Ah! Meu Amor,
Só agora compreendo
Aquela expressão prostrada
Aquele olhar perdido
Vago
Mirando o infinito
Na fumaça
Do seu cigarro pensativo.
Horas atrás,
Nós, conversando no bar
E eu, só para impressionar,
Chamei o garçom em voz alta
E gritei:
"-Champagne para dois!"
Eu queria comemorar
A minha vitória,
O meu triunfo de macho.
E, eu falava, falava, falava
Das minhas proezas, da minha esperteza
Dos meus carros, dos meus negócios
Campeão dos varões.
Eu merecia uma medalha:
Um prêmio de exposição.
E, você, paciente, escutava
escutava, escutava, escutava
Fingindo prestar atenção.
E, quanto mais eu pensava
Estar agradando
Mais eu falava, falava, falava
E, não parava de falar.
Em todo momento que você tentava
Esboçar uma palavra
Eu cortava e voltava a falar.
Eu só pensava:
" Esta vai ser minha noite!"
E, você sorria só prá me agradar.
Depois, no carro,
Levando você prá casa, prá cama
Ainda assim, você sorria
Só prá me agradar.
E, em pleno quarto,
Todo arrumado, preparado
Para a suprema glória do machão!
Eu a despi, apressado
E, na ânsia do ato,
Não fui capaz de perceber
O seu silêncio, a sua paz.
Eu só dizia:
"-Mexe mais, isso,
Assim, mexe mais,
Que delícia!".
Quanto lugar-comum!
Como se amar fosse um ato
De um filme de sacanagem...
E, quando no auge do meu êxtase,
A fiz instrumento
Do meu prazer egoísta,
Lancei um urro triunfal:
Um grito de macho primal.
Você, ainda assim, sorriu...
Bela, singela e pura.
Que grande atriz!
Você me fez sentir
O maior entre os homens.
Mas, lá no fundo, do seu silêncio
Eu nem sequer percebi
E, esqueci de perguntar
Se, ao menos,
Você tinha gozado também!
E, agora, na solidão
Desse quarto alcoviteiro,
Olhando a fumaça revolta
Que sai do meu cigarro teimoso
É que, finalmente, compreendi
O quanto você tinha me superado.
Porque, na minha infinita cegueira,
Eu, simplesmente, me tinha negado
O supremo prazer de ser capaz
De fazer alguém
Se sentir feliz...
Fernando A. Moreira