dragão. O fumo é inalado por intermédio
de um pequeno tubo. Na Holanda o costume de fumar heroína,
apenas se popularizou nos anos setenta quando o principal
fornecimento de heroína provinha da China. É por isso que a
perseguição ao dragão ficou conhecida, quer na Holanda quer em
Portugal, como "chinesa". Dois terços
dos consumidores de Amsterdão ingerem a heroína deste modo.
Carlos tem vindo a perseguir o dragão logo desde o inicio, à 15 anos atrás.
"Eu vim do Suriname para Holanda por intermédio do meu tio. Passava muito tempo com os meus dois primos. Fumávamos erva e deambulávamos pelas ruas um bocado. Um dos meus primos tinha um Chevrolet conversível cheio de cromados, em perfeitas condições. Isso é que foram tempos bons, meu! Toda a droga que queríamos, mulheres bonitas, e noites de dança no Marcanti. Os meus dois primos já eram consumidores na altura, e então eu pedi-lhes para experimentar perseguir o dragão. Uma coisa levou a outra.
Nunca fiz outra coisa senão fuma-la, primeiro também em
cigarros, mas normalmente na prata. Não existem muitos
Surinameres a chutarem, eu apenas conheci alguns, poucos. Chutar
é muito mais comum nos miúdos Holandeses. Eles frequentemente
iniciam-se logo com seringas."
Joop iniciou-se com a seringa.
"Eu tinha 16 anos quando deu o primeiro chuto. Após duas
semanas eu conseguia chutar-me sem qualquer ajuda. Nunca pensei
em fumar a droga. Eu nem sequer alguma vez tinha fumado cigarros.
Apenas comecei a fumar tabaco alguns anos mais tarde."
Durante dez anos Joop injectou-se. Primeiro apenas com heroína,
e por ultimo com coca assim como com misturas. Há um ano e meio
atrás ele parou de se injectar e começou a perseguir o dragão
em vez de se injectar. "Foi as minhas veias, está a ver.
Não tinha veias fáceis para começar, mas no fim já não
restava nenhuma que pudesse usar. Sempre perdi muito sangue, e
claro está eu repetia outra vez, porque se quer o estalo custe o
que custar. Principalmente se damos na coca. Parei primeiro com a
coca, porque estava completamente fora de controlo. Um par de
meses depois parei de chutar. De qualquer modo eu já não tinha
o delicioso flash há muitos anos. Perseguir o dragão
adequa-se-me melhor. E é também melhor para a minha
saúde."
Perseguir o dragão tem menos riscos para a saúde que a administração endovenosa. Quando se chuta, vai tudo directamente para a corrente sanguínea: não apenas a heroína, mas também qualquer coisa com a qual tenha sido "cortada" e qualquer outra substancia tóxica. Usar um pedaço absorvente de algodão, pode dar um pouco de protecção contra a maioria dessas substancias, mas muitas podem ainda vir através da própria agulha e então entrar directamente na corrente sanguínea. Nesta situação estão todos os elementos solúveis e qualquer coisa que seja extremamente pequena, por exemplo, bactérias. São as sujidades e as bactérias que vêm nos chutos que causam todas as misérias que os viciados em heroína que a injectam: abcessos, tremores, envenenamento. Perseguir o dragão significa que nenhuma substancia tóxica entra directamente no sangue. Tem-se um filtro extra, os pulmões. O fumo de heroína inalado entra nos pulmões pelas vias respiratórias. E os vasos sanguíneos pulmonares absorvem a heroína. Apenas após percorrer este trajecto é que a heroína entra na corrente sanguínea. Muitas pessoas perguntam: mesmo que essas substancias tóxicas não entrem todas directamente na corrente sanguínea, não serão elas igualmente prejudiciais para os pulmões?
"Eu nunca me deparei com um problema pulmonar que tenha
sido causado exclusivamente pelo fumo de heroína" diz o
doutor Krish Kanhai. Ele tem trabalhado desde há oito anos para
o Ministério da Saúde com médico especializado em drogas e ele
é bastante claro sobre os possíveis riscos para os pulmões
decorrentes do fumo da heroína. "Não me interpretem mal,
não é saudável. Fumar é sempre mau para as vias
respiratórias, quer seja tabaco, marijuana ou heroína".
Após guardar o seu maço de tabaco ele continua. "O fumo de
algumas substancias que estão presentes na droga podem causar a
contracção das vias respiratórias. As quais podem também
ficar irritadas. E tudo isso pode levar a queixas sobre os
brônquios . Muitas pessoas vêm a sua produção de
expectoração aumentada. A heroína reduz a impressão na
garganta, o que significa que a expulsão da expectoração é
inibida. Isto provoca a sua acumulação nos brônquios e pode
causar pneumonias. Mas não é algo que se contraia facilmente.
Apenas se alguém já tem uma saúde debilitada, ou tem dormido
na rua ao frio ou ainda se não tomar os cuidados adequados
consigo próprio, arranja problemas como esse. O qual não é
proveniente da perseguição ao dragão mas sim por outras
razões." O assunto é diferente quando alguém já tem
problemas pulmonares. "Perseguir o dragão pode ser perigoso
para as pessoas que têm tendência para a asma brônquica. Pode
provocar um ataque grave. Conheci duas pessoas que tiveram um
choque mortal durante um ataque desses." Mas no contexto
geral das drogas Kanhi não considera que perseguir o dragão
como um risco para a saúde. "De todo em todo é mais seguro
que a administração endovenosa."
Para quem fuma, a prata é o que as seringas são para os consumidores por via endovenosa. Será apenas algo menos complicado. Uma seringa tem de ter um invólucro esterilizado, uma bom embolo, e uma agulha afiada. Com a prata não é necessário ser tão cauteloso. Desde que a prata seja de metal e possa ser aquecida gradualmente. Na prática um rolo de folha metalizada de cozinha é o melhor. Quanto mais espessa melhor. A este respeito, o Carlos diz, "Quando não tenho nenhuma prata, compro-a na rua aos vendedores ou numa peixaria. Ás vezes compro um chocolate. Algumas marcas de chocolate também têm um bom papel de prata. Por exemplo, o chocolate branco Galac, do tipo sem arroz, é frequentemente comprado apenas por causa do invólucro. É por isso que nos sítios em que as pessoas perseguem o dragão é frequente ver barras de chocolate espalhadas pelo local. Em caso de necessidade, por vezes uso a prata dos maços de cigarros. Primeiro temos de queimar o papel e a folha é muito fina. Pode-se facilmente queimar buracos. Mas quando precisamos ela serve."
Antes do mais a folha de alumínio é alisada completamente.
Por exemplo com um rolo de papel higiénico. De modo a que a
droga se possa mover livremente na superfície da prata. Algumas
pessoas aquecem ligeiramente a prata antes de colocarem lá a
heroína. O que queima a fina camada de plástico que existe na
folha. O plástico destina-se a prevenir a oxidação da folha e
a torna-la mais fácil de enrolar. No normal uso caseiro não
existem quaisquer problemas resultantes da camada de plástico,
mas a inalação do plástico queimado é prejudicial para a
saúde. "Claro que fumar plástico é prejudicial para a
saúde." Afirma o Dr. Kanhai. "O mesmo se passa com o
fumo do alumínio que se queima por ter sido aquecido em demasia.
É melhor deixar que o plástico presente na folha se queime
antes de se iniciar a inalação."
Perseguir o dragão tem outro ponto positivo. As pessoas que fumam a heroína conseguem-se aperceber mais facilmente da qualidade da droga. Joop diz: "quando se persegue o dragão pode-se experimentar um pouco primeiro para verificar se o produto é bom ou não. Quando se injecta é diferente. Dissolve-se a droga, prepara-se o chuto e injecta-se no corpo tudo de uma vez."
A droga de boa qualidade derrete-se quando se aquece, e
torna-se num óleo castanho claro que escorre facilmente na
superfície da prata. O Carlos diz: "Se ela deixar um rasto
de pequenas escorias, então é boa." Quando o óleo se fixa
transforma-se uma substancia com aparência resinosa. A resina
deve ser dura como vidro e transparente. "É também uma boa
ideia retirar da prata uma pedacinho da resina e segura-lo contra
a luz. Se ele se libertar facilmente da prata sem se esmigalhar e
se não for visível qualquer impureza quando visto à contra
luz, então pode-se assumir que a droga é boa." Também se
pode saber se a droga é boa quando se a fuma. "Algumas
pessoas dizem que tem um sabor simultaneamente amargo e azedo.
Outras pessoas dizem que sabe como "massa de vidro". Eu
penso que tem um sabor desagradável, um sabor a sepultura, mas
no mínimo é um sabor que se pode reconhecer entre
milhares." Diz o Carlos. " mas o teste principal é se
ficamos pedrados com ele ou não. E é possível verificar disso
na primeira inalação. Se não se sentir nada com ele, então
não presta."
Nem todos os tipos de heroína se permitem a perseguir o dragão facilmente. Poder-se-ia pensar que a heroína chinesa do Oriente será a melhor para fumar. Devido ao nome e também devido ao facto da heroína chinesa ter dominado o mercado na época em que a perseguição ao dragão se ter tornado popular na Holanda. Mas veio a conhecer-se que a heroína "turca", de países como o Paquistão e o Afeganistão é mais adequada. Este tipo de heroína é preparado de uma forma diferente da Chinesa. Apenas se dissolve após lhe ter sido adicionada um pouco de sumo de limão ou de ácido ascórbico, mas ela torna-se mais fácil de fumar.
H. Hauser do laboratório Forense de Rijswijk chegou ás mesmas conclusões. Ele fez uma pesquisa sobre a perseguição do dragão. Ele colocou diferentes tipos de heroína e heroína adulterada com outras substancias na mesma prata e aqueceu as amostras com um isqueiro. Em dois segundos a temperatura subiu até aos 600 graus centígrados. Hauser recolheu os fumos e controlou a quantidade de heroína contida em cada amostra. A percentagem de heroína no fumo revelou-se principalmente dependente do tipo: existe três vezes mais heroína no fumo da heroína "turca" do que na "chinesa". As substancias utilizadas para adulterar também revelaram ter uma grande influencia na quantidade de heroína no fumo. Adulterar com cafeína produz resultados positivos: ela incrementa a facilidade com que a heroína pode ser fumada. A cafeína começa a evaporar-se pelos 100 graus centígrados e pode-se dizer que leva tudo o resto com ela. Após se aquecer uma mistura de heroína "turca" e cafeína algumas vezes continua presente no fumo três quartos da heroína. Todos as outras substancias adulterantes (paracetamol, manitol, estriquinina, lactose e glucose) usadas para "cortar" a heroína, diminuem a sua proporção no fumo. Quando a heroína é "cortada" com noscapina (um produto da preparação descuidada da heroína) a percentagem de heroína no fumo é diminuída de um terço.
Teoricamente é possível que alguém fique mais intoxicado
por perseguir o dragão com uma heroína fraca que tenha sido
adulterada correctamente do que com uma heroína forte adulterada
com substancias más para o efeito. A forma como é aquecida é
também muito importante para o efeito. Aquecer rapidamente
significa que mais heroína se perde. Quanto mais habilidade tem
o consumidor mais heroína ingere.
"Tem de se aprender a perseguir o dragão." Diz Joop. "Já me apercebi que tenho um estilo completamente diferente do Carlos o qual já fuma há muito mais tempo que eu. Você vê, ele fuma de uma forma mais dolorosa que eu. Ele usa uma pequena chama e consegue aspirar praticamente o fumo todo. Ele consegue passar horas com um pacote. Eu sou diferente. Sou muito mais voraz e então perco muito fumo. É por isso que eu coloco um revestimento de folha de alumínio no meu tubo. Após eu ter fumado existe lá sempre um pequeno deposito avermelhado. Esse deposito é droga que não ingeri. Eu guardo esta prata para a manhã seguinte. Primeiro que tudo, aqueço o depósito até que ele se transforme numa gota e então fumo-o."
"Isto adequa-se-me perfeitamente. É mais saudável e eu retiro mais prazer da droga. Paço mais tempo com um pacote e continuo a sentir-me bem. Sou também mais sociável. Fumar juntos é mais sociável que chutarmos juntos, não é? Também existe mais inclinação a ceder algum. Compare com alguém que se senta sociavelmente num bar e convida toda a gente para uma rodada. É totalmente diferente de alguém se sentar as escondidas numa casa de banho e atirar para fora o conteúdo da seringa. Eu já não me encaro a mim próprio como um junkie, mas sim como um consumidor"
John-Peter Kools
Tradução do texto disponível no Drugtext website.
Publicado com o consentimento da DrugText.
Setembro de 1997